14/02/2017

Revista NORDESTE: Os desclassificados do Brasil

População de rua se organiza para dar estrutura a quem não busca moradia. Conheça histórias e porque tem gente que prefere a rua. Matéria da edição 122.

Revista NORDESTE: Os desclassificados do Brasil

Por Jhonattan RODRIGUES

Noite cai e é hora de recolher os poucos pertences e procurar abrigo; para alguns os albergues; para a grande maioria, as praças, os viadutos, supermercados e agências bancárias. No raiar do sol já estão de pé e tomam seu caminho, se separando dos colegas com que geralmente passam as noites. Os que decidem ficar até horas mais tardias da manhã ou até à tarde dormindo ignoram os olhares variados dos que passam. A noite nas ruas, assim como os dias, não é fácil.

No ano de 2004, entre os dias 19 e 22 de agosto, sete moradores de rua foram assassinados na Praça da Sé, em São Paulo, no que ficou conhecido como o Massacre da Sé. Seis policiais militares e um segurança foram acusados de cometer os crimes para ocultar esquemas de tráfico de drogas mantidos pelos policiais na região. Ninguém foi condenado. O dia 19 de agosto então foi escolhido como Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, para lembrar e cobrar justiça ao massacre e denunciar o descaso dessa nação de pessoas esquecidas pela sociedade.

A tragédia foi ponto de partida para a mobilização social que se tem hoje em prol dessa população. Em 2005 foi realizado o I Encontro Nacional sobre População em Situação de Rua, em Brasília, a partir do qual governo e movimentos sociais deram os primeiros passos para juntos conseguirem ajudar as pessoas em situação de rua. Do encontro, surgiu a necessidade do primeiro - e único - censo da população de rua no Brasil: a pesquisa Rua: aprendendo a contar, do Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome (MDS), realizada entre 2007 e 2008, abrangendo 71 cidades, sendo 23 capitais. Foram 31.922 pessoas entrevistadas, sendo que 4275 recusaram-se a responder. As capitais que ficaram de fora foram São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Porto Alegre, que haviam realizado pesquisas semelhantes em anos recentes. A pesquisa indicou que 82% dessa população é formada por homens entre 26 e 35 anos, 67% se declaram negros ou pardos e 63% não concluiu o fundamental.

A pesquisa foi feita com adultos a partir dos 18 anos, só levando em consideração crianças quando elas estavam sob responsabilidade de algum dos entrevistados. Em 2011 foi realizado o 1ª Censo Nacional de Crianças e Adolescente em Situação de Rua. Abrangendo 75 cidades com mais de 300 mil habitantes, a pesquisa apontou 23.973 jovens vivendo nessa condição no país. 72% são do sexo masculino, 42.3% tem entre 12 e 15 anos.

Para muitos que passam, a ideia que vem à cabeça é que pessoas em situação de rua são todas iguais, pedintes, ladrões e usuários de drogas, quando, na realidade, existem várias realidades: há quem trabalhe, há quem roube; há analfabetos, assim como pessoas com ensino superior; há quem perdeu os pais e há quem fugiu deles; há famílias, velhos e jovens, homens e mulheres; há quem chegou agora e há que nasceu nas ruas. Alguns não tiveram opção, outros veem nas ruas relativa liberdade. Mas todos, sem exceção, passam por dificuldades e muitos sonham com uma casa, um emprego, uma família. 

“Existem várias situações que levam as pessoas para as ruas. Inclusive a droga também. Mas também pode ser a situação econômica do país, catástrofes naturais, problemas psicológicos. Temos que conhecer essas pessoas para poder avaliá-las”, conta Ivanilson Torres, coordenador do Movimento População de Rua do Rio Grande do Norte. Ivanilson foi morar na rua aos 12 anos de idade, fugindo dos maus tratos da madrasta. “Eu pensei que era melhor estar nas ruas, na ‘liberdade’, do que estar apanhando.” Hoje ele tem 44. 

Conheceu o movimento quatro anos atrás, com uma história inusitada. Aproveitando a época de eleição para prefeitura, o albergue onde Ivanilson estava resolveu fazer suas próprias eleições. “Eu me candidatei, fiz o nome do partido (PAF Partido Albergue Feliz), fiz metas de campanha, e dentro do albergue houve uma eleição mesmo, com campanha, com debates, com assessor. Fiz um slogan: Natal tem jeito, Ivanilson prefeito.” Fez até um jingle, com a melodia de “Moranguinho do Nordeste”. Ele ganhou as eleições e logo em seguida surgiu a oportunidade de ser o representante para a população de rua do RN num curso de capacitação de lideranças no Ministério da Saúde, em Brasília. 

Até então, ele conta, não sabia que possuía direitos. Agora, após vários cursos de capacitação ele luta pelos direitos daqueles que estão em situação semelhante à que ele esteve. “Hoje o movimento está, além do Conselho Nacional de Saúde, no Conselho Nacional de Direitos Humanos e no Conselho Nacional de Assistência Social [...] Alguns estados já têm economia solidária, com população de rua inserida nela; já tem programas de habitação, já tem programa social, programa de emprego e renda, educação e várias outras conquistas [...] Lutamos hoje por políticas públicas estruturantes que possam dar de fato para essa população a oportunidade de sair da rua através de capacitação, sair e estar trabalhando, sabendo que a população de rua, pode trabalhar e sair dessa situação.”

Um lugar para ficar

Entre os benefícios provenientes do decreto 7.053, está a criação dos Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, (conhecido como Centro Pop). Os centros POP estão espalhados por todo o país e são porta de entrada para as pessoas em situação de rua a outros projetos mantidos pelo governo e descobrirem que eles também têm direitos. Outros sistemas de assistência são o Serviço Especializado em Abordagem Social (Ruartes), o Consultório na Rua e casas de acolhida (albergues), porém, Márcio de Paula, coordenador do Centro Pop de João Pessoa, revela dificuldades: “o centro pop alguns anos atrás em funcionava em uma sala, dividindo espaço em uma casa em que funcionavam outros serviços, quando não podia fazer isso.” Márcio, que é ator e desde cedo participa de movimentos artísticos e sociais, é coordenador do Centro Pop há 3 anos e usa de sua experiência com as artes para preencher a vida daqueles que frequentam a instituição. “A função de coordenador me permite dar aulas de teatro, percussão, artes plásticas, e a gente está sempre incentivando para que tenham essas atividades. Eu acredito que a arte é fundamental nesse processo de reconstrução de vida, e é fundamental para ajudar a assistência social, a psicologia a pedagogia, que também temos aqui”, explica. O centro é tem em suas paredes e recantos artes feitas nas oficinas. Lá as pessoas em situação de rua podem tomar café e almoçar, tomar banho e descansar, e ser encaminhadas para albergues ou programas de saúde. Diariamente, eles chegam a atender mais de 40 pessoas. 

A opinião de Márcio dialoga com a de Ivanilson no que toca programas para capacitar essas pessoas. “Temos melhorado enquanto estrutura, mas precisa de mais projetos voltados para emprego e renda. Eles não querem um abrigo; se tiverem como se sustentar a maioria deles vai sair da rua.” Mas ele se sente satisfeito em dizer que o que se tem agora, já é uma grande ajuda para a população em situação de rua. Descansar, fazer sua higiene e se alimentar faz uma grande diferença na vida dessas pessoas. “A diferença de quem frequenta o Centro Pop, é que se começa a melhorar auto-estima. Claro que a mudança começa de dentro para fora, mas o externo também já faz com que quando ele se olha no espelho e já se reconhece e começa a se perceber. Esse é o bate-papo diário nosso com eles.”

Os rostos das ruas

(Fotos: Ana Daniela Aragão)

Severino

Com a fala apressada, Severino dos Santos conta que dos 32 anos de sua vida, 21 foram vividos nas ruas. Ainda criança se envolveu com drogas, e desentendimentos com a família já o levavam a passar os dias na rua, mas foi aos 11 que abandonou de vez sua casa na ilha do Bispo, bairro de João Pessoa. Criança, sobreviveu fazendo bicos, engraxando sapatos, olhando carros, convivendo ainda com o vício. “Ia no Pão de Açúcar (supermercado) em Tambaú, ia para lá ganhar dinheiro e para ganhar cesta básica. Aí levava a cesta pra trocar em droga”, conta. Ele mostra o braço esquerdo, a pele contorcida pelo fogo, ateado por um companheiro das ruas que o queimou enquanto ele dormia por causa de uma bermuda. Ele se esforça um pouco para mostrar que o braço não sobe além do ombro. “A rua é um caju... caju é dificuldade, dificuldade porque a pessoa não tem um canto certo para dormir. O cara não dorme direito, porque é arriscado até a pessoa estar dormindo e vir uma pessoa e tocar fogo em você…” Após o incidente, que ocorreu há 6 anos e o deixou em coma, ele decidiu deixar as drogas de vez. Passou a ser pedinte, até que as coisas começaram a mudar para ele. Como muitos outros nas ruas, encontrou na religiosidade um conforto. Se tornou evangélico. Conheceu o centro POP, no centro de João Pessoa, onde consegue se alimentar, tomar um banho e descansar, e a partir de onde descobriu o albergue no qual hoje passa as noites. Ali perto do Centro POP, o dono de uma padaria ofereceu tudo o que Severino precisava: uma oportunidade. “O cara na padaria falou assim para mim: ‘vou passar uma proposta para você’. Aí comprou três caixinhas de chiclete de cartela e mandou eu vender”. De três caixinhas, em 4 meses Severino multiplicou seu negócio para uma sorte de balas, pastilhas, pirulitos e chicletes, que ele equilibra em uma mão enquanto carrega uma sacola com salgadinhos na outra, enquanto oferece aos vendedores e transeuntes do Shopping Terceirão, comércio pessoense. “Hoje eu sou bem dizer um fiteiro ambulante. Fico com uma caixinha pendurada e a outra também, vendendo pro lado do Terceirão”. Está juntando dinheiro para comprar uma casa, ao mesmo tempo que recuperou os estudos em um colégio municipal, para então poder tirar carteira de habilitação. “Mas primeiro vou comprar casa aí, depois da casa vem o carro. Não dá para ter o carro sem ter a casa antes.”

 

Janaína

Sentada no colchão, recostada na área de descanso que fica nos fundos do Centro POP, Janaína começa a falar de sua vida. Com 29 anos, também foi morar na rua desde cedo. Conta que nasceu em Pilões, cidade à 117 km de João Pessoa, e que foi morar na capital ainda no primeiro ano de vida. Caçula de quatro irmãos, ela explica que desde cedo sofreu nas mãos do homem com o qual a mãe decidiu viver: “Fui morar na rua porque minha mãe arrumou um homem e abandonou eu e meus irmãos. Eu tinha sete anos, comecei a frequentar a rua porque meu padrasto visitava a minha cama, então para evitar eu saia para ele não fazer nada comigo. Ele maltratava muito a gente.” O histórico de abuso masculino continuou ao longo da vida. Ela conta que se relacionou com alguns homens, com os quais foi morar por um tempo, mas três foram assassinados e o último a ameaçava de morte e só desapareceu após Márcio, do Centro POP, chamar a polícia. Hoje, diz, hoje toma remédios, cedidos pelo Centro de Apoio Psicossocial (CAPS), para dores de cabeça frequentes e para algum tipo de distúrbio mental desenvolvido por causa das agressões dos maridos. “Foi pancada na cabeça e resguardo quebrado... pancada na quina da pia, na janela, punhalada de revólver na cabeça do meu ex-marido, do outro… todos (com) quem eu vivi me espancaram.” Ela relata com calma e sinceridade, como quem fala de uma circunstância que aconteceu há muito tempo e cuja lembrança já é vaga e não machuca, ou como para quem essas situações já se tornaram tão cotidianas que chegam a ser banais. O sorriso alegre muda para um tom orgulhoso e triunfante quando diz que não tem medo do marido que a ameaçava voltar e que perdoou a mãe, apesar de não se dar bem com ela. Mas a expressão muda para tristeza e as lágrimas vêm aos olhos ao falar dos filhos: “Eu tenho o sonho de recuperar a minha casa e meus filhos. Já cheguei a ter uma casa em Livramento onde meu marido foi assassinado. Tive cinco filhos, mas a família dele tirou eles de mim. E minha mãe tirou minha filha a mais nova de um ano e cinco meses. Eu não tenho contato com eles. Eu mesma me afastei de uma porque colocaram na cabeça da minha filha que eu tô envolvida na morte do pai.” A religiosidade e as drogas parecem ser onipresentes nas ruas, ora um afastando o outro, ora convivendo. Para Janaína, não foi diferente e ela relata que já vivenciou essas duas realidades. Ambos, porém, ela já abandonou. “Consegui sair do mundo das drogas, fui evangélica e batizada na igreja, cheguei até ser pastora na Paz e Vida, mas desisti por circunstância do destino”, diz. Beirando os trinta, a experiência lhe trouxe sabedoria e ela diz que tem sorte. “Viver na rua é uma lição da vida, não é pra todo mundo. Não é todo mundo que chega a essa idade que estou.”

Sonhos e amizades

Jéssica

 Bené, assistente do Centro POP, é quem indicou Jéssica. “A conheço bem há uns 10 anos”, disse. Ela estava lavando roupa na área de serviço, que fica junto à área de descanso, onde Janaína estava. As duas são amigas, inclusive. “A gente conheceu lá no Hiper no Hiper Bom Preço aí eu vi ela a gente começou a conversar e a ‘arriar’ e até hoje. Faz uns três meses ou mais. A nossa relação é boa e só brigo com ela quando ela tá falando sozinha, que ela toma remédio.” Sentada no mesmo colchão da amiga, recostada na parede, ela fala de sua vida de forma calma e concisa. “Eu moro na rua desde 2001 porque eu tive umas desavenças com meu padrasto a gente brigou porque ele foi dar na minha mãe e eu dei uma ‘furada’ nele.” A agressão foi superficial, só conseguindo acertar os dedos. A mãe no entanto, continuou com o marido, e Jéssica foi morar na rua com uma amiga. “Não pensei nem dois dias, eu fui embora para ver o que ia dar.” Passou por diversas instituições para menores infratores e depois de maior de idade, passou dois meses no Centro de Reeducação Feminina Maria Júlia Maranhão, onde ela se viu realmente sozinha e passou pelo pior momento de sua vida. “Cheguei lá grávida... cheguei sangrando, perdi o bebê lá. Tava grávida de 3 meses. A polícia bateu em mim no dia que eu fui presa. Quando a gente vai presa com drogas, eles batem, aí a gente tem o exame de corpo de delito, mas é tudo mentira, não dá nada. A gente pode tá roxa, mas dizem que não tem nada. Deixei para lá. Cheguei lá, aí fui fazer o procedimento para tirar a criança que já tava morta. Foi horrível ficar presa e perder o filho. Fiquei desesperada.” “Aí minha mãe foi me visitar não deixaram ela entrar porque ela tem uma platina na perna e não deixaram, aí passei 30 dias no chapa, porque ‘esculhambei’ a diretora.” O chapa é um quartinho isolado, uma espécie de solitária, “que só tem rato e barata”, diz ela. Mas o que seria um castigo, acabou sendo melhor que a realidade das celas comuns. “O quarto era apertado, eu ficava sozinha, mas até que foi bom porque eu ficava só comendo e dormindo. Eu nem liguei porque era mais de 30 pessoas numa cela.” Depois da prisão, pôde trabalhar na Fundação Espaço Cultural João Pessoa (Funesc), conhecido como Espaço Cultural, que possui um programa para reeducandos, onde ela teve oportunidade de ganhar seu próprio dinheiro trabalhando na limpeza. Nesse tempo, alugou uma casa, mas com o fim do recurso, voltou a morar na rua. Hoje está tentando deixar as drogas de lado e construir uma vida nova. “Eu tenho um sonho de construir uma família e ter uma casa só para mim eu vou eu vou quando fechar o processo e passa aquele papel para tentar conseguir um emprego entregar o currículo”.

Cícero

Cícero estava mexendo em suas miçangas e cordões quando chegamos. Nascido em Bananeiras, mas criado em Sapé, gostava de esportes e fazer suas artes, pulseiras e cordões. “Sou tipo hippie”, conta. Ia participar de uma feira de artes na cidade para mostrar suas obras quando foi atacado por dois homens. “Houve uma tentativa de homicídio contra mim e minha irmã ficou com medo de deixar na casa dela porque ela ficou pensando que esse povo fez comigo ia voltar”. Cícero é órfão. O pai faleceu de infarto quando ele tinha 7 anos e a mãe quando ele tinha 16, assassinada pelo homem com o qual vivia. Por isso recebia pensão, que foi cortada esse ano, quando ele completou 21 anos. “Ao chegar em casa, me puxaram pela camisa me levaram para dentro de um matagal começaram a bater em mim perguntaram se eu tinha celular. Eu só tinha uma pulseira de prata, que eu entreguei.” Ele explica que depois o levaram para a casa onde ele vivia e vasculharam à procura de bens. Em determinado momento, com o descuido dos bandidos, tentou fugir, levando dois tiros, um no peito, que atravessou e um na perna, que ficou alojado. Ficou três dias no trauma e mais três com uma irmã em Santa Rita, que tem “mais condições”, diz ele, mas o marido não concordou com sua estadia ali. Da mesma forma a irmã com a qual ele costumava morar ficou com medo de abrigá-lo. Com o fim da pensão que recebia e a recusa de seus outros familiares em lhe acolher, foi para João Pessoa procurar emprego. Sem sucesso, vive na rua há 2 meses, onde teve de se recuperar das feridas de bala. Sobrevive nas ruas de João Pessoa vendendo pulseiras ou olhando carros, e do auxílio do Centro Pop e de outras entidades que ajudam as pessoas em situação de rua. Quando chegamos, ele terminava um quadro feito com anos para expor os colares de fibra trançada com pingentes de pedras de cores variadas que ele agora espalha na mesa para a gente. “Não sou profissional”, diz modestamente. “Eu queria viajar. Só falta pessoal valorizar e comprar meu trabalho, porque com o dinheiro viajo”, conta, enquanto mostra orgulhoso os adereços.
 


 

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