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Ceará

03/11/2015


Comunidades e escolas desenvolvem tecnologia para economia de água

Num estado de território quase completamente tomado pelo semiárido, conviver com longos períodos de seca, como o atual, demanda a existência de tecnologias que otimizem ao máximo a pouca água disponível. Ações de pequena e larga escalas, por iniciativa governamental ou particular, que tentam manejar de forma mais inteligente e dar sobrevida aos recursos hídricos do Ceará.

Depois de quatro anos de chuvas abaixo da média e consequente recarga tímida nos reservatórios, são essas tecnologias que contribuíram para evitar um colapso a curto prazo na visão do titular da Secretaria dos Recursos Hídricos (SRH), Francisco Teixeira. “Muita coisa foi feita. Se não tivesse sido feita, com todos os tipos de sistemas que não são excludentes, a situação estaria pior”.

Atualmente, reuso e ações para o consumo racional de água são fundamentais para a sobrevida desses recursos, pontua Suetônio Mota, professor do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental (Deha) da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Temos de ter consciência de que vivemos com água escassa não só no semiárido, mas no Brasil inteiro. Temos muita água, mas ela está mal distribuída”, ressalta o professor.

Das tecnologias mais simples às mais complexas, ressalta o secretário, as alternativas de uso eficiente da água são muitas, e devem ser aproveitadas ao máximo. “São várias possibilidades. O ideal era que o circuito fosse fechado para não perdermos nada”.

 

Água reaproveitada na própria casa

No Interior, muitas casas já contam com cisternas para armazenar água da chuva. Projeto agora pretende filtrar essa água, depois de usada, para reaproveitar na agricultura. “O semiárido demanda diversas águas, e não queremos desperdiçar nenhuma. Esse é um processo simples que gera oportunidade”, vislumbra Cristina Nascimento, coordenadora do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido e da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). A ideia é canalizar águas usadas na cozinha e no banheiro até um filtro de cimento onde há brita, areia, tela, areia e outros elementos para limpar as impurezas. “De lá, ela será canalizada para outro reservatório, que leve para uma caixa d’água e seja feito um sistema de irrigação”. Cada esquema de filtro e cisterna deve custar, em média, R$ 2,5 mil. Já há, ela afirma, negociação com o Governo do Estado para que o projeto piloto saia ainda este ano, e que sejam instaladas as primeiras 200 unidades.

 

Aplicativo para controlar vazão

Na Escola Estadual Professor Antônio Valmir da Silva, está em andamento projeto para calcular, via aplicativo de smartphone, a quantidade de água que é usada. A ideia é criar um aparato que vai ligar a válvula das torneiras a um equipamento que é controlado pelo programa. O smartphone indica a quantidade necessária (para lavar as mãos, escovar os dentes, lavar louças etc), e o equipamento regula a vazão conforme o uso. Tempo de uso também é regulado. Nicole Brito, uma das estudantes que apresentou o projeto na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, afirma que a ideia ajuda a economizar até 80% de água. “Pode ser uma coisa muito básica, regular a vazão, mas muito necessária”. (colaborou Igor Cavalcante)
 

Filtro garante água limpa

Dois alunos e uma professora da Escola de Ensino Fundamental e Médio José de Borba Vasconcelos usaram o carvão ativado do coco verde para tornar água impura em própria para o consumo. “Água que não é potável passou pelo filtro e a gente conseguiu água de potabilidade credenciada por laboratório”, explica Suiane Costa, professora de Química e idealizadora do Qualiágua. O custo de produção é baixo e a meta é conseguir parcerias para distribuir em larga escala. “Estão cavando muitos poços e a população vai usar essa água. A gente tem esse experimental que dá a potabilidade”. O trabalho foi selecionado para a 30ª Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec), maior feira de ciência e tecnologia da América do Sul. Rebeca Rocha, 19, explica que o carvão remove cloro e excesso de sais. No aspecto microbiológico, foi acoplado filtro UV, germicida.
 

Eficiência saída do centro

Produzir o suficiente para si e para vender, conquistar autonomia e gastar pouquíssima água. Essa é a proposta do projeto Mandalla. Ao redor de um reservatório de água, a plantação é cultivada em círculos e são criados animais. Com os restos do consumo da família, é feita a biocompostagem, que mantém o solo úmido e requer menos água. Com insumos naturais, são elaborados os defensivos e repelentes, evitando contaminação. O nome da iniciativa, segundo o coordenador estadual do projeto e supervisor do Núcleo de Apoio ao Desenvolvimento das Cadeias Produtivas (Nucap) da Secretaria do Desenvolvimento Agrário, José Ximenes de Farias Júnior, inspira-se nos movimentos do Universo: sempre a partir do centro. A SDA implantou quase 500 unidades de Mandalla, afirma Ximenes, mas há registros de mais de duas mil reproduções independentes. O investimento de uma – que beneficia três famílias, em média – é de R$ 5,4 mil. A irrigação é feita por microaspersão, a partir do reservatório central. De acordo com Ximenes, em comparação com um sistema de irrigação por superfície, o rendimento é cerca de 80% maior.
 

Velocidade para reduzir perda

Sem volume para abastecer a Região Metropolitana, os açudes da parte mais populosa do Estado recebem água de muito longe: o açude Castanhão. Ao longo da viagem, são muitas as chances de a água se perder. Para evitar ao máximo que o volume que chega seja muito menor que saiu do reservatório, a liberação ocorre em ondas (ou pulsos). Assim, é economizada até 20% da água que chega. “A gente percebeu que, liberando uma vazão fixa por 160 km do rio Jaguaribe, até o Canal do Trabalhador, a água não chegava na vazão suficiente para ser captada”, relatou o secretário dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira. As perdas ocorriam por evaporação, infiltração e captação dos usuários ao longo do caminho. A média de liberação do Castanhão é de 18 metros cúbicos de água por segundo, mas a taxa não é constante: varia entre 4 m³/s e 40 m³/s. “Agora, a gente solta uma onda de 40m³/s durante três dias, e ela se desenvolve no rio com maior velocidade”, explica. O método é aplicado em vários reservatórios. As barragens de destino enchem mais rápido e a intermitência estimula a preservação. “Tem muita cidade que, durante a seca, sobrevive dessa forma. O usuário ao longo do rio também economiza, porque sabe que não vai ter sempre”.
 

Mariana Freire
O Povo

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