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Brasil

08/01/2016


Artigo: Por trás dos vazamentos seletivos

Uma investigação feita em sigilo, sem que os investigados saibam o que se está descobrindo sobre eles e não possam interferir nos trabalhos, é o cenário ideal para quem investiga. O sigilo permite que a apuração dos prováveis ilícitos seja feita com mais tranquilidade e eficácia. Quando concluída a investigação, são abertos os procedimentos que asseguram o direito de defesa aos acusados.

Há outro aspecto da investigação sigilosa que é importante. Se o que está sendo apurado ainda não permite conclusões sobre a culpabilidade dos suspeitos, o sigilo impede que inocentes sofram execração pública e sejam vítimas de condenações prematuras, especialmente pela imprensa e pela chamada opinião pública. Fatos citados em depoimentos dados em delação premiada, por exemplo, devem ser checados e apurados, pois podem não ser verdadeiros.

Por que, então, há tantos vazamentos nas operações anticorrupção que vêm sendo realizadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, sob comando da Justiça? A quem interessam esses vazamentos? Como ninguém – nem a polícia, nem o MP, muito menos a imprensa –se dispõe a investigá-los, o que poderia levar aos culpados, temos de ficar apenas nas hipóteses e especulações.

Os vazamentos, sem dúvida, muito contribuem para acirrar a crise política e desgastar o governo. Até porque, nitidamente, têm como alvo preferencial pessoas ligadas ao governo de Dilma Rousseff. E quando vaza algo de oposicionistas, especialmente se tucanos, a dita grande imprensa se encarrega de minimizar os fatos, quando não os esconde.

Nesse caso, há um claro interesse político ou ideológico de quem vaza. O vazamento é um dos instrumentos utilizados pelos oposicionistas e seus aliados no Judiciário, no Ministério Público, na Polícia Federal e na imprensa para cumprir o objetivo de desgastar e inviabilizar o governo e criar um ambiente favorável ao afastamento da presidente da República.

Mas também há interesses menores. Todos os que lidam com a imprensa, de um lado ou do outro do balcão, sabem que a informação é uma importante moeda de troca na relação com jornalistas. Não é segredo, não adianta negar. A autoridade ou funcionário dá informações para ter como retorno o bom tratamento ou o favorecimento pelo jornalista e pelo veículo. É uma espécie de toma lá dá cá peculiar à atividade da imprensa.

Não é estranho, assim, que juízes, promotores, delegados e agentes passem para jornalistas e veículos “amigos” informações que, publicadas, terão repercussão e darão prestígio aos que as publicam. Algumas, “ouro puro”, como se diz nas redações. Esse tipo de vazamento existe até nas antessalas da presidente da República, por ministros que querem estar bem com repórteres e colunistas e não estão nem aí em preservar o governo. Faz parte.

Há outro interesse menor, bem coerente com a corrupção que se investiga. É o vazamento em troca de dinheiro. Esse tipo de prática é, infelizmente, utilizado especialmente por advogados, lobistas e gerenciadores de crises que muitas vezes precisam de informações qualificadas para estruturar suas argumentações. É bastante comum em varas e tribunais, por mais que se negue. Um dinheirinho para liberar um papel, apressar um trâmite, coisa simples.

O lado mais negativo dos vazamentos, especialmente dos que têm interesses políticos por trás, é a divulgação escandalosa de frases e situações fora de contexto e que levam leitores e espectadores a inferirem que o personagem atingido é irremediavelmente culpado. O que não deixa de ser natural, no clima de corrupção generalizada. É com esse tipo de vazamento que uma conversa inocente ou que nada tem de ilegal é apresentada como indício de grave irregularidade. Ou que a uma situação legítima seja dada uma aparência de malfeito em último grau. O prejulgamento é inevitável.

Apurar todas as denúncias de corrupção é fundamental, tudo tem de ser profundamente investigado e um bom trabalho está sendo feito. Mas essa investigação não pode ser seletiva nem ter fins políticos e partidários, com vazamentos direcionados e manipulados.

Helio Doyle

Brasil 247 

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