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Brasil

11/03/2016


Economia nordestina dá sinais de retração e pode perder ganhos da “era Lula”

Exclusivo NORDESTE

Por Paulo Dantas

A economia Nordestina se mantém próxima a 14% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil desde a década de 40 – em 1939 chegou a 16%, mas o percentual não se sustentou. O valor, que em 2013 era 13,6% do valor total do PIB, está nesse patamar desde o início do século. O PIB Percapita, isto é, o produto das riquezas totais produzidas pela região dividido pela quantidade de habitantes no Nordeste, era de 48% do que ganhava alguém no Brasil em 2010. Um boom no crescimento fez a região sair de 43% em 1989 e chegar aos 48%. Esse valor significa que enquanto na região sudeste e sul do país a média salarial esta acima de R$ 20 mil reais ao ano, no Nordeste esse valor é de cerca de R$ 10 mil. Entretanto, esse crescimento do PIB Percapita fez surgir a argumentação que, mantido esse ritmo, em 50 anos, segundo estudos divulgados pelo Instituto de Políticas Econômicas Aplicadas (IPEA), o Nordeste poderia chegar a 75% do PIB Percapita do país, um percentual utilizado pela União Europeia e considerado aceitável entre regiões ou países desenvolvidos.


No entanto, o Nordeste parece que perdeu seu fôlego. O motivo: a crise que assola o país. O banco Credit Suisse já afirmou que o país caminha para a pior recessão de sua história. A afirmação foi baseada em um estudo feito pela própria organização bancária, que aponta o risco do Brasil viver três anos seguidos em recessão, o que não ocorre desde 1901. O Credit Suisse acredita ainda que o desemprego, que tem andado na casa dos 8%, pode chegar a 13% em 2017. Neste cenário a região Nordeste corre o risco de perder ganhos adquiridos nos últimos anos. O economista Guilherme Resende, do IPEA, em entrevista exclusiva à Revista NORDESTE, foi enfático e as notícias não são boas. Resende apresenta indicadores como a produção física mensal, o próprio PIB, índices do comércio e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Esses indicadores trazem variáveis que mostram o que está acontecendo com a economia do Nordeste e do Brasil.


O último número do PIB Percapita regional de 2013 mostra ainda uma economia do Nordeste que cresce mais que o Brasil, mas já diminuindo o ritmo. Os números de 2000 a 2013 apontam crescimento de 31,5%, enquanto o PIB Percapita brasileiro foi de 29,8%. A média do PIB percapita do Nordeste entre 2000 e 2010 foi de 3,12%, enquanto a média brasileira foi de 1,8%. Isto é, o Nordeste cresceu nesses dez anos quase o dobro do Brasil. “O Nordeste já não tem aquele fôlego no final do período pré-crise e aquela projeção de 50 anos atingir os 75% do PIB nacional, se mantiver esse passo, já não consegue. Vai precisar de muitos mais anos”, avisa Resende.

Pé no freio

Outros indicadores, mais recentes também revelam a desaceleração. “Se compararmos o segundo trimestre de 2014 com o segundo trimestre de 2015 dos rendimentos médios dos trabalhadores revelado pelo PNAD, vemos que ele cresceu 1,5% no Brasil. No Nordeste teve um decaimento de 1,1%. Aí você já começa a ter indicadores que o Nordeste começa a andar num ritmo menor do que o nacional”, pontua Guilherme Resende. 


Dois outros indicadores, de produção física e de volume de vendas do comércio varejistas, também sinalizam a queda no crescimento. No Índice Geral do Brasil, voltado para o comércio, também divulgado pelo IBGE trimestralmente, se for calculado o crescimento de abril de 2014 e abril de 2015, podemos verificar que houve uma queda de 8,3%. Dois estados nordestinos caíram mais do que esse percentual, Paraíba, com -15%, e Pernambuco, com – 8,4%. Houve uma queda forte também em outros estados, como, por exemplo, Espirito Santo -22,3%, Rio Grande do Sul -11%, Mato Grosso -15%, Goiás -15%. Os outros estados caíram também, mas menos do que a média nacional. “Isso mostra que de uma maneira geral todos os estados estão sendo afetados. Como isso vai repercutir como um ganho, ou menor perda para o Nordeste, acho que é preciso esperar um pouco. Mas esses números mostram uma perda de fôlego do Nordeste, se comparado com o Brasil”, avalia o economista. 


Em outro indicador, o Índice Mensal da Produção Física, que está olhando para indústria, mostra que entre abril de 2014 e abril de 2015 o Nordeste teve uma queda de -5,6%. 


O Ceará teve queda de -13,6, a Bahia -10,4 e Pernambuco -7,2%. “Acho isso preocupante em termos de crescimento e diminuição de desigualdade regional. Se olharmos para esse momento de crise, o Nordeste pode estar agora andando para traz, em termos nacionais, em comparação ao Brasil. Quanto tempo isso vai durar, não sei dizer, em algum momento isso deve se recuperar. Até pelas teorias que são ditas aí, economias mais atrasadas, em termos econômicos, tendem a crescer mais a longo prazo. Mas quando vai se dar essa recuperação? O fato é que nesse momento de crise o Nordeste está sentindo mais”.

Patinando na faixa

Ecomista Guilherme Resende (ao centro), foco no Nordeste.

Estimativas elaboradas pelo professor Roberto Cavalcanti de Albuquerque, com longa carreira acadêmica e autor, dentre inúmeras obras, do livro “O Desenvolvimento Social do Brasil”, que faz um balanço do quadro econômico e social do Brasil de 1900 a 2010, o PIB do Nordeste cresceu nesses últimos 110 anos, mas a região tem oscilado entre 12% a 16% do PIB brasileiro. Nos últimos 40 anos a região permaneceu patinando próximo a 14%. O valor considerado mais equânime, segundo economistas, seria 28% do PIB, já que a região carrega 28% da população do país. Resende acredita que essa disparidade no PIB se deve a questões históricas de formação do Brasil. Contudo, ele frisa os pontos principais que dificultam ao Nordeste avançar além dos 14%: Educação, infraestrutura, políticas coordenadas e mais investimentos públicos. 


No entender do IPEA, o crescimento do Nordeste nos últimos anos foi impulsionado principalmente pelo avanço das políticas sociais. “O Bolsa Família é um dos fatores que fez com que o Nordeste crescesse mais. O programa ativa o comércio, principalmente o comércio local, e dá poder de compra as pessoas. Um outro motivo, que também deu poder de compra as pessoas, foi o aumento real do salário mínimo nesse período. Você teve um ganho relativamente grande do salário mínimo. E se a gente está falando de salário mínimo as regiões menos desenvolvidas ou mais pobres ganham nesse nível, outras regiões já estão num nível salarial um pouco maior. Se você pensar que os ganhos reais do salário mínimo foram muito grandes, quem se beneficiou mais foi realmente o nordeste. Um outro fator também já documentado e que evita que regiões menos desenvolvidas percam, foi o controle da inflação, ou seja, estabilidade de preços. Por fim, grandes investimentos foram privilegiados no Nordeste. Se você olhar, por exemplo, os aportes do BNDES, verificará que o Nordeste conseguiu mais investimentos. Logicamente que não ganhou mais em termos absolutos, não levou mais que o Sudeste, que lidera, mas você vê uma mudança relativamente grande na alocação de recursos do BNDES para o Nordeste, que está indo para projetos industriais, de infraestrutura, que beneficiam o crescimento da região”, atesta Resende. 

Caminho esburacado

Talvez a questão hoje nem seja conseguir avançar além dos 14%, mas se questionar quão profunda é a queda. “Num momento de crise você começa a pensar nesses pilares que levaram ao crescimento. Se esses pilares não conseguirem se sustentar, o crescimento do nordeste também pode ter esse efeito de perder a pujança”, avalia Resende. Em relação aos investimentos públicos, o economista lembra que houve cortes gerais por conta de contenção de despesas exigidas pelo ajuste fiscal. A Série Histórica do Nível de Investimento do IBGE aponta decréscimo a partir de 2014. Já os números da Formação Bruta de Capital Físico, que especificam investimentos em construção, máquinas, indústria e outros, mostram que em 2015 houve uma queda nessa taxa de crescimento de cerca de 30%. Evidentemente, se cai o investimento para regiões mais desenvolvidas, cai mais ainda para o Nordeste. 


Além disso, é inegável que a estabilidade de preços está sendo afetada com a crise. “E quando os preços sobem atingem mais os mais pobres. Onde estão os mais pobres? No Nordeste”. Em relação aos aumentos reais do salário mínimo, a regra foi mantida pelo Governo Federal em novembro do ano passado, mas com a queda do crescimento os ganhos são menores. A regra para o reajuste do Salário Mínimo alia o percentual da inflação a quanto foi o crescimento do PIB dos dois anos anteriores. Nessa regra se podia contar que antes seria inflação mais cerca de 5% de crescimento.

“Agora o reajuste só terá o crescimento da inflação, porque o PIB é zero, e vai começar a ter PIB negativo. Os mais pobres começam a perder também esses aumentos”, lamenta. Por fim, com a inflação alta, o repasse feito com o Bolsa Família, apesar de se manter, faz com que o poder de compra dessa bolsa se perca ao longo do tempo. Assim, os pilares que existiam entre 2000 a 2010, e que proporcionaram maior crescimento do Nordeste, estão sendo corroídos nesse período recente.

“Eu acho que o Nordeste tem um diferencial que ajuda. Talvez ele não esteja perdendo mais ainda por conta das políticas sociais. No momento de crescimento, as políticas públicas o ajudaram a crescer mais, ativando mais o consumo. E agora, no momento de crise, a política social serve de colchão. Eu acho que quando se discute, por exemplo, acabar ou diminuir o Bolsa Família, seria uma decisão que prejudicaria ainda mais uma região que já tem o maior número de pobres. Essas políticas podem ser usadas, neste momento, para se evitar perdas maiores”, avalia Guilherme Resende. 

Políticas conjugadas

Em relação a criação de outras políticas de incentivo e investimentos, o economista faz algumas ilações. Ele lembra que a Constituição de 1988 criou três fundos constitucionais para as regiões menos desenvolvidas – Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Esse fundo significou um repasse de R$ 24 bilhões em 2014. “Para quê? Para dar crédito subsidiado para as indústrias e para outros setores a fim de ajudar o desenvolvimento do Nordeste. Em 88 pensava-se isso: Vamos dar recursos para o Nordeste para aumentar o parque industrial e a capacidade instalada. Essa é sempre a ideia, tentar prover ou dar a região uma maior dotação de empresas e indústrias. Contudo, percebemos que podemos dar o crédito, mas as empresas decidem para onde ir. Você dá um crédito subsidiado, mas mesmo assim, elas podem não querer ir para aquela região”, argumenta. 


No entender de Resende, os créditos constitucionais de financiamento estão disponíveis para as empresas, mas esse crédito continua indo para os setores que demandam mais, que é a agricultura e o setor de comércio e serviços e menos para a indústria. “Levar as indústrias para o Nordeste não é uma coisa só de crédito ou de investimento deliberado do governo, as variáveis que vão influenciar isso vão desde a infraestrutura disponível para as empresas ao capital humano que irá trabalhar nessas empresas”. Esse “cálculo” leva a uma outra realidade já conhecida e debatida a exaustão: é preciso mais educação. 


O economista argumenta que até mesmo quando se fala que a solução é a indústria criativa, ciência e tecnologia, isso não envolve só investimento na construção de prédios ou de indústrias, porque elas não vão ser perenes. “Esse é um trabalho que envolve políticas setoriais, de infraestrutura, para determinadas indústrias, políticas de investimento em educação. Quando se está falando em TI&D (Tecnologia, Informação e Desenvolvimento), tem que levar também o conhecimento para essas pessoas que vão trabalhar aí. Não é uma solução simples. É uma solução que envolve a coordenação de várias outras políticas, não só a política industrial, que vai fazer com que a indústria vá, se mantenha e faça ela crescer. Não adianta pensar de maneira fragmentada, só o crédito subsidiado não resolve. A política deve ser coordenada com várias outras para dar certo, senão vai ser uma política de enxugar gelo. Mas eu acho que nos últimos anos essa mentalidade esta sendo incorporada no planejamento. Para atrair uma indústria não adianta dar um terreno, subsídio, ou um benefício a mais, tem que implantar outras variáveis, como educação, saúde, infraestrutura”.
 

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