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Brasil

20/07/2015


Armando Monteiro diz que percepção externa no País é melhor

TEREZA CRUVINEL

Armando Monteiro Neto, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, vem de uma família pernambucana que sempre combinou o êxito empresarial com a atuação na política. Este foi um traço que pesou em sua escolha, pela presidente Dilma Rousseff, para ocupar o MDIC numa quadra de retração interna da economia por conta do ajuste fiscal que exige uma forte articulação interna com o setor produtivo e uma agressiva política comercial externa para alavancar as exportações brasileiras. Armando é senador pelo PTB, foi deputado e presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Nesta entrevista ao 247, ele fala destes e de outros desafios à frente da pasta e da parceria com a presidente Dilma para enfrentar as dificuldades internas e criar oportunidades lá fora para o Brasil e seus produtos. Confira:

– O senhor está muito empenhado em turbinar as exportações brasileiras como instrumento para mitigar os efeitos da recessão. Mas isso não esbarra nas dificuldades que outros países também estão enfrentando?

Olhe, fazer uso do canal das exportações neste momento é uma solução bastante óbvia. Pois se estamos tendo queda nas vendas domésticas, temos que procurar outros destinos para nossos produtos. Neste momento, algumas regiões do mundo estão com as economias mais dinâmicas e com maior presença no comércio internacional. A economia americana, por exemplo, a grande locomotiva do comércio internacional, voltou a crescer. E os Estados Unidos já são o destino da maior parcela de manufaturados do Brasil. Portanto este mercado, que já é importante, pode oferecer oportunidades ampliadas de acesso aos produtos brasileiros no curto prazo. Ainda na América do Norte, assinamos um acordo que vai ampliar muito as margens de preferência tarifária com o México. A economia mexicana, sob muitos aspectos, tem complementaridade com a economia brasileira. Aqui na América do Sul, apesar de algumas críticas às limitações que o Mercosul nos impõe, estamos negociando a antecipação do cronograma de desgravação tarifária com os países da bacia do Pacífico. Já temos quase tarifa zero com o Chile e vamos ter com o Peru e com a Colômbia, lembrando que o mercado colombiano é muito importante para o setor automotivo brasileiro. Portanto, há espaço neste momento para ampliarmos o foco das ações da política de comércio exterior do Brasil, mesmo com as limitações que decorrem de nossa participação no Mercosul. A isso se acrescenta o fato de que termos uma janela de oportunidade criada pelo câmbio. O saudoso Mario Henrique Simonsen dizia o seguinte: os juros aleijam, mas o câmbio mata. Ou seja, quando o câmbio está fora do patamar correto, um país perde as condições de competitividade de seus produtos. Isso foi o que aconteceu com o Brasil. Durante longos anos, a nossa moeda ficou muito apreciada e consequentemente os nossos produtos ficaram muito caros.

Agora mudou, mas ainda não chegamos ao ponto ideal do câmbio, certo?

Mas já tivemos, em um ano, uma desvalorização cambial equivalente a quase 38%. É o que estou chamando de janela de oportunidades. Isso representa um grande ganho para as exportações brasileiras e já começamos a perceber o efeito desta mudança na balança comercial. Um efeito que se dá de duas formas. O primeiro, através de um novo ciclo de substituição de importações por produtos nacionais e o segundo, através da ampliação das exportações. Para o mercado americano, que é um grande comprador de produtos manufaturados, nós já aumentamos nossas vendas.

Estamos vendendo o que para eles?

Estamos vendendo desde máquinas e equipamentos a produtos como têxteis, alguns artefatos como compressores e equipamentos de refrigeração, componentes da indústria de aviação, entre outros tantos. Há empresas americanas de aviação sediadas no Brasil que vendem serviços e componentes para este setor, como é o caso da GE, através de suas unidades no Brasil. Estamos vendendo também máquinas pesadas.

Mas perdemos com as commodities, cujos preços caíram…

Sim, mas estamos compensando estas perdas no preço com o aumento dos volumes exportados. E no que diz respeito ao complexo da soja, especialmente, os exportadores brasileiros não foram muito penalizados, pois o câmbio mais do que repôs o que eles perderam em vendas. Com a variação cambial, eles estão recuperando, em reais, as perdas que tiveram com os preços internacionais. Considero que tudo isso vai nos permitir obter ainda este ano um resultado na balança comercial superavitário. Algo expressivo, na casa dos US$ 10 bilhões. Nós tivemos um déficit no ano passado de quase US$ 4 bilhões, mas agora já percebemos que as empresas brasileiras voltaram a colocar as exportações no seu radar e no seu planejamento. Com certeza isso vai se traduzir, em 2016, num desempenho das exportações ainda mais forte e expressivo.

Que resultados já foram obtidos neste primeiro semestre de 2015?

Já conseguimos reverter a situação, pois tivemos até fevereiro um déficit de US$ 6 bilhões. E fechamos junho com um superávit de US$ 2,2 bilhões. É importante lembrar que, como resultado disso, teremos um déficit em transações correntes com o exterior bem menor. Tivemos quase US$ 4,5 bilhões de déficit no ano passado nas contas externas e vamos ter uma redução para US$ 3,5 bilhões este ano.

Como se traduz para os brasileiros, na vida real, o resultado deste aumento das exportações?

Emprego, em primeiro lugar. Muitos setores da econômica nacional, ao se voltarem para as exportações, mantêm os empregos. E outros até ampliam os empregos. O setor automotivo, que está demitindo – e agora vai se beneficiar do sistema de proteção ao emprego que a presidente lançou – pode preservar ou até criar empregos no curto prazo com as exportações. As montadoras que estão instaladas no Brasil são players que atuam em diversos outros países. Em certas situações, as companhias redefinem sua atuação no mercado internacional, alterando o perfil de algumas unidades. Assim, as plataformas de produção instaladas no Brasil, com vistas ao mercado interno, podem se constituir em plataformas de vendas para outros países. Para o México, para outros países da América do Sul, por exemplo. Então, este movimento rumo ao exterior se traduz principalmente em emprego, preservando ou ampliando postos de trabalho no Brasil. Nós temos indústrias intensivas de mão de obra que dependem crucialmente das exportações, como o setor de calçados, ou couro-calçadista, o têxtil e de vestuário, o setor moveleiro. Então as exportações, afora outros benefícios macroeconômicos, são um caminho fundamental para garantir a manutenção do emprego em momento de restrição econômica interna.

Como está, de modo geral, o humor do empresariado diante do quadro econômico? Falo do conjunto, e não apenas dos que exportam.

Não posso deixar de dizer que neste momento há uma situação de certa inquietação, com este cenário que se caracteriza pela redução da atividade econômica em todas as áreas. É claro que os empresários estão impactados por esta situação. Por outro lado, reconhecem que não há outro caminho senão fazer o ajuste para reequilibrar a economia do país. O que se discute muito são os custos deste ajuste. É claro que não existe ajuste indolor. O receituário macroeconômico não inventou ainda uma fórmula que produza ajuste sem sacrifícios. A grande pergunta é sobre como podemos amortecer o impacto destas medidas e esta é também a grande preocupação do governo, que vem procurando ativar alguns canais que podem ajudar a mitigar os efeitos do ajuste. O Plano de Investimentos em Logística é uma forma de ativar o investimento e melhorar em muitas áreas a logística do país, reduzindo custos de operação para as empresas. Se não podemos reduzir a carga tributária já, podemos simplificar exigências acessórias, reduzir a burocracia, melhorar o ambiente regulatório. É hora de fazermos um esforço nesta área. E por outro lado, temos também o desafio de atuar neste cenário para incrementar e buscar ganhos de produtividade. As empresas brasileiras estão desafiadas a fazer a buscar ganhos de produtividade para que, na retomada do crescimento, estejam mais bem colocadas para a disputa. Os empresários estão sentindo os efeitos deste processo de transição da economia, mas ao mesmo tempo sabem que o Brasil pode, logo depois deste ajuste, retomar o crescimento.

A queixa maior do momento é quantos aos juros. Quando acha que começam a cair?

Nós tivemos um repique inflacionário, decorrente de um processo que eu chamo de inflação corretiva. Ou seja, ela é fruto de um realinhamento de preços e tarifas que precisávamos promover. Aquele processo de preços congelados ou de aumentos represados contribuiu muito para o desajuste fiscal que nós tivemos. Na lógica do processo de ajuste da economia, um dos primeiros movimentos teve que ser o realinhamento de preços e tarifas e a supressão de subsídios na medida do possível. E ainda tivemos a variação cambial.Tudo isso impactou a inflação. Se o câmbio se desvalorizou em trinta e tantos por cento, isso também acabou sendo, em alguma medida, absorvido pelo sistema de preços. Então, é uma inflação, por assim dizer, saudável, porque decorre de realinhamento de preços que era necessário. Agora, todos os analistas apontam que a inflação vai cair muito rapidamente lá na frente, depois que passar este impacto inicial e forte do realinhamento de preços. Quando isso acontecer, e já está à vista, vamos poder reduzir juros. Pois não há como diminuir juros num cenário de inflação em alta. E o governo tem um grande interesse em que este movimento de redução de juros aconteça de forma responsável. Por quê? Porque o serviço da dívida pública é também fortemente afetado pela taxa de juros. O custo da dívida aumenta quando os juros sobem. Acredito que, no início de 2016, já teremos espaço para uma redução dos juros.

Mas devo dizer que ainda existe muito crédito direcionado e mais barato no Brasil, fora da Selic, e para além das linhas do BNDES baseadas apenas na TJPL. Ele está nos financiamentos habitacionais, no Plano Safra, no Plano da Agricultura Familiar e em outras linhas do BNDES. Há inclusive quem pergunte se isso não reduz a força da política monetária.

O ex-presidente Lula, com uma diplomacia presidencial ativa, exortava os ministros Furlan e Miguel Jorge, que passaram pela pasta que o senhor hoje ocupa, a serem mascates do Brasil. Vejo que o senhor está com a mesma disposição. E a presidente, também está empenhada neste ativismo de política comercial externa mais agressiva?

Olhe, já fiz uma três ou quatro viagens internacionais com a presidente. Fomos ao México, aos Estados Unidos, fomos a Bruxelas, quando cumprimos lá uma agenda importante relativa às negociações do acordo entre o MERCOSUL e a União Europeia. Em todas estas ocasiões encontrei a presidente muito disposta a fazer do comércio exterior uma das agendas centrais do governo. E ela própria vem demonstrando grande interesse em fazer interlocução com os empresários lá de fora, promovendo reuniões, ajudando a encontrar oportunidades, nos instando, aos ministros, para explorar alguns canais. Então posso afirmar que a presidente Dilma comprou esta agenda e ela está engajada. Em entrevista recente, ela disse que será uma caixeira viajante do Brasil. Isso é muito importante, porque a diplomacia comercial não pode prescindir da diplomacia presidencial.

E como avalia a percepção externa do Brasil?

Posso assegurar que é mais positiva do que se pensa aqui, internamente. Evidentemente existe um noticiário muito negativo, em tempo real, que chega simultaneamente a todo o mundo. Mas sinto que o olhar da comunidade internacional, seja no segmento financeiro, de bancos e grandes fundos, com o qual nos reunimos nesta última viagem, seja no de empresas produtoras, mantém um grande interesse pelo Brasil e enorme disposição de continuar investindo em nosso país. Há empresas estrangeiras que estão aqui há mais de cem anos. Então o olhar deles vai muito além de fatores conjunturais. Estive em San Francisco com a presidente e lá tivemos encontros com empresas da nova economia, como o Google, o Facebook, a Cisco e outras grandes empresas da área de TI. Todos muito interessados no Brasil. A internet já cresceu extraordinariamente no Brasil, mas ainda existe espaço para mais crescimento. A gente volta destas viagens com o espírito renovado, ao constatar que a percepção externa do Brasil é muito mais positiva que a de certos olhares internos.

Como senador, como acha que a crise política vai evoluir?

Temos tido algumas dificuldades no alinhamento de posições entre o Congresso e o governo, mas as medidas importantes têm sido aprovadas. O Congresso é soberano, tem sua independência, mas acho que algumas decisões reclamam a criação de uma agenda do bom senso. As dificuldades decorrem, em grande parte, de uma radicalização derivada de uma disputa eleitoral que ainda não cessou inteiramente. Isso fica claro quando vemos um partido como o PSDB votar contra teses que defendeu e até contra reformas que implementou no governo FHC, como na questão do fator previdenciário. Isso preocupa. Mas o governo está procurando melhorar sua interlocução com o Congresso e destaco como fundamental o papel que vem sendo desenvolvido pelo vice-presidente Michel Temer.

O senhor acha que o agravamento da crise pode abrir caminho para o impeachment ou qualquer outra forma de ruptura?

Não. Algumas figuras importantes da oposição, como o governador Geraldo Alckmin, o ex-presidente FHC e o senador Aloysio Nunes Ferreira têm adotado posição bastante sensata em relação a isso. O Brasil tem uma compreensão de que a conquista da normalidade institucional não pode ser colocada em risco, a não ser quando existem elementos em que a própria Constituição ampare a ruptura. Hoje, estes elementos não existem. Não existem fundamentos jurídicos nem políticos para qualquer saída deste tipo.

E os empresários, entre eles alguns apoiaram o impeachment ou a ruptura?

De modo algum. Os empresários têm se manifestado no sentido de que desejam ampliar a interlocução com o Congresso para poderem traduzir suas preocupações em relação à necessidade de acelerar e concluir o ajuste, criando cenário para crescimento econômico. Vamos atravessar estas dificuldades sem comprometer o futuro do país.

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