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Ceará

21/07/2015


A gênese do furto do Banco Central no Ceará; Entenda a história

Se há o personagem que encarne e represente toda a trama inacreditável, e dez anos depois ainda não esgotada, do furto milionário ao Banco Central de Fortaleza, este é Alemão. Do cinismo à ousadia, da sagacidade ao silêncio – imprescindível e sustentado por ele desde antes, durante e no desenrolar de toda a história.

 

As muitas provas que apontam Antônio Jussivan Alves dos Santos, cearense da pequena Boa Viagem, no Sertão Central, como um dos líderes do plano são sempre negadas pelo próprio. Como o primeiro bizu que, segundo a Polícia Federal, Alemão teria recebido do amigo Edilson Santos Vieira. Vigilante terceirizado do BC, Edilson circulava no interior da caixa-forte e, num dia, quase despretensiosamente, sugeriu a ousadia do furto. A ideia foi comprada por Alemão, já experiente em assaltos a bancos e a empresas de valores, que buscou dinheiro e foi recrutar a quadrilha.

 

Segundo as investigações da Polícia Federal, houve uma reunião decisiva para o plano tornar-se exequível. Nela estavam Edilson, Alemão, o também vigilante Deusimar Neves Queiroz e Davi Silvano da Silva. Véi Davi, integrante respeitado do PCC e experiente em fugas, foi o homem que chefiou por três meses as escavações do túnel de 80 metros até o banco.

 

O mais importante na reunião: para a conversa, Edilson teria levado em seu celular fotografias de dentro da caixa-forte e dicas de como violar o local. Também não se provou se a engenhosidade toda partiu só desses quatro. Quem mais, não se pôde confirmar.

 

A PF nunca encontrou o celular de Edilson, mas a gênese do plano se repetiu em alguns dos interrogatórios. Confirmação dada ao O POVO pelo delegado federal Antônio Celso dos Santos, que chefiou as investigações do caso por cinco anos. Poucos meses após o furto, já depois da partilha do crime, Edilson foi encontrado morto, dependurado com uma corda no pescoço, em Fortaleza. Nunca se teve certeza se foi suicídio ou se ele fora “suicidado” – cena forjada?
Deusimar (também chegou a ser sequestrado e extorquido) e Véi Davi estão condenados e presos. Nos depoimentos, falaram o conveniente. O outro suposto líder da quadrilha, Fernandinho (Luis Fernando Ribeiro), foi a quem Alemão pediu R$ 300 mil para bancar o plano. Fernandinho também morreu, dois meses após o furto. Sequestrado, a família pagou seu resgate, mesmo assim acabou executado. Alemão, na estratégia do silêncio, jogou a liderança para a conta do morto.

 

Quanto Alemão mantém de dinheiro escondido, talvez enterrado, e distribuído entre seus “laranjas”? Fazenda, gado, sítio com lago, loja, dois postos de combustíveis, carros, lancha, joias da mulher, R$ 85 mil encontrados com ele no dia da prisão (25/2/2008) em Taguatinga (DF). A tese mais provável é que esta lista de bens recuperados não é tudo do “seu” patrimônio.

 

Alguns dias antes de Alemão ser preso, a Polícia Federal gravou, com autorização judicial, uma conversa telefônica entre Antônio Rivaldo de Oliveira da Silva e sua mulher, Ana Neize Dias Pedrozo. Rivaldo, segundo a PF, foi um dos amigos acionados por Alemão para lavar dinheiro no interior de Mato Grosso do Sul. Neize, preocupada com o marido, alertou-lhe que um bando local tramava invadir o sítio de Alemão porque sabia que lá estaria escondido muito dinheiro. Rivaldo pediu que ela deixasse de pensar nisso.

 

Alemão tem 55 anos e dois meses de pena em Fortaleza a cumprir. Atualmente é mantido preso em São Paulo – é réu lá em outros processos. Enigmático, suscita sempre mais perguntas do que entrega respostas. É calado, mas também cruel. Em Brasília e Fortaleza, em dois assaltos a transportadoras de valores, antes do caso BC, chegou a manter quase três dezenas de reféns em cada um dos casos. Nos presídios por onde passou, é tido também como calculista, paciente para os seus fins. No vídeo de um interrogatório, após ser preso em 2008, ele teria admitido que, se os bandidos fossem flagrados dentro da caixa-forte naquela noite do furto, a ordem era matar a tiros quem aparecesse pela frente.

 

MAIS A DIVIDIR

 

VÉI DAVI. Deixa eu te falar. Ele (Magrelo) vai passar o que ele quer (em bens, o equivalente a parte do combinado na divisão do furto), pra ver se te interessa. Se não interessar pra você, ele vai te dar aquilo que nós tinha combinado.

FÊ. (Risos) Ô, vou falar pra você. Cê é terrível mesmo, ó meu (risos). Você é foda, meu. Um tremendo fdp (risos). Eo kit? Dá um kit pra mim, aí

DAVI. Eu não tenho condições nenhuma de mexer no kit, fio. Nenhuma, nenhuma.

FÊ. Ah, tô ligado. Firmeza. Deixa ficar desse jeito aí, tio. Tá pela ordem. A gente vai conversar de novo, aí. Vou pegar seu número aqui. Pega seu número, liga pra você e nunca consegue, mano. Eu peguei uma vez o número com o Ido e não consegui, mano. Mas já era. Vamos fechar nessa ideia aí e firmeza.

DAVI. Só quero uma coisa de você. Que você sente lá, que você fale pra ele ‘não quero isso, não quero isso’, fica aquilo que nós conversamos e amanhã e depois é outro dia, fio.

FÊ. Fdp, o Véi (risos). Tô xingando você aqui, mano. Você é foda (risos). Tá pela ordem.

DAVI. (Risos) Se eu contar minha vida pra você, bicho, você chora.

FÊ. Tô ligado (risos). Fala com os menino aqui e já fica na sintonia, falou? Eu tava precisando, na verdade, tio, era de uma situação, pelo menos um pouco. Tô passando… mas nós vai ver. Entendeu, tio? Vou falar pra você. Eu me fudi, tio. Você sabe, tio. Eu já falei procê, né? Eu perdi uma pá de coisas (dinheiro dividido do furto) nas cabeçada que eu dei. Modo de falar. Investimento errado, aconteceu tudo que aconteceu de lá pra cá. Pra falar a verdade, eu perdi a maioria. Você sabe. Eu tô daquele jeito… Você sabe, mais ou menos.

DAVI. É o que eu tô falando pra você. A única coisa que eu quero é que vocês fiquem aí. Fique tranquilo, não esquenta a cabeça. Eu t}o evitando fazer muito contato. Nem vou esquentar se vocês não ligarem. Cuide da vida de vocês porque o telefone tá doido (grampeado).

FÊ. Ô, tio. Você é um cara que já entende, tá ligado. A gente não precisa ficar toda hora (se falando). Hora certa é hora certa. Você sabe que a gente nunca gostou disso aí, de ficar com contatinho. É ligar e os caras rastrear e pegar, entendeu? E nós num tá nas condições de tomar agarrão (sofrer extorsão), né mano?

 

DINHEIRO NO SÍTIO

 

NEIZE. No começo do nosso namoro, você lembra que a Ana Cleide não gostava muito de você?Aí uma vez ela falou assim pra mim: ‘Neize, cê tá indo lá pro sítio? ‘. ‘Ah, de vez em quando eu vou pra lá’. Ela falou ‘Neize, eu não quero que você vá pra lá’. Falei ‘ué, por quê?’. ‘Neize, é que lá tá escondido muito dinheiro e o Roberto, que é sobrinho do Willian, tá armando uma gangue aí pra ir lá e matar todo mundo’. Sabe?

RIVALDO. Quem é esse Roberto?

NEIZE. É sobrinho do Willian, que eu falei pra você que foi preso, lembra?

RIVALDO. Ahn.

NEIZE. Então, eu não acreditei porque achei que ela tinha raiva d’ocê, né? Aí falei pra Ana Maria, ‘será que eu falo pro Rivaldo’? Ela falou ‘não, larga mão, senão ele vai ficar acreditando nessas coisas’. Aí deixei quieto, sabe? Aí não falei procê.

RIVALDO. Não, isso tem nada a ver, não.

NEIZE. Não, né?

RIVALDO. Ó, eu queria que você conversasse com seu Isaías.

NEIZE. Ele vai chegar terça-feira, sabe? Acho que à noite.

RIVALDO. Porque eu queria ver direitim se era Polícia Federal mesmo, entendeu?

NEIZE. Anrã, mas era, amor.

RIVALDO. Por que você acha que era?

NEIZE. Porque o carro, diz que era da Federal. Aqui quase ninguém sabe. Só sabe, assim, o seu Lauro, o Cabelo, seu Isaías, Toninho. Eles acham que (a PF) vem pegar alguém daqui mesmo.

RIVALDO. E era Federal mesmo, tava escrito no carro?

NEIZE. Tava. E era bastante carro, sabe? Depois foram embora e ficou só um pouco. Disse que tinha até moto junto. (…) Tô preocupada com você.

RIVALDO. Acho que vou demorar um pouco a ligar pra você, tá

O Povo 

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