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Brasil

03/04/2014


Brasil brigará com a Argentina por lugar no prato de europeus e japoneses

Economia

O Brasil vai rivalizar com a Argentina em outros gramados e, se depender dos empresários brasileiros, o País grande potencial para ganhar dos hermanos. A disputa entre os vizinhos deverá avançar para o mercado internacional de carnes premium, onde, junto com australianos e uruguaios, a Argentina até hoje divide a liderança.

A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carnes (Abiec), que lidera a iniciativa e representa 95% deste mercado, espera exportar 21% mais neste ano com o fortalecimento da marca Brasil no mercado de carnes. A imagem atual do produto e dos empresários brasileiros já não agrada. “Nosso produto é atualmente identificado no exterior mais como carne ingrediente e menos como carne culinária”, explica Antônio Jorge Camardelli, presidente da Abiec.

Nestas duas categorias, os produtos têm como destino os picados, recheios, molhos e, em seu preparo mais qualificado, os bifes estreitos e rosbifes. São aplicações em que a carne serve de acompanhamento para pratos com outros ingredientes vegetais e cereais. “Estamos no meio do caminho, entre uma carne totalmente commoditizada, que é a indiana, por exemplo, e a americana, que tem melhor aplicação culinária”, explica.

O mercado de carnes premium é o objetivo, com cortes mais nobres e valores agregados que vão além do preço do produto e da garantia de procedência. “Temos um espaço enorme para agregar valor aos nossos produtos e entregar aos países importadores”, comenta Camardelli. “Pretendemos entrar em um nicho de mercado superior, para conseguirmos mais espaço em mercados mais representativos.”

No alvo, estão os mercados europeu, norte-americano e o japonês, onde os produtos brasileiros ainda não têm tanta participação – seja por barreiras comerciais, seja por não atender critérios exigidos por estes países. “Eles têm uma exigência elevadíssima com o produto adquirido. Desde o destrinchamento da carcaça, para atender a esses mercados é preciso um atendimento mais particular, diz José Carlos de Lima Jr., sócios da Markestrat e professor e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

Atulmente, Hong Kong recebe 24% da carne nacional exportada, seguida pela Rússia que compra outros 20% das vendas brasileiras – são os dois maiores importadores do produto nacional. A União Europeia inteira, com 27 países, comprou pouco mais de um terço das 360 mil toneladas adquiridas por Hong Kong. Os Estados Unidos compraram 23 mil toneladas de carne, o equivalente a 1,6% da nossa exportação. O Japão nem sequer aparece nas estatísticas da Abiec.

A ideia é trabalhar melhor os preços do mercado de carne in natura, resfriada e congelada, sem moagem nem misturas. No ano passado, dos US$ 6,6 bilhões exportados, R$ 5,3 bilhões foram em produtos nessa apresentação, um avanço de 17% frente a 2012. Neste ano, a Abiec exportou, até fevereiro, 218 mil toneladas in natura, 32% a mais que no mesmo período de 2013.

A proposta de valor da carne brasileira é diferenciada. Ao passo que os argentinos, uruguaios e australianos entregam uma carne mais marmorizada – com gordura entremeada –, o Brasil deve apostar na leveza de suas peças e na sustentabilidade da criação de seu gado.

Não se trata de uma espécie de gado nova, nem cortes inéditos. O que a Abiec planeja com a ação é o reconhecimento de valor na especialidade da carne brasileira, sua condição sustentável, orgânica e saudável. Para isso, lançará mão do branding e estimulará as empresas à reforçar suas marcas – como fazem a Friboi e a Seara hoje com o mercado interno.

Por sua adaptabilidade e alta produtividade em climas mais quentes, o nelore é que melhor se desenvolve no Centro-Oeste brasileiro, região que concentra as maiores pastagens do País, como explica Lima. Por ser criado solto no pasto, em movimento, acabam rendendo cortes mais magros. A condição é oposta de espécies europeias, como o simental e o angus, que se movimentam pouco e se desenvolvem melhor em climas frios. À exceção do cupim, que fica no dorso do nelore, nenhum corte tem tanta gordura entremeada como os europeus.

Ao passo que a carne gordurosa acaba sendo mais tenra e saborosa, os cortes do nelore brasileiro poderão oferecer mais saúde e bem estar ao consumidor. “O nosso manejo, a não utilização de hormônios, nosso sistema de abate e a condição ambiental em que esse gado é criado não tem sido valorizado na exposição do nosso produto”, lembra Lima, que também acredita na aposta da Abiec, de racionalização da alimentação. É a substituição da alimentação emocional pela funcional. “Se pudermos afirmar sobre a padronização do gado, do tempo para abate dos animais e das características genéticas teremos um mercado mais receptivo.”

Guilherme Augusto de Mello, gerente de exportação da Estrela Alimentos, concorda com a estratégia da Abiec. “Ainda hoje não há marcas claras”, diz. “Algumas empresas já estão seguindo o mercado norte-americano, criando selos, especificações e marcas.”

Para Mello, o apelo da sustentabilidade tem efetividade, especialmente no mercado europeu. “Nós produzimos aqui para alguns frigoríficos europeus, que embalam e selam com a marca deles. Se eles conseguem mercado com a imagem do gado pastando na grama verdinha, porque ainda não conseguimos?”

Nas contas de Mello, a garantia de procedência da carne ajuda, mas a exposição dos métodos brasileiros pode agregar em até 30% o preço da carne enviada para fora do País. “Esse gancho do boi verde, natural, precisa ser melhor explorado mesmo.”

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