menu

Política

09/05/2016


“A Democracia está em perigo”, afirma ativista David Miranda

Entrevista exclusiva

Por Paulo Dantas

David Miranda é um jornalista e ativista brasileiro de 32 anos . O brasileiro foi alvo de espionagem norte-americana e britânica ao ajudar a divulgar segredos do NSA revelados por Edward Snowden a Glenn Greenwald e Laura Poitras. Na entrevista que segue Miranda fala como tem visto o cenário de crise brasileiro e revela detalhes do que aconteceu em 2013, quando ficou preso em Londres.

Revista NORDESTE: Qual é sua avaliação sobre o atual momento politico do Brasil? Quais são as forças que estão em jogo agora?
David Miranda
: Em primeiro lugar está em jogo a nossa democracia. Acredito que o que está acontecendo, nessa situação, é que existe um levante muito grande da mídia brasileira, para ser mais específico, Globo, Abril, Veja, que querem tirar a Dilma do poder. Não temos acusações diretas à Dilma nesses escândalos de corrupção. Temos Temer, Eduardo Cunha, que é um absurdo ainda continuar presidindo a Câmara dos Deputados. Quem está puxando esse impeachment em cima das pedaladas fiscais que Dilma fez no outro governo, é uma galera que não é legítima e que a gente viu o nome deles em várias listas e estamos vendo ao longo dos anos. Eu acho que estamos em um momento muito decisivo onde as pessoas precisam buscar bastante informação do que está acontecendo na conjuntura da política nacional para tentar entender esse cenário. Por isso, falo que a democracia está em perigo, porque têm pessoas e forças se movimentando, utilizando nossas próprias leis de forma ilegal, já que um impeachment dessa forma não seria legal.

NORDESTE: Se houver um impeachment de Dilma, como você vê o cenário a partir daí. O que a gente pode esperar?
Miranda:
Se houver o impeachment da Dilma o Temer assume e a gente consolida uma parceria PSDB/PMDB. E aí você imagina: eles já fizeram acordos e provavelmente o cenário seria abafar a Lava Jato, porque se você der uma olhada em quantos corruptos (deles) estão na lista da Odebrecht, o número é grande. Então eu acredito que seria um problema muito grande para a democracia. A única solução seria devolver o poder às pessoas e serem feitas eleições gerais, pois dessa forma o povo pode escolher por quem quer ser representado. Imagine se for feito impeachment do Temer, o Cunha fica noventa dias como presidente da república, o que seria um absurdo! Então acredito que eleições gerais seria a única opção – se a Dilma não conseguir manter o mandato. Eu ainda continuo achando que ela foi eleita de forma democrática e precisa terminar o mandato. No caso dela não conseguir continuar o mandato não temos como deixar Temer, Eduardo Cunha, Renan Calheiros assumirem a presidência, acho que eleições gerais seriam a solução.

NORDESTE: Mas não existe uma crise generalizada entre os partidos? Quais os candidatos que não estão envolvidos?
Miranda:
Com exceção de alguns partidos. Temos ainda uma boa parcela de políticos que são honestos e estão batalhando bastante no dia-a-dia pela gente, com ou sem governo. Há Chico Alencar (deputado federal do PSOL), que é um figura que está na política há anos. Eu o vejo sempre articulando. Sou carioca e às vezes passo no centro da cidade e ele fica articulando ali no Buraco do Lume em cima de um caixotinho. Nós temos muitas pessoas boas lá (na Câmara), também. A gente só precisa procurar e se informar mais. Porque se generalizarmos, começaremos a olhar de uma forma genérica e não conseguiremos mais ter uma percepção de esperança para nosso país, porque a gente vai achar que ninguém consegue dar jeito nisso e acaberemos desistindo e deixando a política para esses que continuam lá, que são corruptos.

NORDESTE: Os movimentos sociais têm apontado uma semelhança entre o atual momento e o golpe de 64. A gente vê a direita, a imprensa, a OAB, a indústria, as marchas na rua apoiando o impeachment como foi em 64. Você também vê essa semelhança?
Miranda:
A gente não pode comparar o cenário atual com o golpe de 64. Não é a mesma coisa que está acontecendo aqui. A gente vive uma democracia onde, querendo ou não, há uma certa liberdade das informações, onde as pessoas podem se informar pela internet. Então existem similaridades, mas não é igual a 64.

NORDESTE: Você vê algum tipo de influência de fora do país sendo exercida como tentativa de desestabilizar o Brasil, o governo do PT?
Miranda:
Esse é um assunto complicado, porque não dá para falar diretamente que existe uma influência política externa para desestabilizar o país ou o próprio PT. Eu diria que a gente está passando por uma crise mundial. Ela começou em 2008 nos Estados Unidos e se alastrou para a Europa e chegou aqui no Brasil. A China está um caos desde 2010 e a gente está vendo isso no mundo inteiro. Esse é um problema do capitalismo. Vivemos um problema no capitalismo mundial. Se você der uma olhada nos países europeus, verá várias quebras de mercado. Vimos como a Grécia ficou, a Espanha. E não se pode olhar isso e dizer que tem uma influência direta de alguma mão. Mas acredito que é um problema de como as pessoas interagem com o capital e como essa quebra de capital que houve nos Estados Unidos, gerou uma quebra geral no mundo inteiro e isso reflete também no Brasil.

NORDESTE: Queria que você me falasse um pouco de como foi a sua prisão em Londres na época em que estava sendo feito Citizenfour. Porque você foi preso e como foram aqueles dias?
Miranda:
Eu fui detido porque o governo da Inglaterra estava me espionando. Eu tinha ido encontrar com a Laura Poitras, diretora do Citizenfour. Na época ela estava fazendo a edição e eu fui lá para poder conversar com o Dirk (Wilutzky) e a Mathilde (Bonnefoy), que foram os editores do filme, que inclusive ganhou o Óscar de melhor documentário ano passado. Eu fui encontrar com ela para conversar sobre os documentos que tínhamos sobre a Inglaterra e sobre novas divulgações para o filme. Quando eu estava voltando, no dia 16 de agosto de 2013, o governo da Inglaterra informou à Casa Branca que eles iam fazer isso (interceptá-lo). Então, dois dias antes a Casa Branca já sabia que eles estavam me espionando. Eles fizeram isso como forma de ameaçar o jornalismo que eu, a Laura o Glenn e todos os jornalistas no mundo inteiro estávamos fazendo. Isso foi uma ameaça direta ao jornalismo. Mas eles não conseguiram parar a gente, porque depois que eu saí de lá, eu voltei para o Brasil com mais vontade ainda de trazer transparência para esses países que têm leis como essa (lei do Ato Terrorista, de 2000), que dá poderes imensos ao Estado. E a gente vê agora essa lei que acabou de ser passada no Brasil, de antiterrorismo. Esse é um problema no mundo inteiro, esse tipo de lei sendo utilizada pelo Estado. Depois disso eu me engajei bastante em política aqui no Brasil e hoje em dia sou ativista, tenho um projeto no centro da cidade, chamado Casa da Juventude, para jovens se engajarem em política.

NORDESTE: O que muda com a aprovação da nova lei de antiterrorismo?
Miranda:
Ela dá poderes ilimitados para o governo espionar o cidadão. É um sistema de vigilância. Utiliza-se essa lei para chamar de terroristas as pessoas que protestam nas ruas.

NORDESTE: Pensando nessa história toda que veio a tona com a divulgação de espionagem pelo NSA, devemos ainda temer as informações passadas via e-mail, facebook, google, whatsapp? A criptografia seria uma saída?
Miranda
: Sim, a criptografia é com certeza uma saída. O que aconteceu depois de 2013, depois que a gente teve as publicações, foi que começou a crescer essa demanda por privacidade. Então as empresas começaram a se importar mais, porque a demanda foi crescendo sobre seus usuários, pedindo ‘ah, eu quero que minhas conversas sejam protegidas’. Por quê? Porque as corporações privadas começaram a ver… Por exemplo, na Alemanha uma empresa usava no seu slogan: pode usar nossa rede social porque nós vamos proteger sua informação, mas o Facebook não.
Então eles viram que poderiam ter uma ameaça de mercado nessa situação. As empresas entraram nessa batalha e começaram a proteger as informações do usuário. O Whatsapp passou a utilizar a criptografia, a Apple entrou em processo contra o FBI várias vezes (o FBI conseguiu desbloquear o iPhone de um dos terroristas dos ataques a San Bernardino através de um método ainda desconhecido, mas sem a ajuda da Apple. Com isso a Apple não precisa mais ser forçada a ajudar no desbloqueio de outros aparelhos em casos semelhantes).Tudo isso porque a Apple têm criptografia agora nas mensagens. Muitas outras plataformas aderiram a esse sistema também. Eu acho que os governos não se posicionaram para isso. Mas, como a gente vive em um mundo de capitalismo, as empresas começaram a pensar sobre o quanto elas iriam estar perdendo de consumidores, então elas modificaram suas posturas. Ainda não é o suficiente, precisamos de muito mais. Mas já é um grande avanço nesse debate total que temos sobre criptografia.

NORDESTE: As teorias de conspiração têm razão quando falam que somos vigiados o tempo inteiro?
Miranda:
Nós somos vigiados o tempo inteiro. A gente provou isso em 2013 com a demonstração do que é MegaData. MegaData é quando alguém consegue colar todo tipo de informação que uma pessoa faz (na internet). Por exemplo: agora você fala comigo no meu celular, meu celular está conectado à internet. Ele está mandando um sinal de onde estou. Se eu utilizar meu cartão de crédito, haverá outra informação sobre mim. E se alguém acessar o GPS do meu carro, terá outra informação. Então é possível saber onde estou, o que estou comprando e com quem estou falando. Você começa a montar um cenário e saber exatamente o que a pessoa está fazendo, como ela está se comportando. E é isso que a NSA faz quando eles coletam todo esse material. Eles conseguem ter uma ideia exata do que você está fazendo e com quem você está fazendo, e pegar essa informação e fazer o que quiserem. Com a criptografia, não. Eles não conseguem acessar esse tipo de material. Porque é de um lado até o outro, somente. Não tem outras entradas para eles acessarem, a não ser que tenham uma das chaves.

NORDESTE: Após o Edward Snowden, o que mudou na sua vida e do Glenn? Vocês foram perseguidos?
Miranda:
Teve o caso no Aeroporto de Heathrow, mas basicamente, depois disso, a gente continuou fazendo as publicações. No começo desse ano ganhei a ação que movi contra o governo britânico e agora eles terão que modificar a lei que utilizaram contra mim. Acho que essa é uma grande vitória para a democracia e principalmente para o jornalismo. O jornalista não pode ser chamado de terrorista e o seu material de trabalho não pode ser mais pego por autoridades.


NORDESTE: Você também tem envolvimento com o ativismo LGBT, correto? Você poderia falar um pouco sobre seu trabalho?
Miranda
: O projeto que abri no ano passado se chama Casa da Juventude e fica na zona portuária do Rio de Janeiro, na Pedra do Sal. É uma casa para jovens ativistas. Lá fazemos debates, oficinas de audiovisual, de jornalismo. Comecei a participar mais efetivamente da política do nosso país e percebi que a postura do nosso governo é muito ruim. Eles deixam o brasileiro passar por aquela situação e não se envolvem, não dão uma mensagem direta. Não teve nenhum tipo de retaliação contra o governo da Inglaterra. Comecei a me engajar para transformar um pouco a política que temos aqui. Acho que a maioria dos países europeus e os Estados Unidos continuam achando que o Brasil é uma colônia e podem tratar as pessoas daqui como parte de uma colônia, mas eles não podem. Nós somos cidadãos do mundo e podemos ir e vir. Devemos ser respeitados como qualquer outro cidadão.

NORDESTE: Vocês trabalham com quais movimentos?
Miranda
: Trabalhamos com o grupo de formação de mulheres, LGBTs, grupos de negros e negras, com animais, sou um grande amante de animais. Fazemos formação política. Sabemos que a cultura negra não é mostrada nas nossas escolas. Lá a gente repassa livros e filmes para entenderem um pouco da nossa cultura. A história não começou quando os negros chegaram no Brasil, têm uma história antes, na África. Falamos da situação dos negros na sociedade, a morte dos jovens, entre outras questões. São 15 pessoas trabalhando ativamente todos os dias, mas são em torno de 70 a 80 ativistas nos finais de semana, na criação de eventos. Fora as parcerias que fazemos com as pessoas que não ficam diretamente lá.

NORDESTE: Você pode contar um pouco sobre a relação vivida entre você e Glenn Greenwald, há quanto tempo vocês estão casados?
Miranda
: Nós estamos casados há 11 anos. Moramos aqui no Rio de Janeiro. Temos 20 cachorros… Ele é um bom marido (risos). Essa é uma pergunta meio complicada… O que falar daquelas coisas mais simples e básicas que você vive no dia a dia? Nós somos parceiros, trabalhamos juntos, escrevemos artigos juntos. Eu trabalho na maioria das vezes com questões que são mais particulares para mim, quando tem alguma coisa da conjuntura nacional. Gosto mais de escrever as coisas quando tenho paixões por elas. Ano passado eu lancei um tratado internacional (Tratado Snowden). É um tratado que visa acabar com a vigilância de massa e trazer proteção àqueles que são delatores desses sistemas. Fiz uma apresentação em Nova Iorque com Snowden, Glenn, (o grupo de promoção de campanhas Avaaz) e várias outras personalidades. Conseguimos um impacto grande. Estamos partindo para outras áreas dessa conversa sobre espionagem. O Glenn sempre me deu muito suporte para tudo que eu quis fazer. É uma boa parceria, num relacionamento estável e forte.
 

Notícias relacionadas