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Brasil

20/08/2015


Acusações devem derrubar Cunha, avalia Ministério Público

Nos bastidores, os investigadores da Operação Lava Jato avaliam que dificilmente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conseguirá se manter no comando da Câmara dos Deputados após a apresentação da denúncia do procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

A denúncia, que é o pedido ao STF (Supremo Tribunal Federal) para a abertura de um processo, deverá ser apresentada hoje.

Em conversas reservadas, os investigadores afirmam que, se Cunha fosse um executivo de uma empreiteira, já teria sido pedida a sua prisão preventiva por eventual obstrução da Justiça. Haveria elementos que mostrariam que o peemedebista tentou atrapalhar as investigações. Mas, como ele é chefe de um poder da República, o Ministério Público optou pela apresentação da denúncia ao STF a fim de que as acusações se tornem públicas e tenham os seus efeitos políticos.

O principal deles é o enfraquecimento político para levar adiante a possibilidade de abertura de um processo de impeachment contra a presidente Dilma. Outro efeito deverá ser a perda de força da chamada “pauta-bomba” na Câmara.

Cunha tem dito que pretende permanecer no cargo de presidente e responder ao processo no Supremo como outros deputados já fazem. A diferença é que um deputado responde pelo mandato dele. Cunha responde pela Câmara. A depender da consistência das acusações, que parecem fortes, a permanência na presidência da Casa pode ser uma miragem política.

Há um grupo de deputados prontos para pedir o afastamento dele do cargo de presidente. O governo deverá dar apoio nos bastidores a esse movimento. E a oposição, que tem feito alianças com Eduardo Cunha para derrotar o Palácio do Planalto, terá de se manifestar sobre as acusações. Há uma ala do PMDB que namora com o PSDB e que sofrerá um abalo forte.

No Palácio do Planalto, uma pessoa importante fez a seguinte avaliação: “A chapa vai esquentar”.

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A acusação de Cunha de que o governo teria um acordo com Janot para atacá-lo e preservar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), não tem amparo nos fatos. É também um mau argumento, porque prioriza uma teoria da conspiração e deixa em segundo plano as acusações que ele terá de responder _algumas das quais já sabidas, como a de ter recebido propina de US$ 5 milhões.

A reaproximação entre a presidente Dilma Rousseff e o presidente do Senado, Renan Calheiros, deve ser entendida como estratégia de sobrevivência política de ambos em meio à crise.

Renan tira proveito de as investigações sobre Cunha estarem em estágio mais avançado, até porque o presidente da Câmara partiu para uma guerra direta contra o Ministério Público. O presidente do Senado tenta ganhar força política antes de ser eventualmente atingido pela Lava Jato.

Se o governo tivesse poder sobre as investigações, não haveria petistas e empresários amigos presos em Curitiba.

Os políticos em Brasília até podem tentar fazer um acordo, mas os investigadores da Operação Lava Jato, tanto em Curitiba como na Procuradoria Geral da República, não são um fator controlável. É bom e correto que seja assim.

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A denúncia do Ministério Público contra Cunha também deverá ter um efeito sobre a agenda conservadora de votações na Câmara.

A tendência é que a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) que reduz a maioridade penal para 16 anos, aprovada em segundo turno ontem na Câmara, fique engavetada no Senado. Essa proposta avançou na Câmara devido ao empenho direto do presidente da Casa.

Essa agenda deverá perder força porque Cunha é o líder que catalisa a rebeldia em relação ao governo, que manobra para acelerar uma eventual abertura de processo de impeachment, que estimula a “pauta-bomba” na economia e que coloca em votação os projetos da chamada bancada BBB (Bala, Boi e Bíblia).

Esse líder sofrerá um forte abalo.

Blog Kennedy

IG

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