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Brasil

18/05/2016


“Aquarius” é ovacionado em Cannes e Sônia Braga é favorita à Palma de atriz

A última terça-feira (17) no Festival de Cannes prometia as cores berrantes do diretor espanhol Pedro Almodóvar, mas o Brasil também berrou, à sua maneira, com "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, que estreou na competição sob um ruidoso ato anti-impeachment e uma enxurrada de críticas positivas.

"Um golpe de Estado aconteceu no Brasil", anunciava o cartaz que o diretor ostentou na escadaria do tapete vermelho, em frente à sala em que "Aquarius" foi projetado.

Ele foi acompanhado pelo elenco, incluindo a atriz principal, Sonia Braga, que não trouxe cartaz e já havia subido as escadarias do local onde ocorreria a sessão do filme quando percebeu o protesto dos colegas e retornou para participar da manifestação.

"Endosso a democracia", afirmou Sonia em entrevista à Folha, após a exibição do filme. "Não uso a palavra [golpe], porque me traz pesadelos dos anos 1960, mas [no impeachment] houve uma manipulação, uma transformação forçada. Foi revoltante."

Ao entrar na sala com os cartazes, a equipe do longa foi acompanhada por dezenas de outros convidados, também brasileiros, que empunharam os mesmos dizeres e uma faixa: "Parem o golpe".

Após o protesto –que foi parar na primeira página do britânico "The Guardian"–, a presidente afastada Dilma Rousseff usou as redes sociais para agradecer a manifestação em favor do seu governo.

O Aquarius que dá nome ao filme é o prédio em que a trama é ambientada: último representante de seu estilo na praia de Boa Viagem, no Recife, é alvo de uma construtora, que pretende demoli-lo. Mas enfrenta a única moradora que ainda vive ali, Clara (Sonia Braga), uma crítica de música aposentada e viúva, cercada de discos, livros, álbuns de fotos.

"Não é filme de zumbis, mas é quase, com o mercado sendo o zumbi", define o diretor à reportagem. A abordagem crítica da especulação imobiliária e da ocupação do espaço físico não é tema estranho a Mendonça Filho, que já o explorou no aclamado longa "O Som ao Redor" (2012), sobre uma rua no Recife atual que reproduz estruturas de poder e mazelas de séculos de história brasileira.

Para o cineasta pernambucano de 47 anos, que começou a carreira como crítico, "Aquarius" é "um filme de esquerda", e Clara, a protagonista, empreende uma "luta esquerdista", por não se conformar com o destino que a construtora quer dar ao seu imóvel. "A grande questão hoje no Brasil é se ter um ponto de vista. A direita aceita as situações. O pessoal da esquerda questiona."

'UM BAQUE'

Além dos aplausos na sessão para a imprensa, a crítica internacional foi elogiosa ao filme. O jornal francês "Le Monde" crava que "Aquarius" leva a Palma de Ouro, o prêmio principal do festival. "É o mais amplo da competição, o mais rico, o mais raivoso. Um baque", diz Aureliano Tonet, editor de cultura do jornal.

Para a revista "Variety", o trabalho de Sonia é "incomparável" e Mendonça Filho, "um mestre". Segundo a revista "Screen Daily", que tem acompanhado todos os filmes da competição, a interpretação da atriz, "uma força da natureza", é uma das mais fortes de sua carreira.

Sonia já esteve em Cannes outras cinco vezes, uma delas em 1985 com "O Beijo da Mulher Aranha", de Hector Babenco. O Brasil só levou a Palma de Ouro de melhor filme em 1962, por "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte. Na competição, a última participação do país foi em 2012, com "Na Estrada", uma coprodução internacional dirigida por Walter Salles.

O anúncio dos vencedores da 69ª edição do Festival de Cannes será no domingo (22).

O jornalista GUILHERME GENESTRETI se hospeda a convite do Festival de Cannes

Folha Online

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