13/02/2017

Na NORDESTE: A resistência do Aruanda em meio a um 'Brasil em Transe'

Na contramão da crise O Fest Aruanda chega a sua 11ª edição fortalecido e consolidado como um festival de porte nacional. Organizador do evento teme que crise possa retardar a boa fase do cinema brasileiro. Na edição 122.

Na NORDESTE: A resistência do Aruanda em meio a um 'Brasil em Transe'

Por Jhonattan RODRIGUES

 

O Brasil possui festivais de grande porte, como os de Brasília e Gramado, entre outros espalhados pelo país, nas capitais e em cidades do interior. Dentre os festivais que mais vem crescendo em porte é o Fest Aruanda, que há 11 anos proporciona aos jornalistas, críticos e cinéfilos paraibanos ficar por dentro das últimas novidades do cinema nacional. O festival, idealizado por Lúcio Vilar, conta com mostras e premiações de obras nacionais, com foco nas produções que ainda vão estrear. dando chance ao público e às pessoas que trabalham na área dar uma olhada no que está por vir nas produções brasileiras. Apesar da época tempestuosa pela qual o Brasil está passando, o pessoal do Fest Aruanda não desanimou e na sua 11ª edição marcou de vez seu nome entre os festivais de cinema de nível nacional.

O ator paraibano José Dumont, presença no evento

 

Realizado de 08 a 14 de dezembro, no Manaíra Shopping, edição 2016 do Fest Aruanda, foi, segundo Vilar, um sucesso, superando a do ano anterior. Ele definiu o evento como uma “maratona fílmica.” Foram 40 filmes entre curtas, médias e longas, documentais e ficcionais, contando com debates, oficinas, mostras e participação de grandes nomes do cinema nacional. Lima Duarte, que trabalhou em um dos filmes exibidos no evento “O Crime da Cabra”, Fernanda Leal, apresentando seu documentário Divinas Divas, sobre a vanguarda do travestismo no Brasil e Eliane Caffé, com o seu docudrama Era o Hotel Cambridge.

Homenagens

Péricles Leal, homenageado


Nomeado em homenagem ao curta que marcou a história do cinema paraibano, o Fest Aruanda 2016 foi de exaltação ao seu estado. Houveram homenagens póstumas ao diretor Manfredo Caldas, falecido em novembro de 2016, com a exibição do curta-metragem Cinema Paraibano – 20 anos, e a Péricles Leal, criador do Falcão Negro, primeiro herói infanto-juvenil brasileiro. Herói mascarado, de capa e espada, à imagem do Zorro, Falcão Negro fez sucesso entre a juventude brasileira com seu seriado homônimo na TV Tupi na década de 50. Sobre o criador do personagem foi apresentado o documentário Péricles Leal – o Criador Esquecido, de João de Lima e Manuel Clemente, e organizada uma mesa de debate que contou com o próprio João de Lima, o ator Lima Duarte (que trabalhou com Péricles Leal e, segundo Vilar, foi quem teve a ideia de fazer uma homenagem ao teledramaturgo), o documentarista Vladimir Carvalho e o crítico Wills Leal, primo de Péricles. O próprio Wills foi um dos homenageados. Crítico, jornalista, pesquisador e escritor paraibano, Wills dedicou sua vida ao cinema e foi homenageado com o documentário Wills Leal Mais que Oitenta – La Dolce de Vita, de Mirabeau Dias, e em virtude de seus 80 anos, recebeu o Troféu Aruanda e um troféu da Academia Paraibana de Cinema, da qual é presidente e sócio-fundador.

Foi feita ainda uma homenagem ainda ao documentarista e jornalista pernambucano Geneton Moraes, falecido em agosto de 2016. A Globo concedeu a última entrevista realizada pelo jornalista, realizada com documentarista paraibano Vladimir Carvalho, sendo realizado um debate com o próprio logo após a exibição.

Cineasta Manfredo Caldas


O encerramento do festival aconteceu no dia 14 de dezembro, sendo aberto pela exibição do filme Pitanga, de Camila Pitanga e Beto Brant, sobre o pai da atriz Antônio Pitanga. O documentário contou com apresentação de Darlene Glória, contemporânea de Antônio, e com debate com o próprio Pitanga e o diretor Beto Brant. Logo em seguida começou a premiação, com o curta paulista ‘Quando Parei de me Preocupar com Canalhas’, de Tiago Vieira, levando o prêmio de Melhor Curta. Adaptação de uma história do cartunista Caco Galhardo, publicada em na revista Piauí, o curta ainda foi escolhido como melhor pelo júri popular e júri Abraccine. ‘Cumieira’, de Diego Benevides, levou o prêmio de Melhor Curta Paraibano. O Melhor Longa foi para ‘Era o Hotel Cambridge’, de Eliane Caffé, docudrama sobre a relação de sem-tetos com refugiados que se abrigam em um prédio abandonado no centro de São Paulo. Sueli Franco, que faz parte do elenco do filme, levou o prêmio de melhor Melhor Atriz. O de melhor ator ficou com Marco Ricca, por ‘Canastra Suja’. A melhor direção ficou com Leandra Leal, por ‘Divinas Divas’.

 

“Tem que correr atrás”

O baiano Chico Kertész (esquerda), diretor de 'Axé, o Canto de um Lugar', o diretor do Festival, Lúcio Vilar (centro), e Beto Brant, que dirige com Camila Pitanga, o filme da noite de encerramento do Festival, PITANGA

 

Na contramão da crise, o Aruanda se manteve e conseguiu inclusive expandir, oferecendo novidades, como a amostra Sob o Céu Nordestino, que contou com 5 longas com temática nordestina e o primeiro Aruandinha, com filmes e literatura infanto-juvenil. Para garantir o evento, o Fest Aruanda contou com recursos captados através da Lei Rouanet. Com a crise, os incentivos municipais e estaduais foram reduzidos, e é o segundo ano que o evento é realizado com o recurso de captação fiscal. Vilar conta que quem demoniza a lei, o faz por ignorância. “O governo não te dá um milhão. Você é aprovado a captar essa quantia. Você pode até ter aprovado o projeto, mas tem que correr atrás”, explica. “É uma captação pequena ainda mas muito significativa considerando que nós não temos um histórico na Paraíba de projeto apoiado”, continua. Vilar aproveitou para agradecer às empresas Elizabeth, do ramo de porcelanato e ao Armazém Paraíba, pelas substanciais contribuições feitas e que, segundo ele, foram essenciais para a execução do Fest Aruanda sem que houvessem cortes. Este é o segundo ano que a Elizabeth disponibiliza fundos para o Fest Aruanda, demonstrando, segundo Vilar, fidelização da empresa para com o festival.

 

Cinema nacional em tempos de crise

Sônia Braga em cena do Filme 'Aquarius', polêmica em na indicação do país ao Oscar 

 

Como organizador de um festival com porte nacional, Vilar acredita que o cinema brasileiro está em um bom momento. Lentamente, deixamos a fase das promessas e alcançamos consolidação com nosso cinema. E o Nordeste tem um papel muito importante nessa história. “Acho que o cinema brasileiro está se renovando e reinventando através de Pernambuco. Não que seja a única via, mas é uma via muito importante nesse momento.” Vilar usa como exemplo o filme Aquarius. “É um filme de contexto internacional, já ganhando prêmios fora do Brasil. Não ganhou nada em Cannes, mas teve grande repercussão e está entre os 10 melhores filmes de 2016. [...] Pernambuco tem essa capacidade de a cada ano lançar três, quatro filmes. Falar de cinema brasileiro hoje é ter que passar por Pernambuco obrigatoriamente.”


E há, é claro, a Paraíba que segue com sua tradição de curtas, tanto documentário quanto ficcional. Curta-metragem que é quase a nossa marca. Mas estamos começando a desbravar essa coisa do longa. Eliéser Filho acabou de rodar um filme em Cabaceiras, “Beiço de Estrada”, e é mais uma promessa aí para ser lançada esse ano. [...] A gente ainda tem essa dificuldade no longa, mas a gente já começa a dar passos mais firmes”.


O brasileiro também começa a consumir produções nacionais, apesar do encarecimento dos cinemas, que migraram para os shoppings, e da já conhecida hegemonia dos blockbuster americanos, quebrando o mito de que brasileiro não gosta de cinema nacional. “Temos hoje as comédias, que estão em alta. Você não pode dizer que os brasileiros não estão vendo filmes. As comédias tem dado um milhão, dois milhões de ingressos. Quando eu falo de comédias me refiro notadamente às comédias com selo Globo Filmes. Isso não deixa de ser filme nacional. O que já é um sintoma positivo. A partir daí possibilita que o espectador possa ver outras coisas.”


Quanto à forte presença do cinema norte-americano, Vilar explica que esse é um tema há muito tempo debatido. “E a gente segue refém. Porque eles são uma indústria muito poderosa, muito consolidada e nós ainda não não constituímos enquanto indústria.” Devido a isso, ele continua, nosso cinema tem a tendência de ocorrer em ciclos. Sem uma indústria cultural fortificada, a boa fase do cinema nacional pode retroceder de uma hora para outra, engolido pela crise econômica que o país atravessa. Quanto à isso diversos nomes ligados à cultura vem demonstrando preocupação, uma vez que essa é a área onde os primeiros cortes ocorreram e com mais força, e Vilar não fica de fora. “Eu vejo com preocupação o que vem pela frente. A economia não dá sinais que vai reagir e nem de que o novo governo conseguirá estabilizá-la. É tudo muito incerto nesse momento. O próprio ministro da Cultura a gente não sabe o que realmente ele pretende. O Brasil está meio em transe, parafraseando logo Rocha. É um momento muito angustiante”, desabafa.


Apesar dos tempos serem sombrios, no que depender do Fest Aruanda, a edição 2017 está garantida. “A menos que uma catástrofe de grandes proporções ocorra, a gente vai resistir, a gente vai aruandar e realizar a décima segunda edição da forma que for possível”, finaliza.

 

“O Brasil está meio em transe”

 

O Lúcio Vilar ainda conversou sobre o que ele acha do atual cenário do cinema brasileiro. Confira:

NORDESTE: Como você vê o cinema brasileiro e o nordestino, principalmente, na atualidade? Estamos com um cenário forte?
Lúcio Vilar: Acho que o cinema brasileiro está se renovando e reinventando através de Pernambuco. Não é que seja a única via, mas é uma via muito importante nesse momento. Como exemplo, o filme Aquarius. É um filme de contexto internacional. Não ganhou nada em Cannes, mas teve grande repercussão. Está entre os 10 melhores filmes do ano passado. É muito importante claro, falar da Paraíba. A gente continua fazendo muito curta-metragem, que é quase a nossa marca. Estamos começando a desbravar essa coisa do longa. Eliéser Filho acabou de rodar um filme em Cabaceiras, ‘Beiço de estrada’. É mais uma promessa aí para ser lançada esse ano.

NE: Apesar do sucesso,Aquarius não foi eleito como representante no Oscar? Você acredita que isso tem a ver com os protestos feitos pelo elenco do filme contra o governo Temer?
Vilar: Embora o MinC tenha reiterado que não, é aquela velha história: contra fatos não há argumentos. Foi, sim, uma forma de retaliação do Governo ao protesto em Cannes, protagonizado pelo diretor pernambucano e o elenco do filme contra o golpe em curso, naquele momento, no Brasil. Até mesmo a classificação (18 anos), evidenciou outra tentativa de prejudicar o lançamento nas salas brasileiras. Ora, assistimos na TV aberta, na telenovela das nove da noite, cenas tão ou mais ousadas, daí ter ficado ainda mais explícita a postura deliberada de limitar a bilheteria, ou seja, que a obra fosse vista por um público maior. Vamos combinar: uma postura mesquinha e contraproducente, na contramão da história. E, mais uma vez, ficamos de fora da disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

NE: Você acha que o brasileiro está assistindo mais filmes nacionais?
Vilar
: Eu acho que o que dificulta mais hoje são os preços muito altos. Cinema no Brasil de hoje é um coisa muito cara. Você vai no shopping, paga estacionamento, lancha, janta, paga todo um pacote. Se você tiver família, filhos, o pacote fica ainda mais caro. Se tornou uma diversão muito salgada. Em tempos de crise o primeiro item que é cortado é o item dos supérfluos. Isso é uma trava concreta que está colocada. Mas acho que temos hoje as comédias, que estão em alta. Você não pode dizer que os brasileiros não estão vendo filmes. Está vendo. As comédias tem dado 1 milhão, 2 milhões de ingressos. E quando eu falo de comédias me refiro notadamente às comédias com selo Globo Filmes. Isso não deixa de ser filme nacional.

NE: E os outros filmes? Filmes independentes, mais autorais?
Vilar:
Eu acho que esse filmes mais autorais estão conquistando mais espaço. Mas é lento ainda. Os lançamentos de fim de ano por exemplo, são os arrasa-quarteirões americanos, que ocupam cinco, seis salas, dublado, legendado, várias versões. Nem de cinema europeu, mas americano. Isso não é uma condição só nossa. Isso acontece em outros continentes também. Isso acontece porque o chamado cinemão hollywoodiano é hegemônico no mundo.

NE: E você acredita que a gente está caminhando para construir uma indústria cinematográfica?
Vilar:
Nesse momento no Brasil a gente não tem nenhuma sinalização concreta de novas políticas públicas na área do cinema, ao menos parecidas com as que tivemos no período Lula e Dilma, então é um cenário desanimador. É tudo muito incerto nesse momento. O próprio ministro da Cultura a gente não sabe o que ele realmente pretende. O Brasil está meio em transe, parafraseando Glauber Rocha, está vivendo um momento muito angustiante e incerto. Se dizia que era tirar Dilma e estaria tudo resolvido e quem defendia isso agora está percebendo que não era bem assim.

NE: Isso pode atrapalhar o Fest Aruanda desse ano?
Vilar:
Esperamos que não, né? Não torço pelo pior. A menos que uma catástrofe de grandes proporções ocorra, a gente vai resistir, a gente vai aruandar e realizar a décima segunda edição da forma que for possível.

 

 

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