Nordeste

Camilo Santana comenta sobre combate à pandemia no CE, luta contra o crime organizado, avanço econômico e busca pelo diálogo entre Ciro e Lula, para 2022

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), falou com exclusividade à Revista NORDESTE sobre os sucessivos sucessos da sua gestão, expondo como venceu o crime organizado nos presídios daquele Estado, a punição para rebelião de militares, além dos desdobramentos da pandemia e a recuperação econômica diante deste cenário em sua administração.

Nesta entrevista, concedida ao jornalista Walter Santos, ele faz uma síntese dos problemas e soluções apontadas pelo seu governo. Camilo Santana fala ainda sobre as conjecturas para as eleições presidenciais de 2022.

A edição de número 171 da Revista NORDESTE já está disponível nas bancas e para leitura, no modo virtual, com acesso direto por link no Portal WSCOM ou pelo site da Revista (www.revistanordeste.com.br).

LEIA NA ÍNTEGRA:

A FORÇA DA GESTÃO QUE TEM MUDADO O CEARÁ

EXCLUSIVO: Governador Camilo Santana expõe como venceu o crime organizado nos presídios, a rebelião punida de militares e os efeitos da Covid mantendo o Estado com crescimento econômico

Por Walter Santos

Quem acompanha o Brasil pela ótica e defesa do Nordeste sabe dimensionar a perspectiva de futuro no estado do Ceará diante do governador Camilo Santana, jovem, corajoso, visionário e de dimensão política. Nesta Entrevista ele faz uma síntese dos problemas e soluções apontadas pelo seu governo.

 

Revista NORDESTE – Em exame apurado, é fácil de atestar que o Sr. no segundo mandato enfrentou imensas e/ou graves crises externas ao Governo, como poucos: a rebelião do crime organizado nos presídios tocando terror na Grande Fortaleza, o motim dos policiais com direito a atentado contra senador Cid Gomes e, agora, os efeitos da Covid com incompetência do governo Bolsonaro em não saber fazer a gestão da crise. Se possível, gostaria que o Sr. abordasse um a um dos casos…

Camilo Santana: Temos enfrentado diversos desafios ao longo dos últimos anos. Não apenas nesse segundo mandato. Nos primeiros quatro anos nos deparamos com uma grave crise hídrica, que já durava seis anos; a crise política do país, que culminou com o impeachment da então presidenta Dilma; e a consequente crise econômica. A partir de 2019 tivemos que enfrentar os atentados de organizações criminosas, que ocorreram devido ao endurecimento que realizamos contra o crime organizado em nossos presídios, e o motim de parte da Polícia Militar. Mas, com muita seriedade e firmeza, conseguimos superar esses momentos difíceis. Agora estamos em meio a pior crise sanitária da história do país, um desafio muito grande para todos os gestores públicos. Desde o início tenho falado que faltou uma coordenação nacional para o enfrentamento à pandemia, o que obrigou os estados a agirem de forma rápida para evitar que a situação fosse ainda mais grave. Sempre lutei para que o Governo Federal assumisse seu papel na pandemia. O negacionismo atrapalhou e continua atrapalhando os estados nesse enfrentamento à Covid.

Entrevista com o governador Camilo Santana (Revista NORDESTE)

NORDESTE – O Ceará foi um dos estados mais afetados na pandemia, entretanto, motivou soluções em meio às novas variantes do vírus. Qual o maior ensinamento da tragédia diante de tantos mortos?

Camilo Santana: Desde o início realizamos uma série de ações de enfrentamento à Covid. Formamos um comitê que envolve 30 instituições, incluindo os três poderes, Ministério Público Estadual e Federal, entidades de classe e sociedade civil. Adquirimos três hospitais, o Hospital Leonardo da Vinci, na capital, que virou referência no tratamento de pacientes com Covid, e dois no interior do estado. E montamos diversas unidades de campanha, que permaneceram abertos durante toda a pandemia e estão sendo fundamentais para salvar vidas. São mais de 5 mil leitos extras exclusivos para atender pacientes com Covid só na rede estadual, sendo cerca de 1.300 UTIs. Desde o ano passado implementamos diversas ações sociais, que beneficiaram 3 milhões de cearenses, como isenção nas contas de água e energia, distribuição de gás, benefícios aos estudantes, e o Cartão Mais Infância, que ampliamos para 150 mil famílias beneficiadas com R$ 100 mensais, entre outras. As medidas de isolamento social têm sido tomadas com base na orientação dos profissionais de saúde e sempre pensando em salvar vidas. Inclusive, nossas ações foram destaque recente da Revista Science, uma das publicações científicas mais respeitadas do mundo. Além disso, buscamos, desde o ano passado, que as vacinas chegassem o quanto antes ao Ceará e a todo o País. Compramos quase 6 milhões de doses da Sputnik V, que já é aplicada em 60 países, e aguardamos a aprovação da Anvisa para importação e uso da vacina. A vacinação é o único caminho para superarmos essa pandemia, e não vou descansar um minuto até que todos os cearenses estejam vacinados.

 

NORDESTE – Em que pesem os dramas recentes vivenciados com sua firmeza de atitudes, a exemplo da não anistia aos militares grevistas, o Ceará se mantém com indicadores acima da média. Como o sr identifica causa e efeito desta realidade sob seu comando?

Camilo Santana: Quando se trabalha com seriedade, foco, transparência e planejamento, os resultados aparecem. Estamos entre os estados com melhor situação fiscal. O Ceará é o que mais realiza investimentos públicos, melhorando os serviços e movimentando a economia, e somos líderes em transparência, segundo a Controladoria Geral da União e organismos internacionais. Além disso, a educação do nosso estado há muitos anos obtém os melhores resultados do Brasil – de acordo com o último Ideb, nove das 10 melhores escolas estão no Ceará. Na saúde, criamos um processo de modernização, ampliação e regionalização, que vem dando resultados positivos. Hoje o paciente não precisa mais se deslocar até a capital para ter atendimento. Temos unidades de referência em todas as regiões do estado.

 

NORDESTE – O Sr admite que boa parte dos resultados do tempo presente tem a ver com a manutenção de políticas públicas anteriores desde a fase de Tasso Jereissati, Ciro e Cid Gomes até sua gestão?

Camilo Santana: Acredito que resultados consistentes são feitos de políticas de Estado, não de Governo. O Ceará tem a sorte de ter tido ótimos governadores nas últimas décadas, que sempre se preocuparam com o desenvolvimento do estado. Isso foi fundamental para que tenhamos obtido excelentes resultados em diversas áreas, como na gestão fiscal; atração de investimentos e a consequente geração de empregos; educação, entre outras. Estamos no caminho certo para deixar o Ceará ainda mais forte e melhorar a qualidade de vida da nossa população.

 

NORDESTE – O núcleo de planejamento do Governo trabalha com a projeção do Ceará na direção de 2050. Quais os maiores e mais urgentes desafios?

Camilo Santana: O mais urgente é a questão pós-pandemia, principalmente na recuperação econômica. É fundamental termos mecanismos para que a economia do estado – e do país – volte a crescer rapidamente. Sobre o futuro, o Brasil perdeu a cultura de planejar a médio e longo prazo. A ideia do Ceará 2050 é recuperar essa rotina de discutir e debater as ações para a nossa sociedade. Pensar qual o Ceará que nós queremos para o futuro, independentemente de governo. Este é um projeto de Estado, que tem sido discutido com todos. Envolvemos todos os setores, produtivos, sociais e políticos. Só assim conseguiremos, a longo prazo, construir um Ceará mais justo e desenvolvido.

 

NORDESTE – Como o Sr analisa, conforme estatísticas, o fato de Fortaleza ser a Capital de maior densidade demografico-econômico-social entre as capitais nordestinas?

Camilo Santana: Isso torna o desafio para o poder público ainda maior, tanto na esfera estadual quanto na municipal. Mas temos realizado diversas políticas públicas ao longo dos últimos anos, em parceria com a Prefeitura de Fortaleza, para melhorarmos a qualidade de vida dos fortalezenses. São centenas de equipamentos de esportes e lazer espalhados pela cidade, como as areninhas e brinquedopraças; melhorias na mobilidade e na infraestrutura urbana, com sistemas de água e esgoto para a grande parte da população; equipamentos culturais, entre outros. O caminho é longo, mas Fortaleza ainda vai evoluir muito e se firmar como uma das melhores cidades para se viver.

 

NORDESTE – Nos últimos tempos, o Ceará passou a ser HUB de diversos segmentos fundamentais, a exemplo do Cabo de fibra ótica ligando a Angola (África), a concentração de voos internacionais, os investimentos holandeses na gestão e investimentos de Pecém, energia das ondas marítimas, etc. Objetivamente quais os impactos na economia e geopolítica de negócios do estado com o mundo?

Camilo Santana: O Ceará estava vivendo um momento único antes da pandemia. Conseguimos alcançar a nossa trinca de HUBs, com três projetos estratégicos para o estado – Aéreo, Portuário e Tecnológico. Conquistamos o HUB da Air France-KLM-GOL; fechamos a parceria com o Porto de Roterdã; e viramos um centro de conexão de dados com o lançamento do cabos SACs e Monet, da multinacional Angola Cables, ligando o Ceará à Africa e aos Estados Unidos. A internacionalização da economia cearense passou a ser uma realidade. Quando a pandemia passar tenho certeza que retomaremos o caminho para ampliarmos essa atração de investimentos em nosso estado, com mais empregos para os cearenses.

 

NORDESTE – Quais os próximos passos da educação pública cearense diante de índices extraordinários com reconhecimento nacional?

Camilo Santana: Sempre digo que a educação é o principal caminho para termos um estado mais justo, humano e desenvolvido. Há pouco mais de uma década o Ceará tinha um dos piores resultados do Brasil nos índices de educação. Nós construímos uma política meritocrática com indicadores de rendimento, distribuição de ICMS aos municípios de acordo com os perfis e hoje temos os melhores resultados do Brasil nas últimas séries do ensino fundamental. Transformamos políticas públicas em leis, e quem quer que seja o próximo o governador, terá que seguir a política de Estado. Os resultados estão aí: entre as 10 primeiras escolas do Brasil, nove são do Ceará, de acordo o último Ideb. Temos ampliado ano após ano os investimentos em educação. Realizamos concurso público para contratar mais 2.500 professores, e nosso foco agora é ampliar as escolas de ensino regular em tempo integral. Já temos 38% da rede estadual nessa modalidade e vamos seguir ampliando. Esse é o caminho.

Entrevista com o governador Camilo Santana (Revista NORDESTE)

 

NORDESTE – No campo da inovação, dos tempos disruptivos da Inteligência Artificial, qual a ambição do governo na direção do futuro sabendo da existência de outros Polos relevantes nas capitais nordestinas?

Camilo Santana: O Ceará tem dado passos importantes no caminho do avanço tecnológico. Modernizar a gestão é fundamental para a criação de novas políticas públicas, reduzir as burocracias para atender a população com a máxima eficácia possível. Temos uma série de projetos nessa linha, que têm ajudado na eficiência da gestão pública, como o programa Governo Digital, que informatiza e desburocratiza todas as plataformas de Governo; o Cientista Chefe, que neste ano distribuiu 1.100 bolsas de mestrado para pesquisadores identificarem soluções científicas que melhorem a gestão pública; o Laboratório de Inovação de Dados (Íris), que atua na disseminação de novas metodologias e formas de trabalho ligados à inovação e a utilização de ferramentas digitais em diversos órgãos da administração pública, com foco no servidor; a implantação do teletrabalho; parcerias estratégicas com instituições como Fundação Lemann, Brava, Humanize e República.org para a seleção de gestores em cargos estratégicos, entre outros. Já estamos implementando em áreas como educação e saúde e os resultados têm sido excelentes.

 

NORDESTE – Como o Sr analisa o Consórcio Nordeste, agora presidido pelo governador Wellington Dias diante da pandemia e da construção de projetos socioeconômicos pós-pandemia?

Camilo Santana: O Consórcio Nordeste é inovador e uma grande ferramenta de gestão e compartilhamento de projetos, ideias, apoios mútuos e redução de custos. Juntos, batalhamos por investimentos internacionais para o desenvolvimento de toda a região, não apenas de cada estado. Se formos trazer para a pandemia, criamos um comitê científico para analisar os dados e temos realizado diversas ações em conjunto, como a compra de 37 milhões de doses da vacina Sputnik, que aguarda aprovação da Anvisa. Os resultados estão aí: o Nordeste é o que registra menos mortes por 100 mil habitantes na pandemia, segundo dados do próprio Ministério da Saúde.

NORDESTE – O Sr conclui seu segundo mandato no próximo ano. Qual seu projeto de futuro pós gestão? Será pré-candidato ao que? Senado, presidência…

Camilo Santana: Tenho dedicado todo meu esforço para ajudar o Ceará a superar essa pandemia e fazer o estado crescer e se desenvolver ainda mais, retomar a geração de emprego e renda para a população. Eleição será apenas no ano que vem e teremos o momento certo para discutir isso.

 

NORDESTE – Há um cenário distinto a partir do Ceará na direção de 2022, que é seu desempenho de gestão com reconhecimento com status de candidato, diante de Ciro Gomes, seu aliado, também candidato à presidência e, sobretudo, Lula retornando com força. Como vai gestar este cenário de fortes realidades?

Camilo Santana: Eu tenho defendido que é preciso mais diálogo e maturidade para aglutinar as forças de centro-esquerda para um caminho mais democrático. Intermediei uma reunião entre o ex-presidente Lula e o ex-governador Ciro Gomes num encontro no ano passado. Eles têm muito mais convergências do que divergências. São dois líderes importantes. Lula foi um dos melhores presidentes da história deste País e tem muito a contribuir, assim como Ciro, uma das maiores inteligências do Brasil. Mas não dá para cada um agir sozinho. O projeto do País deverá estar acima de nomes, sem mágoas, sem vaidades e olhando para um horizonte. A briga das esquerdas e do centro só fortalecerá esse projeto extremista de poder em andamento.

 

NORDESTE – Quem será o candidato do PT?

Camilo Santana: A preço de hoje o nome é Lula, mas acredito que o partido definirá no momento certo.


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