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Brasil

30/12/2016


Cientista Político afirma que não nasceu uma nova direita no Brasil

ENTREVISTA

Por Paulo Dantas

Revista NORDESTE: Expoentes como o pessoal do MBL, que teve o vereador Fernando Holiday, negro, gay, pobre e que tem um discurso completamente à direita. Tem também o Alexandre Frota, gente que não estava na política e de repente apareceu. Que novas personalidades são essas? É uma nova direita surgindo.

Vitor Amorim: Eu acho que para ser uma nova direita, teria que ter existido uma direita antes. O problema do Brasil já de partida é que como a direita nunca se reconheceu como tal, não dá nem para dizer que existe uma nova direita. Do ponto de vista do discurso. A primeira vez que se vê um grupo numeroso de gente se reivindicando como de direita, desavergonhadamente. Eu acho que essa é uma coisa. Para falar de nova direita se precisaria dizer muito bem quais são os elementos de revisão de uma proposta de direita anterior que se quer agora superar. A expressão “nova esquerda”, por exemplo, existiu durante os anos 60, 70 no Brasil. Era uma esquerda que fazendo uma autocrítica da linha adotada pelo Partido Comunista, que era uma linha mais pacifista, contemporizadora, de uma revolução nacional aliada com a burguesia, essa esquerda resolveu pegar em armas e partir para a guerrilha. Você está em um campo político, que é novo, você tem que dizer em relação ao quê você é novo. Se nessa direita que temos agora não há nenhuma autocrítica clara, nenhuma indicação do que era um governo de direita antes e o que eles agora estão reivindicando, alterando, conservando, fica difícil chamá-los de nova direita. São novos talvez porque são meninos, não porque tem pensamentos novos.

 

NORDESTE: Eles falam muito em um discurso liberal, com pouca intervenção do Estado…
Amorim:
Mas esse discurso é do Fernando Henrique, no Brasil. Esse discurso não é novo. Se quer retomar o liberalismo? Primeiro que o liberalismo não é novo, é uma coisa que vem pelo menos, do ponto de vista político, do século XVI; do ponto de visto econômica, dos economistas clássicos, Adam Smith, David Ricardo, vem do século XIX. Se ser novo é recuperar ideias de três séculos atrás, fica difícil. Se ser novo é recuperar ideias de Milton Friedman, Ludwig von Mises e outros que viveram a pelo menos 50 anos, também é complicado; se ser novo é retomar ideias de um governo que já tivemos no Brasil há 20 anos atrás, também é extremamente complicado. Com isso eu não estou demonizando o liberalismo. Qualquer um pode professá-lo, como quaisquer outras ideias. Mas com o decorrer do tempo o que do liberalismo não serve mais, o que implementar do liberalismo, à luz de um liberalismo que já foi implementado no Brasil e que não deu certo? O que eles propõem de novo para serem chamados de uma nova direita? Essas são perguntas que não têm respostas. Então, não são novas ideias, em termos históricos, não são novas formas de implementar essas ideias em termos práticos. A única coisa de nova que eu conheço aí é a idade dessas novas lideranças, mas isso, por si só, não vira esperança alguma. Porque ser novo, nem de longe significa que você fará a diferença. Ser novo muitas vezes é até uma condição muito mais fácil de maneira acrítica, porque não viveu o passado, não tem muita consideração pelo passado recente, acabar reproduzindo os mesmos malefícios que essas mesmas ideias criaram no passado.

 

NORDESTE: Essa força da intolerância, do fascismo, é uma nova tendencia desse tempo, desse momento?
Amorim:
Eu acho que sim, eu acho que tem a ver. Pode ser explicado desse ponto de vista, por questões democráticas, porque a democracia parece ser feita cada vez menos por um regime de pluralidade e cada vez mais como um regime técnico de resolução de problemas. Daí porque, por exemplo, os empresários agora aparecem como uma alternativa. Então nesse regime técnico é como se as diferenças devessem estar no âmbito privado. Então tudo bem se você quer ser gay, se quer ser um bandido, se quer ser qualquer coisa, o problema é seu, mas não politize isso, não traga isso para o debate público, porque na esfera pública a questão é só resolver os problemas, ali e tal, notadamente só da economia, porque é regida por números e parece que tudo é objetivo. Uma outra falácia, como se números fossem necessariamente objetivos e imunes a qualquer ideologia. Democracia nunca foi isso ao longo da sua história. Democracia é um regime de inclusão, de reivindicação por direitos e os direitos e a luta por eles necessariamente passa por pautar demandas. Então sou negro, sou gay, etc.sou uma minoria qualquer, e eu por ser minoria então não tenho direito nesse regime? E a minha luta, minha organização social. Então para fazer isso eu tenho que colocar a boca no trombone, eu tenho que pautar essas questões, eu tenho que colocar na agenda de discussão pública. E um regime que se intitula democrático ele precisa respeitar isso. E para isso ele precisa ter um lugar cativo para a pluralidade de ideias, de opiniões, de posições, de pensamentos, enfim.

 

NORDESTE: Porque esse desejo de mudança levou a a uma mudança tão radical ou tão fora de uma forma democrática.
Amorim:
Eu acho que tem algumas coisas aqui que estão para além do Brasil. Quando a gente olha por exemplo o cenário francês, você vê que lá temos um presidente socialista aprovado por 4% da população francesa. É o presidente mais impopular desde a segunda guerra e os dois candidatos que apontam para a disputa presidencial do ano que vem como possíveis vitoriosos é o François Fillon, que é de direita e a Marine Le Pen, que é de extrema direita. Então há um contexto favorável a esse discurso da direita que não está apenas no Brasil. Se formos aos Estados Unidos veremos a mesma coisa. Porque especialmente na Europa, é uma questão que não se coloca no Brasil, a questão da segurança, gera um temor muito grande e as bandeiras da esquerda são muito mais associadas a defesa dos direitos humanos do que no combate bélico, típico de um discurso mais conservador, acaba sendo muito frágil, para uma parcela expressiva da opinião pública. No Brasil algumas coisa são bastante parecidas. A questão do terrorismo não se coloca, como eu disse, mas tem uma série de outras questões que estão na ordem do dia para uma série de países na América do Norte, na Europa, no oriente. O que nos faz pensar em um outro ponto, sobre a solidez do regime democrático.

 

NORDESTE: Eu queria saber que desejo de mudança é esse? É desejo de mudar para quê?
Amorim:
Essa coisa da mudança já estava presente nas eleições de 2012. Os candidatos a prefeito, aqui em Vitória mesmo, o candidato que acabou se reelegendo agora, fazia até um gesto com a mão, com um dedo girando em cima do outro, como se indicasse que ele seria o candidato da mudança. Acabou não sendo. Não por isso, necessariamente, mas o gesto diz muito a tônica daquela eleição. A eleição de agora se deu em outra direção. Me parece que essa direção é herança daquela: nós mudamos e a mudança não produziu bons frutos. Então agora o desejo pareceu ser de candidatos que embora disputando cargos políticos não quisessem ser políticos ou não fossem políticos. E aí o caso mais emblemático seja o prefeito eleito de Belo Horizonte, cujo tema da campanha era chega de políticos. Então eu acho que essa questão da mudança não é de agora, ela vem pelo menos de 2013, ela decorre dessa crise mais ampla da democracia que não é só no Brasil e penso que tem alguns elementos aí que faz com que determinados setores como os de extrema direita, pelo seu discurso, que como já falei, tem uma vantagem, e de um outro lado empresários tenham também vantagem, caso do Dória em São Paulo, caso do próprio Kalil, que não deixa de ser um empresário do futebol, caso do Donald Trump, claramente, porque esse candidatos se apresentam como não políticos, como anti-políticos, o que ainda é pior, porque diminui ainda mais a confiança ainda no regime político, e como candidatos que farão um governo objetivo não ideológico, farão o que tem que ser feito. Só que isso não existe. Todo mundo tem uma ideologia mesmo que não reconheça, ainda que não professe abertamente. Porque todo mundo está colocado em um ponto de vista e enxerga o mundo de uma ótica particular. Eu acho que essa mudança não é recente, aqui no Brasil vem desde uns três, quatro anos atrás, decorre de uma crise que também não é só nossa, e favorece a uma nova elite política muito específica. Políticos de direita ou extrema direita ou pessoas que não são da política, notadamente empresários que passam a se aventurar nessa seara.
 

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