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Cultura

11/02/2016


Alceu Valença – Um artista inspirado pelo Nordeste

entrevista exclusiva

Por Walter Santos

Um artista inspirado pelo Nordeste

Prestes a completar 70 anos no dia 01 de julho, Alceu Valença se mostra cheio de surpresas. O artista está preparando uma série de ações para as comemorações da data neste ano. Dentre as ações, está o lançamento do DVD Vivo! Revivo! Gravado no Teatro Santa Isabel, em Recife, em outubro passado, totalmente focado na produção dos anos 70. Haverá também o relançamento em vinil (via Deck / Polysom) da trilogia básica de Alceu nos anos 70 (Molhado de Suor, Vivo! e Espelho Cristalino), além de um LP inédito, gravado pelo cantor e Paulo Rafael em 1979, em Paris ("Saudades de Pernambuco"), que faz uma interface entre o underground nos 70´s e a sonoridade que ele viria a assumir a partir do sucesso de “Coração Bobo”, em 1980, e que se tornou a face mais "visível" de sua obra para o grande público. Ainda estão em andamento uma série de ações coordenadas com o Porto Digital, em Recife, com a implementação de um novo site, games e até HQs, fora o projeto de uma biografia do Anjo Avesso que foi encomendada pela Chiado Editora. Para fechar, ou começar, há ainda o filme "A Luneta do Tempo", com estreia em circuito nacional prevista para 24 de março e com lançamento da trilha sonora em CD (vencedora de Gramado), pela Deck, na mesma data. Vindo da Galícia, de um festival Lusófono, Alceu recebeu a Revista NORDESTE para uma entrevista exclusiva em sua casa em Olinda e falou sobre o futuro da música brasileira, política e carnaval. Para a festa, o músico revelou que estará em São Paulo, puxando o bloco Bicho Maluco Beleza.

Revista NORDESTE: O que significa esses 70 anos de música para o mundo?
Alceu Valença:
Representa um artista que se inspira na sua própria cultura. Eu sou, sobretudo, nordestino. Eu me inspirei numa cidade do interior que se chama São Bento de Una, lá eu via os vaqueiros, emboladores, cordelistas, dentro do mato, na feira de São Bento do Una. Isso foi entrando dentro da minha cabeça. Existia também um auto falante do Cine Teatro Rex que tocava música, sobretudo música do sul, mas aquilo não fez mais minha cabeça do que a base da nossa raiz mesmo. Minha trajetória já começa na minha aldeia. Estou fazendo 70 anos, mas para mim o tempo não tem tempo, o tempo é três, presente, passado e futuro, tudo ao mesmo tempo. Nós vivemos o aqui e agora, temos a lembrança do passado; o passado constrói o presente e o presente constrói o futuro. Isso tudo meu de cultura começa em São Bento do Uma, a minha cidade e aminha aldeia. Pode ser que o Rio Una não seja maior que o Rio Amazonas, mas é o rio que passa na minha aldeia, então para mim é mais importante. Segundo Fernando Pessoa, poeta lisboeta, o Rio Tejo não é maior da aldeia dele, mas o da aldeia dele é o mais importante (Alceu faz referência ao poema Pelo Tejo Vai-se Para o Mundo, de Alberto Caeiro, do heterônimo de Fernando Pessoa). Em se falando sobre isso, eu falo da minha aldeia no sentido cultural. Eu sou um menino que nasceu em São Bento do Una, me dividia entre a fazenda, no semiárido, no agreste, e aonde nessa fazenda eu ouvia os aboiadores cantando no meio da caatinga: eeehhhh rá! O barulho dos cavalos, do bode, e a viola do meu avô (Alceu faz onomatopeias de todos os sons). E os cantos do improviso. Em São Bento do Una havia os cegos que quase sempre cantavam. Havia o berimbau de bacia, as sanfonas e etecetera e tal. Isso é basicamente o que me formou. E essa cultura é ibérica. Por isso eu valorizo muito mais e sempre valorizei a minha cultura lusófona (cultura dos países de língua portuguesa) do que anglófona (cultura dos países de língua anglo-saxônica). Por isso eu nunca fiz balada, eu faço toada. Eu nunca faço blues, eu faço um lamento.


NORDESTE: Você está às vésperas de colocar no circuito nacional o filme “Luneta do Tempo”, o que os cinéfilos podem esperar dessa nova fase?
Alceu Valença: A Luneta do Tempo é um filme que eu pensei 10 anos para fazer. Eu estudei cinema para fazer esse filme, mas as imagens já estavam na minha cabeça. É um regresso às histórias que meu pai contava do cangaço, mas não é o cangaço, é uma tragédia quase grega. Evidentemente nossa cultura tem uma influência grega e romana também. Fiz questão de fazer as gravações na minha terra, São Bento do Una, e Cimbres (Vila de Cimbres, em Pesqueira), outra cidade, e na fazenda onde vivi. O filme fala sobre o cangaço como algo mítico. Não é o Lampião em si, é o Lampião reflexo do cordel. Vamos dizer assim, (conta-se) a chegada do lampião no inferno, no meu filme ele vai para o céu. É um mergulho na minha cultura, da mesma forma que faço na música, eu fiz no cinema. Eu não quero fazer um filme “americanóide” ou italiano. Fiz um filme com a minha cara e isso tem surtido efeito, foram vários prêmios.

NORDESTE: Vendo aquela fase de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho. Vocês que estiveram nesse comando de uma geração, como veem novos safras de compositores saindo aqui de Recife, João Pessoa, dos nove estados do nordeste?
Alceu Valença: Eu estava em um festival na Galícia e lá encontrei um músico maravilhoso de Niterói e uma moça, Taís. Canta demais, mas é muito complicado para essas pessoas serem lançadas aqui. As coisas estão acontecendo quase no sentido de cartéis. Eu vejo isso. Então, muitas pessoas que têm um compromisso com a arte muito grande… Existem muitos artistas, mas não conseguem espaço, porque não lhes é dado esse espaço. Quando eu cheguei no Rio existia uma coisa chamada Indústria Discográfica. A indústria acabou, sobretudo no Brasil, porque ainda se vende disco na França, em Portugal. Aqui a pirataria foi uma coisa inacreditável. De repente acabou a indústria do disco e ficou agora a indústria de quem tem um rádio, uma TV e quem é dono desses grupos. Evidentemente, que isso, de certa maneira, vem a ferir a questão da legislação. Você quando tem uma rádio, é o Ministério da Cultura que dá, mas você não pode ser o dono de uma rádio e o dono de um grupo que aí começa a existir cartel.

NORDESTE: Em outras palavras a indústria da comunicação ela hoje tem esse papel seletivo de dizer quem toca e quem não toca, quem se apresenta ou não se apresenta. Há uma constatação de que a sua geração, por exemplo, não tem alcançado o nível da importância que vocês têm nesses espaços nobres…
Alceu Valença: Eu não ligo para esses espaços nobres porque eu tenho 20 sucessos. Porque eu saí da indústria antes dela quebrar e porque eu sou conhecido. Porque vou lá, eles veem meu show e me chamam novamente para voltar. Isso porque eu tenho também lançamentos. Mas é muito complicado para uma pessoa que não tem um sucesso, como ela vai entrar. Ela vai ter que ter uma plataforma de lançamento, é muito complicado. A não ser que você tenha um empresário que tenha vários grupos e consiga colocar você dentro dessas programações. Eu de minha parte não estou nem aí para isso. Primeiro porque eu tenho público aqui e fora do Brasil. Eu fiz show em Portugal com a orquestra Ouro Preto, com o ultimo disco que eu realizei e lá foi cheio, tanto em Lisboa, quanto no Porto. Agora fui na Galícia e as pessoas aplaudiram tanto. Eu morei na França durante um ano, eu fui a cerca de seis festivais em Montreux (Festival de Jazz). Fui em Nova York para o SummerStage Festival, fui para festival de Jazz, o CoolJazz Festival. Então eu não tenho essa necessidade para mim pessoalmente, porque eu abri caminhos. Mas par uma pessoa que começa é muito complicado.

NORDESTE: Você é um dos primeiros artistas da MPB que inseriu no seu caminho o significado de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga. No entanto, não á diálogo seu com movimentos como o de Chico Science, a Nação Zumbi. Você que é seguramente um pernambucano que primeiramente tratou da fusão das músicas de raiz…
Alceu Valença: Eu também fiz maracatu em 82, mas os estilos são um pouco diferentes. Eles são verdadeiros e eu também sou. Eles cantam de outra maneira. É a mesma coisa de um fotógrafo. Tem o olhar. Eu vou fotografar Olinda e posso fotografar com meu olhar e outra pessoa pode também fotografar com o olhar dela. Eu gosto muito de apoiar gente nova, só que é muito complicado. Por exemplo, Lucy Alves foi comigo para a Europa. Ela luta muito para poder conseguir e tem um fenômeno. Ela toca sanfona, violino, piano, canta muito bem e tudo. Veja o lapso de tempo desde que foi lançada para acontecer. Vai acontecendo aos pouquinhos, mas ela é um fenômeno. Se fosse em outra época uma gravadora pegaria o disco dela e colocaria nas rádios. Só que agora dizem que o Jabá é institucionalizado. É muito complicado botar muito para tocar no Brasil todo. Você vai gastar quanto? Faz as contas.

NORDESTE: O frevo hoje, qual o nível de novidade?
Alceu Valença: Muitas novidades, sobretudo os frevos de orquestra. Você vai encontrar Spok que grava músicas novas. Eu fiz um frevo chamado Acenda a Luz, que é um frevo para orquestra também. Existem muitas coisas que poderiam estar aí tocando, mas realmente é meio complicado tocar dentro de um local… como esse pessoal vai pagar o jabá para poder tocar. Está complicado para o Brasil. Então essa desonestidade, essas questões todas vem influenciando também a nossa cultura.


NORDESTE: Recife e Olinda tentaram fazer tocar obrigatoriamente o frevo nas programações musicais, porque essas coisas não funcionam?
Alceu Valença: Não funcionar? Bem, aí depende dos veículos se eles querem fazer isso. Se eles vão voltar… você toca uma música hoje, vamos dizer, ela vai ser tocada e ela voltaria duas ou três vezes, e o camarada faz na obrigação, bota só uma.

NORDESTE: Qual o seu projeto daqui para frente, o que identifica como prioridade além do lançamento da Luneta do Tempo?
Alceu Valença: A prioridade é seguir do jeito que eu sigo. Eu não tenho prioridade. Eu faço vários shows no São João. Eu ganhei prêmios por dois discos que eu fiz de forró. No São João eu canto de uma maneira. Eu canto no carnaval um show totalmente diferente do que eu faço no São João. Com Lucy também, você tem um show que é uma sanfona, uma guitarra e um violão. Aí já é outra coisa. Quando faço um show erudito, como o que eu fiz com a Orquestra Ouro Preto aqui no Brasil e fora, é outra coisa. E vamos seguindo. Agora fazer filme eu não sei se quero fazer. Esse filme tomou conta de minha cabeça, era uma coisa que ninguém acreditava e atualmente as críticas internacionais estão falando que o filme é maravilhoso. Ele vai estrear no dia 24 de março. Fazer um outro vai ser complicado, porque eu tenho que me apaixonar pela história. Tudo meu é na base da paixão.

NORDESTE: Qual a leitura que você faz hoje do Brasil diante de tantos fatos que tratam de desvio e de ferir a ética?
Alceu Valença: Eu acho que as pessoas que cometem esses delitos devem ser punidas, evidentemente. Agora existe uma coisa chamada sistemática. Sistema! É o lucro, é o dinheiro! Um dia eu peguei um táxi, era época de eleição, passando em Copacabana, estava um bocado de cartazes. O taxista dizendo que todo mundo era ladrão. Quando nós chegamos em Ipanema eu disse: rapaz você é um cara que fala muito bem, se expressa muito bem, inteligente, porque você não pega (o apoio) dos motoristas e tenta ser vereador. Ele disse que era difícil. Mas, olha, se a classe se unir você será representante da classe. Depois de cinco minutos eu perguntei o que ele iria fazer se conseguisse. Ele disse: roubar! Eu disse: Como! Você não está falando que todo mundo é ladrão, criticando. Ele disse, é o jogo.

NORDESTE: Você está vendo esses problemas como algo específico do país ou da humanidade?
Alceu Valença: A coisa não é da humanidade. A questão é muito mais do sistema. Essa questão do sistema neo-liberal na minha cabeça não funciona. O sistema é político. Eu venho falando isso há anos. Muito antes de acontecer qualquer coisa eu discutia até com meu irmão, Dercinho. Esse sistema não tem jeito, porque quando você investe dentro de uma campanha, porque é um investimento, você quer ter o retorno. Ele falou: mas existe simpatia. Eu disse: simpatia de R$ 10 milhões não existe. Existe uma simpatia de… vamos ver… R$ 2 mil. Eu mesmo dei a uns amigos meus aqui de Olinda, aliás não foram eleitos, ao Biu de Olinda e o Sérgio Cri Cri. A um eu dei o som para ele botar em cima do carro e ao outro eu fiz uma coisa para ele botar os cartazes. Mas era uma simpatia pessoal. Mas uma simpatia de R$ 10 milhões eu não daria nem para Cri Cri, nem para Biu. Apesar de eu não dar muita bola para dinheiro. Minha mulher iria me matar, ou então meu irmão iria me matar se eu tivesse os R$ 10 milhões.

NORDESTE: Diante da decisão do Congresso Nacional que aprovou que recursos privados numa campanha não podem mais existir. Você acha que este é o caminho?
Alceu Valença: Essa é uma luz no fim do túnel. Acho que é uma luz que pode estar surgindo e acredito que as eleições serão mais verdadeiras e mais legítimas.

NORDESTE: Nós estamos às vésperas da eleição, o que o eleitor deveria levar em conta para escolher os representantes do legislativo e executivo?
Alceu Valença: Acho que tudo começa por aí. É muito importante a eleição de um vereador. O vereador é a base. Vereador, deputado estadual, prefeito e isso vai subindo. Acho de suma importância. Eu tinha uma ideia que eu não sei se alguém iria acolher… de ter duas horas por dia para discussão do Brasil sobre política, já que os veículos de comunicação pertencem ao Ministério das Comunicações. Agora eu não permitiria, se eu fosse o legislador, que houvesse filme. O candidato iria falar ao vivo, parado. Ele estaria sentado e falando. Poderia ter um quadro negro para ele escrever algumas coisas. Mas, marqueteiro não. Marqueteiro é um sinônimo da mentira na minha concepção. Porque você está vendendo um produto. E as vezes não acredita no produto. Será que o marqueteiro que faz a candidatura de um governador em tal canto, ele está acreditando naquilo? Eu acho que uma campanha não deveria ter marketing, deveria ser uma coisa mais intimista e de discussão profunda, porque senão chegamos a um tempo de uma loucura muito grande. Porque a internet é boa e é ruim, ao mesmo tempo. Não se aprofunda muito.

NORDESTE: Gilberto Gil ousou ser candidato e foi eleito em Salvador. Depois foi ministro. Isso algum dia passou pela sua cabeça?
Alceu Valença: Passou uma vez, quando eu tinha um projeto que era ter artistas renomados que entrariam como deputados federais na Constituição. Todo mundo iria ganhar, naquele momento. Só para votar a constituição. Vai ter outra Constituição e eu penso que serei candidato a deputado federal só para votar a Constituição. Depois eu caio fora. Não quero estar lá.

NORDESTE: Você tem opinião sobre essa história de financiamento privado de campanha. Você acha que isso é a origem do desvio, da corrupção no Brasil?
Alceu Valença: Financiamento privado não existe. Você dá, não pela questão política ideológica, nada disso. É pelo cara que retorna. No mínimo que vai abrir uma portinha, digamos, no terceiro, quarto escalão. Não interessa. Mas que é, é. Alias existem empresas que fizeram três contribuições para três candidatos. Acreditam nos três?

NORDESTE: Como você encara Pernambuco hoje do ponto de vista de relação com poder e sociedade. Pernambuco está atendendo a sua expectativa?
Alceu Valença: Eu moro desde 1970 no Rio de Janeiro. Sou eleitor do Rio de Janeiro, transferi meu título para lá. O que acontece é que eu conheço muito mais os problemas do Rio, do que os problemas daqui. Eu vim aqui porque fiz o Show do Ball Masque e já estou indo para São Paulo. Quando volto para cá no carnaval vou para o hotel. Agora, Pernambuco cresceu muito na administração de Eduardo Campos. Muito. Agora, existe uma crise e essa crise vai bater no governo daqui, como vai bater no governo da Paraíba e em todos os governos.

NORDESTE: Como você vê uma revista que é produzida e editada aqui no Nordeste?
Alceu Valença: Eu acho uma coisa maravilhosa. Porque a gente sempre foi relegado. A gente tem que seguir o sotaque, nós temos que ter o aval de lá, do sul do país. Eu acho que as coisas deviam ser mais divididas. Até os meios de comunicação deveriam passar de um lugar para outro. Ou seja, estar localizado num canto e noutro ano, em outro. Pelo menos a parte concernente a jornais, seria muito bom isso para que as pessoas tenham uma ideia do que é o Brasil. Porque se não a gente não têm ideia. Eu tenho um amigo meu, preparado, inteligente, que perguntou a mim… Eu tinha ido para Paraíba, fui até para Campina Grande fazer um show lá. O cara perguntou para mim se lá tinha filé, se comiam filé. Meu amigo! Eu digo: meu irmão, por favor, no nordeste existe muita pobreza. Essa pobreza no nordeste advém de muitos anos, é histórica, como no sul do país também tem. Se você for no Rio de Janeiro vai encontrar favelas e mais favelas. E o Brasil tem essa questão hídrica, que agora está passando até para São Paulo. A gente ficou com esse karma do retirante como sendo ignorante. Ignorante o quê? Uma região que tem José Américo, Rui Barbosa, Ariano Suassuna, Gilberto Freire, Joaquim Nabuco, Alceu Valença, por favor… Gostou do final?! 

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