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Cultura

20/06/2015


Companhia de Deborah Colker investe na sensualidade de “Belle”

Entrevista exclusiva

A Companhia de Dança de Deborah Colker percorre Nordeste com o espetáculo “Belle”. Adaptação do romance “A Bela da Tarde”, arrebanhou críticas entusiasmadas

A recepção foi maravilhosa. O público gosta muito de Belle, é impactante, é emocionante. É um espetáculo sensual, bonito e tem poesia”, conta uma entusiasmada Jacqueline Motta, coreografa assistente que acompanhou as apresentações na ausência de Deborah Colker.


A Companhia de Dança Deborah Colker já é uma unanimidade no Brasil no que diz respeito a qualidade artística e beleza plástica. A Revista NORDESTE aproveitou a turnê de “Belle” pelo Nordeste e conversou com a coreógrafa Jacqueline Motta, um dos braços direitos de Deborah, que está na Companhia desde a sua fundação em 1993 – Deborah não pode estar presente por ter que acompanhar algumas atividades no Rio. Da conversa surgiu o painel sobre o que vem a ser a dança, o espetáculo e como é a rotina de trabalho dos bailarinos.

“A BELA DA TARDE” TRADUZIDA EM DANÇA
O espetáculo faz parte de uma nova postura adotada por Deborah Colker em construir shows a partir de obras literárias, é o caso da apresentação feita com “Tatyana”, primeiro espetáculo dessa safra, que toma como fonte de inspiração um clássico da literatura universal: Evguêni Oniéguin – romance em versos, publicado em 1832 por Aleksandr Púchkin (1799-1837), tido como o “pai da literatura russa”.


Desta vez Deborah resolveu fazer “Belle”, um espetáculo livremente inspirado no romance “Belle de Jour” (no Brasil ‘A Bela da Tarde’), lançado em 1928 pelo escritor franco-argentino Joseph Kessel e transformado em um clássico do cinema surrealista quase quatro décadas depois, em 1967, por um de seus maiores mestres, o mexicano Luis Buñuel. O livro conta a história de Séverine, uma burguesa bem-casada com um médico. Os dois tinham um amor fraternal, onde silenciavam seus desejos. “Ela não podia dar o que ele queria e ele não conseguia dar o que ela queria. Então, ela procurou ter uma vida dupla e trabalhava todas as tardes num bordel”, explica Motta.


A escolha para adaptar “Belle de Jour” tem apenas um foco: o apaixonamento. Neste caso, primeiro Deborah se apaixonou pelo romance, aí todos os bailarinos, ensaiadores, corpo técnico e assistentes leram o livro juntos. Depois, Deborah decupou o livro em cenas. Com essas cenas idealizadas, a coreógrafa pediu que todos improvisassem, sob a sua direção. “Os bailarinos começam a improvisar, transformando o romance em movimentos e do movimento Deborah começa a lapidá-los transformando-os numa coreografia. Todo mundo coreografa. Mas a palavra final é dela”, conta a coreógrafa assistente. “Depois disso, ela monta e dirige cada cena”.

 

As cenas do espetáculo acontecem nos anos 30, mas a trilha musical, composta por Berna Ceppas – compositor oficial da Companhia, não se prende a uma época específica e viaja por vários estilos, vai do gênio de Miles Davis ao Velvet Underground de Lou Reed, passando pela música eletrônica. Belle se estrutura em dois movimentos. No primeiro, a ação se concentra na casa de Séverine e culmina em sua descoberta clandestina do randevu. No segundo, integralmente passado no habitat de Belle, seu duplo, o elenco feminino troca as sapatilhas por sapatos de salto alto, mas há poucas mudanças de cenário. Uma opção que reforça a leitura pessoal e intransferível do romance pela coreógrafa.


O resultado é um espetáculo com muita cadência, delicadeza e poesia, onde homens e mulheres dançam uma sensualidade que as vezes parece ser violenta. Percorrendo a visão de uma mulher que perambula entre dois mundos, um real e outro que pode ser imaginário, cheio de visões e delírios sensuais, homens de máscaras e mulheres de roupas íntimas em meio a um ambiente que brinca entre o claro e a penumbra vibrante. O espetáculo arrebatou as platéias do nordeste.

ENSAIOS EXTENUANTES
Quem vê o efeito cênico no palco dos espetáculos da Companhia talvez não se dê conta de quão trabalhoso é para chegar àquele resultado. Um resultado conseguido na base do esforço, dedicação e repetições exaustivas. “Acho que todo mundo pode dançar desde que se aprofunde, estude, passe aquilo para o seu corpo. Tem que ter muito trabalho, muito ensaio para fazer aquilo ficar completamente bem estruturado e com conteúdo”, avalia Jacqueline ao frisar logo em seguida como a Companhia vê e produz a dança:


“Geralmente a nossa dança trabalha com muita intenção, densidade, intensidade, dinâmica, força e equilíbrio. A gente ensaia 8 horas por dia. A rotina é extenuante. Para fazer bem feito a gente está sempre procurando a perfeição e bailarinos que executem muito bem o nosso trabalho. Trabalhamos muito a força, por isso a gente faz aula de balé, alongamento, força e de dança contemporânea. O trabalho é árduo”, conta Motta.


Há bailarinos na Companhia que acabaram de chegar e aqueles que estão desde a fundação, caso de Jacqueline . “Os mais velhos estão indo para o nono ano de Companhia. Os mais novos tem gente que começou esse ano. É uma paixão. Eu comecei dança aos seis anos de idade, nunca mais larguei, hoje tenho 53 anos. Eu vivi disso minha vida toda, criei meus filhos e sou muito orgulhosa de ter conseguido. Não é fácil, quantas vezes eu dava aula para poder ensaiar e dançar. Mas, enfim, tem que ter muito amor e persistência”, pontua a coreógrafa.


Hoje a manutenção da companhia se dá através de patrocínio da Petrobras, de apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro e da bilheteria dos espetáculos.
Em relação aos novos projetos, Deborah e o resto da equipe está sempre procurando uma ideia nova. Ao que tudo indica já há uma linha traçada para o novo espetáculo, mas nada ainda sólido.

VIDA NADA FÁCIL
Para que acredita que já se tornou fácil fazer dança no Brasil, Jacqueline garante que não. “Hoje no mundo inteiro não está fácil. O mundo está vivendo uma crise muito grande. Temos muitos talentos que não têm oportunidades porque acredito que esteja difícil manter companhias e escolas de dança. Mesmo os pais que podem pagar um curso extracurricular preferem pagar inglês e natação, depois ele vai pensar na dança. Isso também é uma dificuldade no momento, mas quando tem amor a pessoa vai fundo”, entende. Apesar de ver ainda dificuldade no fazer dança, Motta explica que o preconceito diminuiu muito no Brasil, apesar de ainda existir. “Você vê a quantidade de bailarinos homens que a gente tem e que começaram pequenos, novinhos. O Brasil avançou nesse aspecto, mas a gente continua batalhando. A juventude ajudou a avançar e está ensinando os pais”.

TURNÊ DE PESO
Uma turnê da Companhia conta com 17 bailarinos, mais a diretora Deborah Colker, a assistente de direção, coreógrafa e ensaiadora, Jacqueline Motta, o diretor executivo de produção – o empresário do grupo –, João Elias, e Gledson Teixeira o produtor. Ainda acompanham o grupo mais três técnicos, dois de cenário e um de luz. A estrutura é pesada e os cenários grandes. “Belle” conta com uma torre, uma escada, barras de ferros, para fazer exercícios em cena, e sofás. Os bailarinos interagem o tempo todo com o cenário que precisa ser forte para aguentar os saltos, e homens e mulheres pendurados e correndo.


No Nordeste o espetáculo “Belle” já foi apresentado em Salvador (BA), Aracaju (SE), Maceió (AL), João Pessoa (PB), Recife (PE) e Fortaleza (CE). Ao fim da turnê pelo Nordeste a Companhia fará show no Rio de Janeiro, seguindo para São Paulo. Depois retorna para o Rio com temporada de um mês. No segundo semestre está prevista turnê mundial com viagem para Toronto, no Canadá, pela Ásia e Europa. Na Ásia a Companhia pretende apresentar “Belle” e “Mix”, espetáculo de 1995. Na Europa, mais especificamente em Cannes, na França, será a vez de “Tatyana”.
 

Paulo Dantas

Revista Nordeste

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