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Brasil

06/08/2018


Após quase extinção, ariranhas retornam a rios na Amazônia

Após serem quase extintas pela caça comercial, as ariranhas estão retornando a rios da Amazônia.

Os últimos indícios da recuperação da espécie foram divulgados nesta semana pela revista científica Biological Conservation.

Liderada pela bióloga Natália Pimenta, a pesquisa analisou sinais da presença de ariranhas na bacia do rio Içana, no noroeste do Amazonas, onde ela havia sido considerada extinta.

O estudo foi feito após outras pesquisas apontarem uma tendência de recuperação da espécie – com nome científico Pteronura brasiliensis – em diferentes partes da Amazônia, como a bacia do Solimões e a região da hidrelétrica de Balbina.

Maior carnívoro semiaquático da América do Sul, com até 1,80 m quando adulta, a ariranha é um dos dois tipos de lontra encontrados no Brasil e está na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação, entre as espécies consideradas ameaçadas de extinção.

Mordidas de ariranha

O estudo no Içana teve início após membros do povo baniwa alertarem sobre o retorno das ariranhas a seu território, dentro da Terra Indígena Alto Rio Negro.

Presidente da Associação Indígena da Bacia do Içana, André Baniwa diz que moradores notaram os primeiros sinais da volta dos animais uns dez anos atrás, ao encontrar carcaças de peixes com mordidas de um bicho que não reconheciam.

Os mais velhos deram o veredicto: a ñeewi (ariranha, em língua baniwa) estava de volta.

Nos últimos anos, os sinais aumentaram – e vários moradores chegaram a topar com os mamíferos.

Membros da comunidade participaram do estudo sobre o retorno dos animais, que contou com o apoio das fundações Capes, CNPq, The Rufford Foundation e Idea Wild.

Baniwa conta que ariranhas não eram vistas na região desde os anos 1940. Na época, eram as espécies mais cobiçadas no movimentado mercado de peles amazônicas.

Comércio de peles de animais

Ao pesquisar o tema, a bióloga Natália Pimenta encontrou estudos que estimaram em 23 milhões os animais caçados na Amazônia Ocidental para a extração de peles entre 1904 e 1969.

O couro de ariranha – animal amazônico que mais sofreu com a caça comercial, segundo a pesquisadora – costumava ser exportado para os Estados Unidos ou a Europa, onde viraria casacos, chapéus e echarpes.

Em um catálogo de 1946 de uma loja de peles em Manaus, o couro de ariranha é vendido por 180 cruzeiros – acima do preço de peles de onça (150), maracajá (150) e caititu (47).

Baniwa diz que os próprios membros da comunidade caçavam os animais para trocar as peles por armas e outros bens. Um bom couro de ariranha valia o equivalente a duas espingardas.

A modernização das técnicas de caça acelerou o extermínio da espécie.

A partir dos anos 1960, leis passaram a regulamentar o comércio de peles silvestres no país. Em 1975, o Brasil aderiu a uma convenção internacional que proibia o comércio de espécies ameaçadas – entre elas, as ariranhas.

A demarcação de grandes terras indígenas na Amazônia a partir dos anos 1990 também golpeou a atividade.

A demanda pelas peles diminuiu, permitindo que as ariranhas começassem a se recuperar.

Encontros com ariranhas

“As ariranhas estão voltando, mas é só o início de um processo de recuperação”, diz à BBC News Brasil a bióloga Natália Pimenta, que chefiou a pesquisa sobre a volta da espécie ao Içana.

Segundo Pimenta – analista de pesquisa intercultural do Instituto Socioambiental (ISA), em São Gabriel da Cachoeira -, a densidade da população de ariranhas na região ainda é baixa.

Ela diz que, para que a recuperação se consolide, é necessário que haja diversidade genética entre os grupos remanescentes.

Pimenta notou que, embora os encontros com ariranhas no Içana tenham se tornado mais frequentes, elas ainda são muito ariscas – “possivelmente por terem sido tão cruelmente caçadas no passado”.

“Como estavam muito isoladas, não estão acostumadas com a presença de humanos. Quando escutam o barco, logo fogem.”

Ela conta que, no passado, as ariranhas eram encontradas da Venezuela ao sul da Argentina. Mas a caça predatória fez com que ficassem restritas a poucas áreas, como o Pantanal e as cabeceiras de alguns rios amazônicos.

Outrora o maior habitat do animal no planeta, a bacia do rio Negro quase viu a espécie desaparecer.

Nos últimos anos, conforme a espécie começou a se recuperar no Brasil, Pimenta conta que países vizinhos – como a Bolívia, a Colômbia e as Guianas – também viram as ariranhas ressurgirem.

Boas pescadoras

André Baniwa diz que a ariranha tem papel importante na mitologia de seu povo, considerada um dos cinco animais que surgiram no início do mundo e que viraram pajés, ao lado de botos, morcegos, onças e lontras.

No topo da cadeia alimentar, são associadas à saúde e ao equilíbrio das águas – e vistas como excelentes pescadoras. “Ela não come qualquer peixe. Não assusta, não bagunça a água, escolhe o peixe e come só a parte que interessa.”

Ele conta que muitos indígenas esperam que a volta dos animais seja um indício de que a população de peixes também esteja aumentando.

Outros, porém, temem que as ariranhas compitam com os humanos pelos pescados. Um ariranha adulta pode consumir até 4 kg de peixe por dia.

Ataque de ariranhas em Brasília

Também chamadas de onças d’água, elas vivem em grupos de até 20 indivíduos e são territorialistas. No YouTube, há vídeos de ariranhas expulsando onças de seu território.

“Se alguém chega no ambiente delas, elas vão para cima para se defender, ainda mais se estiverem com filhote”, diz a bióloga Natália Pimenta.

Em 1977, um acidente no zoológico de Brasília fez com que a espécie se tornasse temida em muitos lares brasileiros.

Naquele ano, o sargento do Exército Sílvio Delmar Hollenbach saltou no tanque das ariranhas para resgatar um garoto de 13 anos que havia caído no local.

O jovem se salvou, mas o sargento não suportou as mais de cem mordidas e, três dias depois, morreu no hospital.

Para Natália Pimenta, o comportamento de ariranhas em zoológicos, onde vivem confinadas e estressadas, deve ser relativizado.

“Nunca ouvi nenhum relato de ataques de ariranhas a pessoas em ambientes naturais”, afirma.

BBC

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