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Entrevista Exclusiva

01/12/2017


Como Lisboa virou o jogo

Rui Coelho é presidente e diretor executivo da Invest Lisboa – uma entidade fruto da parceria entre a Associação Comercial de Lisboa e a Câmara Municipal de Lisboa. Seu objetivo primordial passa por ativar, promover e potenciar investimentos, empresas e negócios para a capital portuguesa. E isto já reúne grandes resultados mudando a vida de Portugal. Licenciado em Administração e Gestão de Empresas, com especialização em Marketing, pela Universidade Católica, Rui Coelho trabalhou anteriormente como Consultor em diversas empresas e organizações nas áreas de marketing e turismo.
Em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, Rui Coelho falou sobre o recente sucesso econômico de Portugal, da importância do turismo e do incentivo para que novos talentos e empreendedores possam prosperar na capital lusitana e como isso contribuiu para a retomada de Portugal, que há poucos anos sofreu com a crise que assolou a Europa.
O Web Summit, maior evento europeu de Tecnologia da Informação, que neste mês de novembro foi sediado em Lisboa, também é assunto da entrevista. O executivo ressalta a importância da tecnologia e também da internet como ferramentas importantíssimas para internacionalizar empresas de qualquer lugar do mundo, sem mais a necessidade de estarem operando nas grandes capitais do mundo, como Nova York e Londres.

Revista NORDESTE: Inicialmente,gostaria de uma síntese do histórico do InvesteLisboa. A partir de quando a iniciativa privada e o governo resolveram criar um novo rumo para a economia e a sociedade portuguesa?
Rui Coelho: O nosso InvesteLisboa foi criado em 2009 pela Prefeitura de Lisboa e pela Câmara do Comércio e Indústria Portuguesa. Com o apoio do governo português, porque é como você diz, foi, de fato, o setor privado junto ao setor público, local e do Estado que se juntaram para promover Lisboa a nível internacional para captar investimentos, empresas e talentos para Lisboa. A situação nesse momento era uma situação muito complicada para Lisboa. Nós começamos falando com os investidores e o que eles nos diziam era que não iriam investir em Lisboa, diziam: “vocês vão sair do Euro e nós vamos perder dinheiro, então nem pensar, não vamos investir em Lisboa, apesar de todas as coisas maravilhosas que vocês dizem, não vamos investir”. Por outro lado, a cidade estava muito degradada. O Centro Histórico estava muito abandonado, os prédios quase tombando, muito degradados por causa de uma lei de aluguel que nós tínhamos que ela não era muito ruim, os aluguéis não podiam subir o preço, então os proprietários cada vez tinha menos dinheiro, com a inflação, não é… Não tinham dinheiro para reabilitar para fazer a modernização de equipamentos e dos imóveis. Então os imóveis foram se deteriorando e ficaram cada vez piores. A situação era, portanto, muito ruim. Depois, tivemos a grande crise mundial financeira e que em Portugal atingiu muito forte.

NORDESTE: Provocada pelos Estados Unidos, a Crise Imobiliária americana também afetou Portugal?
Coelho: Exatamente, provocada pelos Estados Unidos. Quando chegou à Europa, os países mais frágeis, como Portugal estava naquela época, sofreram muito, e Portugal sofreu muito. Muito desemprego, muito jovem tendo que migrar, muitos migraram para o Brasil à procura de oportunidades, de trabalho, de fazerem suas vidas. Um fato muito duro, mas depois, por um conjunto de circunstâncias, também da ação do Governo, da ação da própria Prefeitura de Lisboa, da ação dos privados, as coisas começaram a mudar…

NORDESTE: O InvesteLisboa surge como uma articulação formal envolvendo esses atores?
Coelho: Exatamente. Um braço armado da prefeitura para captar investimentos, captar empreendedores, captar empresas para a cidade. E, de fato, as coisas resultaram muito bem. Nos últimos três anos, nós estamos batendo recordes sucessivos em muitas áreas. Na área do Turismo, estamos com investimento de dois dígitos, em torno de 14% e 16%. Nós conseguimos transformar ao longo dos últimos anos em Lisboa uma cidade de empreendedorismo, e muito do que foi conseguido, foi através da criação de uma incubadora de empresas, chamada Startup Lisboa, que teve um efeito muito positivo no empreendedorismo. Lisboa depois disso começou a ganhar prêmios internacionais, cidade mais empreendedora da Europa e começou a sair nas notícias internacionais como uma das cidades para startups com mais dinâmica. Foi por isso que o Web Summit escolheu Lisboa ano passado, em 2016, para se instalar. Pois viram o que tava acontecendo em Lisboa. O Web Summit ainda traz mais startups, mais investimento, mais empresas para Lisboa, por causa dos startups e do Web Summit, que é um evento a nível mundial. mas aconteceu também grandes investimentos, recordes de investimentos na área imobiliária e na reabilitação do Centro Histórico, que hoje em dia tem algumas partes prontas e o restante em obra. Você circula por Lisboa e vê muita obra sendo feita de restauração dos imóveis. Além disso, as empresas estão escolhendo Lisboa para se instalar, as empresas multinacionais, europeias e dos Estados Unidos, vieram para cá porque estão a procura de talento. E hoje em dia, o talento não precisa estar nas capitais mundiais, como Nova York ou Londres, já não é preciso lá estar, porque com a internet,, as pessoas talentosas trabalham onde quiserem, em qualquer local do mundo, então a tendência é de encontrar os locais onde a qualidade de vida é maior. E aqui a qualidade de vida é muito grande.

NORDESTE: O senhor está apontando a tecnologia como um vetor desse novo ciclo econômico de Portugal, mas me parece que o turismo voltou a ter um peso muito forte no PIB português. O que gerou essa dinâmica no turismo do País e o que é que ela significa no PIB?
Coelho: Bom, o turismo já é forte em Portugal há muitos anos. Já era forte mesmo antes da crise. É uma atividade para qual Portugal tem uma grande vocação. Tens história, tem muito patrimônio, muitas praias lindas, muitos sítios lindos, uma culinária muito boa… portanto já é muito forte e se beneficia de estar na Europa, perto dos locais, dos países, que são os que mais atraem turistas. Então é muito fácil virem a Lisboa, é muito rápido.

NORDESTE: É a entrada para a Europa.
Coelho: É muito fácil, muito fácil. Então, portanto, o Turismo já é muito forte, só que o que aconteceu foi que havia destinos como concorrentes, que tiveram muito problemas, como no norte da África, na Turquia, até mesmo em França, por causa do terrorismo. Então, os turistas mudaram os seus destinos, e Portugal tinha uma imagem de país muito seguro, muito bom, está mais uma vez com qualidade de vida, então começaram a vir para cá. E depois vão contando uns aos outros, aos amigos, à família, e isso vai sendo muito multiplicador. Portando, o turismo hoje em dia, já era muito forte, e continua a ser muito mais, gerando cerca de 10% do nosso Produto Interno Bruto. É um número muito grande, 10% do PIB. E, principalmente, durante os anos da crise, foi muito importante, as ações do prefeito de Lisboa naquela altura, que agora é o primeiro-ministro, António Costa. Costuma dizer que se não fosse o turismo durante a crise, nós tínhamos quase morrido de fome, não é? Porque as coisas ficaram muito complicadas. Felizmente, o turismo continua a crescer e, nesses últimos anos, a crescer a dois dígitos. É uma bola de neve, está crescendo muito.

NORDESTE : Acompanhando o debate sobre negócios Brasil e Portugal, identificamos que ainda há muito espaço, para entendimentos negociais e mais aproximação entre esses dois países. O que será feito de agora em diante?
Coelho: Para o InvestLisboa, desde o primeiro dia, sempre consideramos o Brasil um alvo muito importante para nós. Por uma questão muito simples, porque é um país que temos mais para oferecer. Temos para oferecer para o mercado europeu o que também temos para oferecer para os outros países. Ao Brasil, ainda temos para oferecer o mercado europeu, entre nós com a mesma língua. Com ligações diretas mais fáceis, e temos acordos bilaterais muito fortes entre os dois países. É, sem dúvida nenhuma, a plataforma na Europa para as empresas brasileiras. Nós fizemos um vídeo, em determinada altura, em que entra o embaixador do Brasil em Portugal e vários empresários, da TV Globo, do Banco do Brasil, e até gestores da TAP, dizendo aos brasileiros porque que Portugal é plataforma tão boa para as empresas brasileiras, e não temos a menor dúvida que isso é uma realidade. Também o Brasil para as empresas portuguesas é muito importante, é gigantesco, é um mercado muito interessante e pode ser a base para toda América Latina. Muitas empresas portuguesas têm se instalado no Brasil, muitas empresas brasileiras têm se instalado em Portugal. Mas concordo com você, há muita ainda para fazer. Há muito para crescer para benefício de ambos os países.

NORDESTE: No Brasil há uma região que é o Nordeste, com 9 estados e acesso me parece muito fácil. São seis horas de voo atravessando o Oceano Atlântico, e seis horas me parece pouco tempo para uma viagem. Especificamente, esses 9 estados estariam, por essa proximidade geográfica, a ser uma plataforma de futuros negócios de TI, de Cultura, Turismo com Portugal. Como o senhor vê esse diálogo com esses 9 estados do Brasil?
Coelho: Deixe – me dizer que eu conheço o Nordeste. Não conheço todo, mas conheço alguns dos estados, alguns dos lugares, uma região linda. Acho que os portugueses, de uma forma geral, que tem a sorte de já ter lá ido, adoram o Nordeste, adoram a culinária do Nordeste, as praias, as paisagens magníficas e as pessoas. Houve um grande movimento de portugueses que foram em turismo ao Nordeste e, depois também, investindo em empreendimentos turísticos, uns maiores, outros mais pequenos, Vila Galé, por exemplo. E esse investimento tem que continuar e deve se diversificar. O Nordeste tem muito potencial para as indústrias mais de energias verdes, como a eólica, e com espaços imensos, com muita população também, com mercados muito interessantes, também para TI, como você falava, muito interessante.

NORDESTE: A Cultura, através da música, do audiovisual, que é o Cinema, acho que tem uma atratividade entre esses dois países. Queria que o senhor falasse sobre o que é que Portugal está a oferecer. Quem, ou qual o investidor brasileiro, empresário, que por ventura queira investir aqui em Portugal, como deva proceder?
Coelho: Bom, tem que ser informado. Quem quiser vir para Lisboa, procura o InvestLisboa. Temos um site, pode falar conosco pedir tudo que precisar, nós somos facilitadores. Damos informações, aconselhamentos, contatos, apuramos parceiro de negócio, procuramos instalações para as empresas, procuramos oportunidades de investimento para os investidores. Estamos disponíveis para apoiar. No Brasil, há muitas câmaras do comércio portugueses no Brasil que podem ajudar a dar as informações, os contatos que sejam necessários. E a grande vantagem que é a língua, o idioma ser igual. Eu diria que entre a internacionalização de uma empresa, há sempre um processo complexo e difícil, mas do Brasil para Portugal é sem dúvida mais fácil do que do Brasil para outro lado qualquer, isso não tem dúvida também. É um bom primeiro passo para internacionalização das empresas brasileiras, que por causa de ter um mercado tão grande no Brasil, não se internacionalizaram rapidamente e agora que o mundo é tão global, elas tem que se internacionalizar rapidamente. Foi o que a China fez, que não se internacionalizou rapidamente, mas ultimamente tem feito um esforço muito grande para se internacionalizar, porque perceberam que as empresas tem que estar espalhadas pelo mundo, não podem estar concentradas apenas em uma geografia, porque se tem problemas aí, as empresas correm um risco muito grande, não é?

NORDESTE: Lisboa sediou o Web Summit, maior evento da Europa na área de Tecnologia da Informação. Na pátria mãe da língua portuguesa, entretanto, só se falou inglês, quer dizer, Portugal não criou a barreira que a França, por exemplo, ainda hoje resiste de ter o inglês como referência. Qual sua análise?
Coelho: Há coisas para as quais não faz sentido lutar, isto é, deixe-me explicar melhor. O português tem um volume muito importante, são 250 milhões falantes de português, e a língua portuguesa está se desenvolvendo, principalmente por causa do Brasil. Não se pode negar isso, nem há que ter complexos de falar inglês. Falar inglês é uma vantagem a mais e é uma língua, como dizia Fernando Pessoa, uma língua dos negócios. O português é a língua da poesia, do coração, da cultura… Também há negócios em português e vai haver cada vez mais negócios em português. A medida que o Brasil se desenvolva, Portugal se desenvolve, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Principe, Timor, todos nós podemos fazer negócios entre nós em português e fazemos, e vamos fazer cada vez mais. Mas não há mal nenhum em falar inglês com os ingleses e com outros povos para fazer os negócios.

NORDESTE: Qual a forma que Por tugal encontrou para não enfrentar o problema que a França por exemplo, há anos vive com imigrantes oriundos de países que forma colônia, sobretudo da África, como Tunísia, Marrocos, Argélia. Isso tem gerado problemas com essas ex-colônias. Me parece que Portugal não enfrenta isso com as ex-colônias. Qual foi a forma encontrada?
Coelho: Eu penso que há uma razão muito parecida com o fato do Brasil também não ter problemas, com comunidades muito fortes que tem também os dois países também do Médio Oriente. Somos países, Brasil e Portugal que são muito acolhedores e que as pessoas sabem viver em convivência entre elas. Isso gerou um choque de culturas e disso houve uma culturação e uma convivência sã. Portugal orgulha-se muito de termos a nossas cidades abertas, o país aberto a todas as raças, todas as culturas. E as coisas funcionam muito bem felizmente. O Brasil, penso também que é um exemplo no mundo. Dizem que as coisas são muito harmônicas. Nós já tivemos problemas no passado. Nesse momento, penso que estamos na vanguarda do que é convivência pacífica, Nós somos acessíveis, não queremos fazer mal a ninguém.

NORDESTE: O Brasil também avançou. Houve problema com os dentistas, havia problema da prostituição, muita gente vinha para a Europa com esse objetivo. O Brasil era o país do futebol, do carnaval, e não é mais esta a realidade, pois há um avanço estratégico histórico. Mesmo com esses avanços, já se percebe que Portugal, sobretudo Lisboa, enfrenta problemas pós sucesso, que são a alta procura e o pouco espaço que existe, por exemplo, para escritórios, habitação, em face do aumento do preço dos imóveis. Como que vocês vão encarar e resolver essa questão.
Coelho: É verdade o que você está dizendo. O sucesso que temos tido nos últimos três anos, principalmente com a captação de empregos, de talentos, de turistas, de empresas, de investimentos imobiliários, tem provocado alguns problemas. Neste momento estamos com falta de escritórios, falta de casas de habitação, mas isso está sendo lidado pela Prefeitura, por nós e por todos com novos projetos, como o projeto de rendas acessíveis, tamos querendo construir sete mil apartamentos com renda acessível, já está no mercado, já estamos a começar este processo. Os escritórios, a Câmara de Lisboa, a Prefeitura, tem um projeto fantástico que é o Hub Criativo do Beato, numa antiga fábrica que era das forças armadas e servia para produção de alimentos às tropas, e que já estava desativada. São 35 mil metros quadrados onde vai criar um Hub de inovação, para as empresas desenvolvedoras. O WEB Summit também terá escritório lá. Isso está também avançando muito rapidamente. E para além de investimentos privados que vão também lidar com esse problema. Não estamos dizendo que as coisas são fáceis e estão resolvidas. Estamos dizendo que esses problemas são também oportunidades de investimento para novos investidores.

NORDESTE: Em João Pessoa, na Paraíba, há um movimento para criar um polo de inovação e de cultura e no Centro Histórico. O senhor, com o conhecimento histórico e econômico que tem, que orientação daria para que esta área economicamente e habitacionalmente.
Coelho: Olhe, esse movimento tem toda razão. Equipamentos desse devem ser instalados mesmo no Centro Histórico. É bom para o centro e é bom para o sucesso das atividades que lá serão instaladas. Serve para revitalizar o Centro Histórico e serve para todas as possibilidades para que essas atividades se desenvolvam com sucesso. Há certamente, como há em Lisboa, imóveis que não estão sendo aproveitados da melhor forma e que podem ser aproveitados nessas novas atividades. Isso vai se refletir em toda cidade. Gostaria muito de conhecer esse projeto, ajudar esse projeto, porque me parece fazer todo sentido.

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