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Brasil

14/05/2014


Brasileiro compra mais carro de luxo

Quem produz e vende carros de níveis superiores não tem motivo para reclamar. Os carros mais caros e luxuosos estão acumulando alta nas vendas, mesmo quando o mercado aponta um cenário pouco favorável para as montadoras.

Falta um consenso sobre o que é um verdadeiro carro de luxo – o peso das marcas e as estratégias de marketing fazem toda a diferença na composição do preço e no perfil do público comprador. A Associação Brasileira das Empresas Importadoras e Fabricantes de Veículos Automotores (Abeifa) divide categorias por faixa de preço. Já a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) prefere dividir os veículos por motorização. De um jeito ou de outro, o fato é que os carros mais caros – sejam os acima de R$ 100 mil ou aqueles com motorização acima dos 2.0 – tem mostrado um comportamento de vendas bem diferente da média.

Nos primeiros quatro meses do ano, as vendas de veículos com motorização superior aos modelos 2.0 foram 23,1% superiores ao mesmo período de 2013 –, enquanto os 1.0 perderam 12,1% em número de emplacamentos.

Nos números da Abeifa, a diferença também é expressiva. Enquanto as vendas de carros que custam até R$ 100 mil caíram 14,1% no primeiro quadrimestre, os emplacamentos de veículos de R$ 100 mil a R$ 300 mil cresceram 6,2% – acima de R$ 300 mil as vendas subiram 5,5%.

Na avaliação dos fabricantes e vendedores de carros mais caros, esse é um claro sinal de que o brasileiro enriqueceu. Para Marcel Visconde, presidente da associação Abeifa, é inegável a evolução do brasileiro nos últimos anos. “É absolutamente perceptível que há mais novos milionários todos os anos por aqui”, diz. “Antes você tinha um universo pequeno de clientes que poderiam adquirir um carro acima de R$ 300 mil, mas essa população cresce.”

Visconde ainda não está satisfeito e lembra que já houve anos com ritmos melhores que os últimos dois. No entanto, o executivo afirma que a mensagem que um carro de luxo agrega faz com que esses modelos estejam menos à mercê das oscilações de mercado. “São compras mais emocionais que racionais”, aponta. “O mercado de nicho no Brasil é evolutivo, nas faixas mais altas o brasileiro continua adquirindo bens. O mercado de outros segmentos para essa faixa de renda também cresce.”

A reorganização social no Brasil fomentou o crescimento das vendas da BMW Group no Brasil, que ampliou as vendas em 90% no primeiro trimestre deste ano. Gleide Souza, diretora de Relações Governamentais do BMW Group, pondera que mesmo que o País esteja crescendo em um ritmo mais lento, a movimentação de classes é notória. “É compreensível que o País esteja crescendo menos nos últimos anos, mas a evolução anterior afetou diretamente o poder aquisitivo da população.”

Com um pouco mais de dinheiro no bolso, o carro é sempre um dos primeiros passos à frente. “Nossos clientes que adquiriam carros de entre R$ 75 mil e R$ 80 mil já migraram para veículos de R$ 100 mil ou R$ 110 mil. É um reflexo direto”, explica Gleide.

Carro caro é sonho do brasileiro

Em geral, os carros mais caros têm maior durabilidade, mecânica e projetos de melhor qualidade. No entanto, não é isso que encanta o brasileiro que escolhe essas marcas.

Milad Kalume Neto, gerente de Desenvolvimento de Negócios da consultoria Jato Dynamics do Brasil, explica que, em média, esse comprador fica com o carro por três ou quatro anos e logo o substitui por um modelo mais novo. “Ele não vai gastar um centavo para trocar uma peça ou fazer alguma manutenção”, lembra.

A qualidade desses veículos, no entanto, permite que eles permaneçam no mercado de seminovos e usados – até hoje circulam aos montes os modelos A3 da Audi, que datam da primeira tentativa da montadora de produzir em solo nacional, na década de 1990.

Por isso, pouco importa a disponibilidade de peças ou a idade do projeto. O carro com presença, marcante, é um dos mais relevantes sonhos do brasileiro. Exatamente por isso, qualquer disponibilidade adicional de renda vai parar na garagem. “O cara quer ter uma estrela de três pontas ou quatro argolas no capô, ele não está preocupado com manutenção e reposição de peças”, diz Kalume Neto.

Investimento das montadoras no Brasil tem efeito psicológico no mercado

A BMW é uma das grifes automotivas que já tem investimentos anunciados no Brasil A partir de outubro entra em operação a fábrica de Araquari (SC), que deverá chegar à produzir 32 mil veículos por ano. “Estamos com todo o cronograma dentro do previsto”, comemora Gleide. “Hoje vendemos quase 10 vezes o volume que vendíamos em 2006. Desde 2007, nossos prognósticos são sempre positivos e isso que viabilizou a decisão de investimento.”

Além da BMW, que aportou R$ 200 milhões na fábrica brasileira, a Audi já anunciou um investimento de US$ 500 milhões em São José dos Pinhais (PR); e a Jaguar Land Rover, um outro montante de R$ 750 milhões em Itatiaia (RJ). A Mercedes-Benz anunciou no fim de 2013 um investimento de R$ 500 milhões para a construção de uma nova fábrica no Brasil, em Iracemápolis (SP), voltada ao segmento de automóveis de passeio.

Kalume Neto, da Jato Dynamics, entende que esses investimentos despertam um efeito psicológico sobre os consumidores, sugerindo um aumento de vendas. Mais que isso, as próprias montadoras dobram esforços para aumentar a participação da sua marca no mercado nacional.

Crédito não é vital para os ricos

Uma das formas de redobrar esses esforços é no fornecimento de mecanismos de financiamento que, na opinião de Visconde, da Abeifa, não são fundamentais para o crescimento do mercado. “É mais um serviço adicional que um item de primeira necessidade”, explica. “Conforme aumenta o preço, diminui a necessidade de financiamento.”

Ao contrário do mercado de carros populares, este setor depende menos da disponibilidade e aprovação de crédito. Quando o veículo custa entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, cerca de 40% das vendas são feitas via financiamento – ainda assim, a entrada chega a 40% do valor do veículo e o parcelamento não passa dos 24 meses. “O mercado de carros populares é absurdamente drenado e fomentado pela disponibilidade de crédito, o que não acontece conosco”, explica Visconde. “Sem crédito, o mercado automotivo nacional não funciona.”

Gleide, do BMW Group, lembra que o braço financeiro da marca tem ganhado força na viabilização dos financiamentos. “Eles preferem não perder liquidez.”

(do iG)

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