Nordeste

Historiador José Octávio Arruda Melo aponta trilogia fundamental para entender a essência de Celso Furtado

03/08/2020


José Octávio de Arruda Melo destaca na Revista Nordeste trilogia assinada por Celso Furtado

Por Redação / Revista NORDESTE

A edição de nº 162 da Revista NORDESTE aborda a trajetória, os ensinamentos e o legado do economista e pensador brasileiro, Celso Furtado, cujo centenário de nascimento foi celebrado no último dia  26 de julho, mas que as homenagens se estenderão por todo ano de 2020. Entre os destaques, texto assinado pelo historiador e professor catedrático José Octávio Arruda Melo.

O historiador aponta obras fundamentais para entender a essência do economista. Segundo ele, Celso Furtado foi responsável por clássicos da história e teoria econômica, além de estudos acerca da problemática brasileira e universal, sob a ótica do desenvolvimento. Mas, Furtado também produziu autobiografias. Entre elas, A Fantasia Organizada (1985), A Fantasia Desfeita (1988), e os Ares do Mundo (1990).

Reprodução: Revista NORDESTE

Leia abaixo, na íntegra:

TRÊS AUTOBIOGRAFIAS DE CELSO FURTADO

Historiador aponta obras fundamentais para entender essência do economista

Responsável por clássicos de História e Teoria  Econômica, além de estudos acerca de problemática brasileira e universal, sob a ótica do desenvolvimento, Celso Furtado também produziu autobiografias.

Isso se materializou, com A Fantasia Organizada (1985), A Fantasia Desfeita (1988) e Os Ares do Mundo (1990) que Rosa Furtado condensou em Obra Autobiográfica para a Companhia das Letras em, 2014.

Três Livros de Ideias

Definidas pelo autor como produções que “reúnem textos que se relacionam com experiências pessoais e reproduzem reflexões sobre a problemática desenvolvimento – subdesenvolvimento”, essas obras dispõem de singularidade.

São livros de ideias, como na qualificação que acompanhou a primeira delas. Nesse sentido, afastam-se do padrão convencional das biografias que vão do nascimento às proximidades do desenlace.

Não! Reproduzindo experiências de vida expressam as etapas de um processo histórico em que a presença do autor se confunde com a realidade de que é parte. Por conta disso, é que alcançam as principais particularidades furdeanas. Consultá-los significa conhecer e discutir essas mundividências.

A Primeira Fantasia

Tendo retornado da experiência expedicionária da Itália e passagem por Paris, Celso Furtado esteve, em agosto de 1945, na Paraíba onde proferiu conferências sobre a Segunda Guerra Mundial, antes d regressar ao Rio de Janeiro. A Fantasia Organizada principia aí.

Esse estudo não contou com maior divulgação. Em A Fantasia Organizada quem lhe ganha a palma é Formação Econômica do Brasil (1959), definida como “uma coleção de hipóteses”.

Nas memórias de Celso Furtado, o que mais se volta para a História Econômica do Brasil é A Fantasia Organizada. Nela, sustenta-se que a unidade nacional brasileira não foi assegurada pelo criatório sanfranciscano, mas pelo ouro das gerais. Este, forjando mercado interno, “dispôs do poder gravitacional, que transformou as regiões da pecuária em seus satélites”.

Celso Furtado e a CEPAL

O mais relevante acontecimento da evolução cultural de Celso Furtado ocupa quase a metade da primeira Fantasia – Trata-se do ingresso na CEPAL, prestigiada pelo segundo governo de Vargas (1951/4).

Encarregando-se de difundir dois manifestos de Raul Prebisch, o economista cumpriu impo0rtante função ante setores dos Estados Unidos e Brasil, interessados em eliminar a CEPAL.

Em torno de 1953, o Rio de Janeiro sediou “campo de batalha ideológico”, envolvendo CEPAL, DGV, ISEB, Clube dos Economistas, BND, Assessoria de Programação Econômica da Presidência da República e governos Dutra, Vargas, Café Filho e JK. Trata-se da competição entre intervencionistas e privatistas, ou seja, estruturastes e monetaristas.

Ao lado dos estrangeiros Regino Boti, Juan Noyola e Jorge Ahuma, e brasileiros Lucas Lopes, Roberto Campos (numa primeira fase), Rômulo Almeida e Cleantho de Paiva, Celso Furtado sempre formou com os segmentos favoráveis à industrialização e correção dos desníveis regionais.

Reprodução: Revista NORDESTE

Da SUDENE à sucessão presidencial

Para corrigir as omissões sociais do seu Governo – o Presidente Juscelino convidou para reunião importantes personalidades com o objetivo de discutir a problemática nordestina.

Desponta então A Fantasia Desfeita conde Celso Furtado, contrário a chamada solução hídrica, preconizou medidas de novo alcance que impressionaram o Chefe da Nação. Este decretou a Operação Nordeste da qual adveio o Conselho do Desenvolvimento do Nordeste (CODENO), como gatilho de SUDENE, destinada a nova filosofia de ação para o Nordeste.

Composto por Governadores e instituições entre as quais Igreja e Forças Armadas com atuação na região, o CODENO – Secretariado por Celso Furtado, procurou enfrentar o problem a da terra a fim de equacionar o déficit alimentar nordestino para a industrialização dos Centros Urbanos. No semiárido, conjugar-se-iam os organismo federais, subordinados à nova Superintendência para convivência com a seca.

Apesar da liderança presidencial e adesão dos governadores, surgiram resistências. Conjugada com a nova lei de irrigação, a questão fundiária viu-se repelida pelo governador do Ceará, um dos Estados beneficiários da indústria da seca. Representante desta, o Senador Argemiro de Figueiredo objetou a subordinação do DNOCS à SUDENE.

Associados ao I Plano Diretor da SUDENE, essas questões estão presentes à A Fantasia Desfeita que desemboca na sucessão presidencial de 1960. Nesta, enquanto Jânio Quadros revelara entusiasmo pela SUDENE, Teixeira Lott manifestava indiferença.

Os Estados Unidos rumo à direita – Como os demais volumes de memórias, a segunda Fantasia enfileira as questões da época. De todas, a mais crucial tornou-se a de Aliança para o progresso com que Furtado, após entendimentos com Kennedy, na Casa Branca, contava, para financiamento dos Projetos da SUDENE .Ocorre que a Aliança procurou caminhos próprios, com vistas a barrar os emergentes movimentos sociais.

Tal se verificava porque, abandonado pelo Governo o Plano Trienal de Furtado e San Thiago Dantas, os Estados Unidos do embaixador Lincohn Gordon e adido militar Vernon Walters procederam a opção pela extrema direita brasileira cujo lema consistia em derrubar João Goulart.

Volta à SUDENE, deposição de Arraes e retirada

Por conta disso, os últimos capítulos de A Fantasia Desfeita ostentam feição epilogal. Enquanto Celso Furtado acelerava os trabalhos da SUDENE, diluía-se a autoridade do Presidente da República.

Quando do fracasso doe estado de sítio, em outubro de 53, os militares entenderam que o Governo era incapaz de manter a ordem e passaram à ofensiva. No Nordeste, emergiu o General Justino Bastos que, depois de hostilizar o Governador Miguel Arraes, intentou encabrestá-lo, juntamente com Goulart.

Como ambos não aceitaram a manobra, consumou-se a deposição do Governador, em prol de cujo mandato Celso Furtado envidou, a primeiro de abril de 1964, desesperados esforços. Como estes se revelaram inócuos, restou a Furtado, também punido pela nova ordem, o Caminho do exilio.

Os ares do Mundo

É essa a derradeira memória de Celso Furtado. Liberto de outros compromissos, o economista reverteu à condição de intelectual e professor, comprometido com a pesquisa, o ensino e a produção acadêmica. A primeira parada desse circuito ocorreu em Santiago do Chile. Ali funcionava o ILPES, sob cujos auspícios e tendo Celso Furtado como relator, registrou-se seminário de avaliação das teses da CEPAL. Nele, os sociólogos Fernando Henrique e Enzo Falleto formalizaram a Teoria da Dependência Econômica. A presença de brasileiros, escapados do golpe, levou Furtado a reflexões sobre o êxito e a duração do regime militar brasileiro com previsão para quinze anos.

Esse raciocínio aflorava nas reflexões sobre a realidade brasileira e a doutrina da contra insurgência norte-americana, internamente escorada pela ESG. Assim, o exilio chileno de Celso Furtado aproximava-se do Brasil e América Latina, na perspectiva da dominação dos States.

Permanência nos Estados Unidos

Foi por essa razão que o economista se transportou para os Estados Unidos.

Ali, sob os efeitos da Guerra Fria, Furtado assistiria à desintegração do sonho americano de “A Grande Sociedade” de Lindon Johnson, torpedeado pela escalada do Vietnã e aventura caribenha da República Dominicana.

Às voltas com a Revoluçao Cubana e aperfeiçoamento dos mísseis soviéticos, os Estados Unidos mergulharam no paranoia. Sua classe média, eivada de preconceitos, inviabilizava os debates, o que levou Celso Furtado a reduzir as conferências.

Como, porém, a Universidade de Yale dispusesse de Centro de Estudos sobre o desenvolvimento, dos melhores do mundo, foi frutífera a permanência de Celso Furtado nos Estados Unidos. A seu favor, contaram conversações com os economistas John H. Galbraith e Roberto Tiffin e historiador Werner Baer.

Cultura e resistência democrática

Foi, todavia, na França, para onde se transferiu em junho de 1965, que o memorialista encontraria seu destino histórico. Residindo em subúrbio de Paris, o economista, agora, professor da Sorbonne, pôde livremente dedicar-se à cultura.

Esta, apesar dos embaraços da ditadura brasileira, compreendia artigos para Le Monde, Esprit, Tempos Modernos e Tiers Monde. Aulas, em substituições a ninguém menos que Raymond Barre. Orientação de dezenas de teses, com participação em bancas dessas e inúmeras conferências e organização de seminários especializados.

Dessas atividades resultaram livros como a coletânea Brasil: Tempos Modernos, e os individuais Desenvolvimento e Subdesenvolvimento, Teoria e Politica do Desenvolvimento Econômico e A Economia Latino-americana, publicados em vários idiomas.

Nas palavras do autor, a cultura francesa sempre constituiu privilegiada caixa de ressonância. Com isso, a obra furtadeana consolidava a universalização.

Repercutindo no Brasil, essa produção contribuiria para a redemocratização do país. Com isso consagrava-se o entendimento de quem imaginava que cada resistente, repelindo a violência, deveria pugnar com os elementos de sua especialidade.

Os do doutor Celso eram esses. Tal o que o levou a, em junho de 1968, comparecer à Câmara dos Deputados para três apresentações reunidas em Um Projeto para o Brasil, de crítica ao “milagre” brasileiro.

Das lutas estudantis ao historiador e internacionalista

Quando da permanência de Celso Furtado em Paris, eclodiu a chamada “Revolução Branca” das manifestações estudantis de maio de 1968, acompanhadas da greve de algumas categorias operarias.

São pertinentes as observações furtadeanas sobre esses acontecimentos. Deles ficou sobretudo o pensamento de professor resistente em plena assembleia estudantil.

Como livro de memória, Os Ares do Mundo reafirmam a dimensão internacional e de historiador de Celso Furtado.

Se por essa última respondem os tópicos “A Herança Ideológica”, o internacionalista positiva-se nas considerações acerca dos México, Venezuela, Portugal, China e até Etiópia e Mongólia!… Abordando a acumulação econômica dessas, o economista discutiu a aceleração leninista dos mais atrasados. Também solido recortador de perfis, Celso Monteiro Furtado reconstituiu, na obra de conclusão das memórias, antológicas entrevistas como as do francês Jean Paul Sartre, mexicano Octávio Paz e argentino Juan Domingos Perón.

 

 

 


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