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Brasil

15/06/2015


“Boicotar Israel não ajuda a resolver o conflito com a Palestina”

Na primeira semana de junho, Reda Mansour, embaixador de Israel no Brasil, veio ao Recife cumprir uma agenda extensa. Visitou o governador Paulo Câmara (PSB), o prefeito Geraldo Julio (PSB), o presidente da Assembleia Legislativa Guilherme Uchoa (PDT) e mais três secretários estaduais. Ainda rodou pela capital pernambucana, acompanhado de Sonia Schechtman Sette, presidente da Federação Israelita de Pernambuco, e Israel Naslavsky, vice-presidente. Uma de suas paradas foi na redação do Diario de Pernambuco. Além de ser o primeiro diplomata não judeu a servir o estado israelense, Mansour é descendente do povo druso – uma minoria árabe que representa 2% da população local. Em pouco mais de uma hora de entrevista, comentou sobre essa excentricidade. E fez questão de desmistificá-la. "Ao contrário do que o Ocidente pensa, existem árabes em todos os setores da nossa sociedade". O conflito entre israelenses e palestinos que toma a Faixa de Gaza, claro, foi assunto. Mas o embaixador não aliviou. "Não consigo entender por que a imprensa comprou essa ideia romântica em relação a Palestina". Mansour também considera desnecessário o boicote que algumas organizações propõem contra Israel. "Isso não ajuda em nada a resolver o conflito". E garante: "Sem a intervenção de terceiros, Israel e Palestina poderiam resolver esse conflito em uma semana". Leia abaixo a entrevista completa.

Além de ser o primeiro embaixador de Israel não judeu, o senhor pertence ao povo druso, uma minoria de origem árabe. Como é para um não judeu crescer em um território de conflito como Israel?

Não somos só de origem árabe. Nossa língua é árabe, nossa cultura é árabe. Os drusos, especificamente, vivem em um modelo de convivência que nos dá esperança quanto ao futuro do país. Provam que árabes e judeus não precisam, necessariamente, estar em guerra. O conflito que existe hoje é político. Não é religioso. Não é cultural. E mesmo com todos os problemas decorrentes, temos árabes como embaixadores, professores e até generais, treinando judeus para lutar contra países árabes. Isso só acontece por conta da democracia que há em Israel. Somos um país que começou com o intuito de criar um estado judaico, mas que, desde a independência em 1948, adotou uma visão em prol da liberdade e dos direitos iguais às minorias. Os árabes, por exemplo, respondem por 20% da população. É uma minoria, mas que já conta com representação no Parlamento. Dos 120 membros, 17 são de origem árabe. Particularmente, como primeiro diplomata não judeu de carreira no país, pude começar algo novo. Não só viver em Israel, mas representar Israel. E é algo curioso, porque boa parte desse trabalho consiste em visitas a comunidades judaicas pelo mundo. Costumo dizer que já devo ter visitado mais sinagogas do que muito judeu por aí.

A tensão entre palestinos e israelenses, no entanto, é secular. Em junho de 2014, pouco antes de o senhor assumir o cargo, a morte de três jovens israelenses desencadeou uma violenta onda de confrontos na Faixa de Gaza que repercutiu mundialmente. Como o senhor avalia aquela situação e em que pé ela se encontra neste momento?

Depois dessa última guerra na Faixa de Gaza, a situação está um pouco mais estável. Ao mesmo tempo, palestinos acabaram de atacar Israel com dois ou três mísseis esta semana. Coisa que já era comum, na verdade, antes da última guerra. Mas nunca recebemos cobertura internacional. Para a mídia, esse aspecto não é notícia. Muitas vezes, nossos sistemas de defesa conseguem impedir os ataques, mas o problema é que cidades normais não podem viver muito tempo com essa rotina de três, quatro mísseis por semana. A cada vez que um míssil nos é lançado, uma sirene como aquelas da Segunda Guerra Mundial é disparada por todas as ruas da cidade. As pessoas precisam se refugiar em algum lugar, se esconder embaixo de seus prédios. Crianças ficam traumatizadas. Às vezes, tentamos tomar uma atitude sem as Força Armadas, mas a população não aceita que Israel não responda. Os ataques do Hamas, claro, não recebem cobertura da mídia, mas quando Israel contra-ataca…

E por que razão a imprensa internacional teria adotado essa postura?

Não sei a razão. Mas sinto que se criou uma imagem muito romântica da causa palestina. É como se fosse um povo pobre que só necessita ser independente. E que, ao conseguir essa independência, o conflito fosse chegar ao fim. Como árabe-israelense, é difícil entender como ela foi comprada pela mídia. É uma imagem muito diferente da verdade. Podemos ver o que o Hamas está fazendo na Faixa de Gaza, sabemos que não há país árabe democrático. Por que a nova Palestina seria diferente de todo o mundo árabe? Seria mais um país árabe sem democracia. Entendo que as pessoas apoiem a ideia de uma Palestina independente, mas essas mesmas pessoas precisam entender que não basta ficar independente. Um país independente tem uma série de responsabilidades a cumprir. Vimos o que Yasser Arafat fez quando chegou ao poder nos anos 1990. Chegou e não construiu a estrutura necessária para se ter um estado. Ao contrário, criou 14 organizações de segurança, com mais de 30 mil soldados e policiais. Instaurou a mesma cultura do mundo árabe: um governo centralizador, sem liberdades individuais, sem direitos humanos. Se o mundo quiser ajudar a resolver o problema entre israelenses e palestinos, não adianta só criticar Israel. É mais importante ajudar os palestinos a entender que eles terão outras responsabilidades. Ser um país moderno e democrático é algo muito sério. Para Israel, é muito difícil aceitar só uma declaração formal de que se quer construir um estado palestino. Queremos ver como os palestinos vão construir algo de positivo. Hoje, a Faixa de Gaza é um segundo Afeganistão. A anarquia total.

Recentemente, o músico inglês Roger Waters escreveu uma carta pedindo que Caetano Veloso e Gilberto Gil não fizessem o show que estava marcado para acontecer em Tel Aviv. O ex-vocalista do Pink Floyd faz parte de um movimento global que visa pressionar Israel a desocupar territórios palestinos. Como o senhor enxerga esse tipo de mobilização?

Esse é um mais um aspecto da cultura ocidental que não ajuda muito a promover a causa da liberdade e da democracia. Por que essa movimentação tão grande sobre o conflito israelense, quando se mata mais gente em uma semana de guerra civil na Síria do que se matou nos últimos anos em Israel? Ninguém fala sobre isso. Se a Palestina tem 5 milhões de refugiados, a Síria tem 12 milhões. Por que ninguém faz um boicote à Rússia ou a outros países que apoiam aquela situação? E esse cenário se repete do Iraque ao Iêmen… É cínico. É como se o mundo estivesse mandando um sinal de que, quando árabes matam outros árabes, não tem problema. Podem matar mil pessoas que talvez saia uma notinha na página oito de algum jornal. Mas quando um só palestino morre, Israel ganha a primeira página de todos os jornais do mundo. Por outro lado, parte disso chega a ser positivo. É como se considerassem Israel como a democracia que, de fato, ele é, e aí as críticas aos países democráticos são feitas sob outra perspectiva. Como se não fosse aceitável um país democrático agir dessa forma.

Qual o papel das relações internacionais diante desse quadro de conflito?

Em relações internacionais, a base é lidar com interesses distintos de países distintos. Fala-se de valores, mas a verdade é que os interesses acabam se sobressaindo a esses valores. Por ser um país pequeno, Israel se tornou vítima de interesses mundiais. Muitas vezes, o tema do conflito israelo-palestino foi usado para interesses que em nada tem a ver com o conflito em si. Diversos países do Oriente Médio fazem isso. E paga-se um preço muito alto. Durante muitos anos, o Egito, por exemplo, dominou a Faixa de Gaza e ninguém se prontificou a criar o estado palestino. Agora, com Israel, reivindicam esse estado. Isso não tem a ver com a verdade palestina, mas com interesses globais. Sem a intervenção desses países, sem a intervenção de terceiros, Israel e Palestina poderiam resolver esse conflito em uma semana. Até porque só existe uma solução: a divisão do território em dois estados, assim como as Nações Unidas propuseram em 1948. Israel aceitou. Os países árabes não. Mas não há outra saída. Com uma maioria árabe, não se consegue democracia. E conviver no mesmo país sem democracia seria algo muito difícil. Precisamos nos dividir.


"Sem a intervenção de terceiros, Israel e Palestina poderiam resolver esse conflito em uma semana". Foto: Rafael Martins/Esp. DP/DA Press

O senhor recebeu honrarias importantes pela promoção do diálogo e da paz internacional, como o Prêmio Heróis Internacional de Excelência e a premiação Árvore da Vida. Diante dos conflitos que vemos hoje, o discurso da paz mundial pode ser encarado como uma utopia?

Pela minha experiência pessoal, por ter conseguido estudar e ser um embaixador em Israel, sinto que tudo é possível. Se separarmos as diferenças culturais, sinto também que temos todos os mesmos desafios e os mesmos sonhos. Por ter vivido em quatro continentes e lidar com cinco idiomas, entendi muito rápido que somos todos muito similares. A nossa existência é muito similar. Essa percepção vem desde jovem. Com 14 anos, ajudava no diálogo de drusos e judeus em Israel. Depois, já na universidade, fui duas vezes aos Estados Unidos e Canadá, onde pude estabelecer parcerias com outros países, outros povos. Em Atlanta, mais especificamente, quando fui em missão como cônsul geral, descobri que a luta pela igualdade social naquela cidade, considerada a capital africana dos Estados Unidos, terra natal de Martin Luther King, teve a colaboração de outras minorias. Os próprios judeus ajudaram muito. Ou seja, é possível criar um modelo de convivência. Atualmente, por exemplo, poucas pessoas sabem, mas Israel conta com um sistema de serviço religioso que cobre os gastos de todas as religiões presentes no país. O governo concede verbas pra judeus, muçulmanos, cristãos, para que esses grupos possam manter suas tradições. É uma forma de provar que a convivência de culturas diferentes é possível.

Antes de assumir o cargo de embaixador de Israel no Brasil, o senhor já havia estado no país antes? Durante esse primeiro ano, as impressões iniciais sobre o Brasil se confirmaram ou mudaram?

Tem uma cantora em Israel que canta que o Brasil é o país das praias, do carnaval e do futebol. Muitas vezes, fora do Brasil, essa é a imagem que se tem. Quando cheguei aqui, no entanto, o que mais chamou a minha atenção foi o tamanho desse país. Um israelense não consegue apreender um país com essa proporção continental. Em seguida a esse impacto, minha maior surpresa foi descobrir seu poder econômico. Estar entre as dez economias do mundo não é pouca coisa. Acho que muitos países no mundo não entendem o que se passou no Brasil nos últimos dez, 15 anos. Aconteceu uma revolução maior. Por fim, fiquei surpreso também ao constatar as relações profundas que existem entre o Brasil e Israel. Movimentamos R$ 1,5 bilhão em transações em 2014. Recebemos recebeu 60 mil turistas brasileiros também no ano passado. São Paulo é sede de 250 companhias israelenses. Considerando todo o Brasil, são mais de 300 empresas. Se pensarmos que o Brasil é um gigante na América Latina e que Israel é um país de oito milhões de habitantes no Oriente Médio, cinco vezes menor do que Pernambuco, ninguém imaginaria o tanto que estamos ligados.

Em que medida o Ocidente, e o Brasil especificamente, consegue compreender as tensões do Oriente, especialmente no território de Israel? Há muita desinformação ou a abordagem é condizente?

A verdade é que sentimos que falta muita informação sobre o Oriente Médio fora do Oriente Médio. Sei que não é algo fácil, nossa região é bastante complicada. São temas que percorreram mais de dois mil anos, envolvendo judeus, árabes, turcos, persas. O conflito israelo-palestino, por exemplo, não é o maior da história daquela região. É algo moderno e isolado. Há conflitos maiores e mais importantes, conflitos de mais de mil anos. No mundo da comunicação em que a gente vive, muitas vezes fica difícil explicar por que Israel está atacando a Faixa de Gaza. Depois da Segunda Guerra Mundial, e, sobretudo, nas últimas décadas, sobressaiu uma cultura forte contra qualquer tipo de exército. Na América Latina, ainda mais, por conta das ditaduras. No Brasil mesmo, o serviço militar não é algo obrigatório, não há sentido positivo algum nas Forças Armadas. Mas sem essa defesa, Israel não poderia sobreviver nem por 24 horas. Vivemos em uma região em que a maioria dos países não aceita nossa existência. Sem as Forças Armadas, não teríamos muitas possibilidades.

Israel se notabilizou mundialmente pela tecnologia aplicada às dificuldades decorrentes da geografia árida, desde a experiência no kibutz dos anos 1940 até estratégias contemporâneas. Esse modelo ainda é um modelo de sucesso?

Nossos investimentos em educação fizeram com que a agricultura chegasse a um nível inacreditável. Hoje, 80% da água de esgoto é reciclada em Israel. A Espanha, que vem em segundo lugar no ranking mundial, só reutiliza 18%. Além disso, estamos investindo no processo de dessalinização do mar, no desenvolvimento de plantas que podem conviver com a água salgada também, enfim. Israel quer disseminar toda essa tecnologia. Temos a cultura do compartilhamento como algo muito forte. Nosso território é pequeno, exportamos pouco. A ideia é passar adiante o conhecimento, estabelecendo parcerias. Nessa visita a Pernambuco, por exemplo, acabei descobrindo que o estado é o maior produtor de melão do mundo. E que chegou a esse patamar fazendo uso de uma tecnologia israelense. Acho que podemos mais, inclusive, em relação ao problema da água, que vem afetando outras regiões do país.

Na agenda que o senhor cumpriu no Recife, houve reuniões com o governador do estado, o prefeito da capital e outros políticos locais. Algum acordo foi firmado? Qual o resultado desses encontros?

Vamos organizar uma missão pernambucana a Israel. Uma missão liderada pelo governador Paulo Câmara, com representantes do governo e outros setores da sociedade civil. A parceria que fizemos com o Rio Grande do Sul, por exemplo, rendeu muitos frutos. Quando uma missão é estruturada, o trabalho maior acontece antes da viagem em si. Todos os estudos, todos os contatos são feitos anteriormente, de modo que, quando a comitiva chega, os acordos já estão a ponto de serem fechados. E mais: não é uma agenda única, é uma agenda múltipla. Organizamos visitas de acordo com o interesse de cada subgrupo que viaja na comitiva. Recentemente, foi inaugurada a Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria do Recife. É a terceira do Brasil, considerando as sedes existentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em menos de um mês, pelo menos, cinco empresas israelenses já demonstraram interesse na localidade. Isso está fazendo, inclusive, com que comecemos a pensar no projeto de cidades-irmãs para Recife e Herzlia, nosso polo industrial em Israel. Por Recife ter um polo de tecnologia importantíssimo, existem mil possibilidades de parcerias.

Sem dúvida, a cidade de Jerusalém é um dos principais destinos religiosos do mundo. Quão importante é esse segmento para Israel? Há outro chamariz turístico no país?

Em 2014, Israel recebeu mais de três milhões de turistas. O que é um número alto, se considerarmos o tamanho do país. Até porque temos contra Israel a violência que assombra o Oriente Médio e é amplamente divulgada pela mídia – ainda que Tel Aviv, por exemplo, seja mais segura do que qualquer outra cidade ocidental. Jerusalém é nosso principal atrativo turístico, mas temos outros. Há pessoas que chegam pelo interesse na arqueologia. Há pessoas que chegam pelo interesse na geografia. Temos o Mar Mediterrâneo, o Mar Morto, o Mar Vermelho. Ao sul, temos deserto; ao norte, temos neve perene. Israel é plural. Nosso sonho, no entanto, é criar um turismo regional que abarque outros países do Oriente Médio. De carro, gasta-se apenas duas horas de Haifa, em Israel, a Beirute, no Líbano. Em uma semana, o viajante poderá conhecer quatro, cinco países. Começar em Petra e terminar nas pirâmides do Egito. É um sonho, mas esperamos que as fronteiras se abram para ele.

Diario de Pernambuco

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