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Brasil

19/10/2016


Eduardo Cunha para a NORDESTE: A corrupção não vai acabar

Eduardo Cunha para a NORDESTE: A corrupção não vai acabar

“A Corrupção no Brasil não acabou e nem acabará”

DECIDIDAMENTE, EDUARDO CUNHA NÃO É AMEAÇA PARA O GOVERNO TEMER, À QUEM RESPONSABILIZA POR SUA CASSAÇÃO, NEM PARA SEUS EX-ALIADOS CONSIDERADOS TRAIDORES. ELE REVELOU ESTRATÉGIAS DE DEFESA NA JUSTIÇA E PRODUÇÃO DE LIVRO. PARA ELE A CORRUPÇÃO NÃO ACABARÁ


Eduardo Cunha (PMDB/RJ) foi presidente da Câmara Federal entre 1º de fevereiro de 2015 e 7 de julho de 2016, quando renunciou. Eleito deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro por quatro mandatos consecutivos, sendo os três últimos pelo PMDB, Cunha foi cassado em 12 setembro, sob pretexto de quebra de decoro parlamentar por ter mentido em uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Na entrevista que segue o ex-deputado volta a dizer que não mentiu na CPI e que a sua cassação foi defendida, inclusive pela mídia, como uma forma de compensar o impeachment de Dilma Rousseff.
“Eu estou pagando o preço de ter o meu mandato cassado por ter dado continuidade ao processo de Impeachment. Isso é público e ninguém vai conseguir tirar isso. É o preço que eu estou pagando para o Brasil ficar livre do PT. Essa é a grande verdade”, disse o deputado na sessão em que foi votada a sua cassação. Além disso, Cunha também responsabiliza, em parte, o Governo de Michel Temer, que defendeu Rodrigo Maia (DEM-RJ) para eleição de presidente da Câmara. O deputado também taxou de covardes e hipócritas os parlamentares que foram seus aliados e na hora da cassação votaram para derrubá-lo.
Sem mandato político, Cunha promete que irá se dedicar a escrever um livro onde vai contar como foram os bastidores e as conversas que levaram ao Impeachment da Presidente Dilma Rousseff.

REVISTA NORDESTE: Eu gostaria de fazer uma avaliação conjuntural sobre a política, sobre o Brasil, sobre a sua performance, o seu recente passado, presente e futuro. 
Eduardo Cunha
: Às ordens.

NORDESTE: O senhor viu uma entrevista do Domenico De Masi, sociólogo italiano, ao Roberto D’avila? Ele faz algumas comparações as “Mãos limpas”, operação lá na Itália, e a “Lava-Jato” no Brasil. O senhor chegou a ver?
Cunha
: Eu não tive a oportunidade, eu estava retornando de viagem, não vi essa entrevista. 

NORDESTE: Ele trata de assuntos que são reais, que aconteceram na Itália, na famosa operação Mãos Limpas e que, como no Brasil, na Lava Jato, muita gente foi denunciada e ao final de todo o processo, muita gente acabou sendo tratada como inocente. As provas inexistiam e foi o que foi. O senhor acha que, pelo conhecimento de causa, o senhor acha que o caso do Brasil tem semelhança com o da Itália?
Cunha
: Veja bem, o caso italiano é um parâmetro de mídia de muitos desses processo, mas a gente não viveu esse processo, né? Estamos aqui, sabemos o que acompanhamos pela imprensa. Na realidade, no início dessa operação atual, foram feitos artigos, comparando a situação daqui com a situação italiana. Mas, efetivamente, são situações sempre distintas, cada país tem sua realidade, cada sistema político tem sua realidade, mas na prática os objetivos foram o mesmo. O sistema político lá foi de uma certa forma confrontado, e o sistema aqui está sendo de uma certa forma confrontado. Agora, o sucesso ou insucesso de punições ou não de eventuais operações como essa se dá, se você observar o Estado democrático de direito, se você observar as leis, observar a constituição de cada país e, efetivamente, tentar punir ou tentar coibir usando as regras e não efetivamente afrontando as regras. Então é preciso ter cautela com relação a isso.

NORDESTE: O senhor acha então que é preciso guardar as proporções de situações distintas, mas se faz indispensável o respeito ao estado democrático de direito, é isso?
Cunha
: Exatamente, até porque a Itália tinha, ou tem, uma máfia. Então ali houve um certo momento que foi a Máfia, tiveram mortes de juízes… Ali tinha uma circunstância de violência atrelada que não era apenas o sistema político, ali era um sistema político e o sistema da sociedade dominada por um interesse criminoso generalizado que era a própria máfia.

NORDESTE: O senhor acredita que há algo semelhante no Brasil?
Cunha
: Não, não, não. Pelo menos que a gente saiba, não. Não tem noticia dessa natureza. Aqui o confronto está restrito ao sistema político em si. Lá tinha uma organização criminosa efetivamente que estava acima do sistema político, então são circunstâncias que não podem ser comparadas de formas iguais.

NORDESTE: Olha, o Domenico De Masi ele disse também, fazendo a sua avaliação, que há nos processos democráticos dos países de uma forma geral, situações em que, em determinado instante, Os Poderes eles se confrontam em busca de uma hegemonia. E ai, no caso especifico, ele disse que lá na Itália, a Justiça e o Ministério Público assumiram uma conduta que buscava a rivalização com a classe política, com a classe econômica, com os intelectuais, etc. O Sr acha que isso possa estar existindo no Brasil. Setores da Justiça, Ministério Público, buscando essa rivalização de poder?
Cunha: Eu não diria que sejam basicamente setores de poder, eu acho que estamos vivendo uma espécie de fortalecimento de corporações. Corporações que tem muitos direitos, muitas circunstâncias, bem remuneradas e que efetivamente estão se achando, as vezes, acima do estado. Então essas corporações, não por disputa de Poderes, mas disputa por prevalência de corporações, acaba assumindo um protagonismo além daquilo que deveria. Isso de uma certa forma acaba sendo praticado algum tipo de ato que não se deveria. O Poder Econômico, que de uma certa forma está sendo confrontado. Existe uma diferença do Poder Econômico que está infiltrado com atividades irregulares, e existe o poder Econômico que efetivamente sustenta o país e que esse Poder tem que ser preservado, porque se você perder a economia, as corporações não vão ter como subsistir, não terão como receber seus salários porque a arrecadação dos estados acaba caindo de forma vertiginosa pela queda da atividade econômica. Então há problemas sociais decorrentes dos poderes econômicos, que são decorrentes também do enfrentamento. Coisa que por exemplo, nos Estados Unidos, não acontece. Quando uma empresa, grande, é envolvida em algum tipo de denúncia, é feito um acordo, paga-se uma multa astronômica, pune-se a empresa, mas não se pune aqueles que dependem e vivem da empresa.


NORDESTE: Aliás, nesse contexto, deputado. Há uma questão que ele cita especificamente. A estrutura judicial em que, quando você instala um inquérito, uma investigação, isso ele toma por base lá na Itália algo que tem a ver com o Brasil, a mera abertura de inquérito, a citação de alguém no inquérito pelo Ministério Público, já aí, com uma ação de espetáculo que a mídia tem traduzido, tudo isso, sob a ótica dele, significa já uma punição prévia em que a sociedade incorpora quem é mencionado sem antes uma operação mais minuciosa, trocando em miúdos, esse contexto de realidade, que também é efetivo no Brasil, termina punindo previamente muita gente. O Sr concorda com essa tese?
Cunha: Não há a menor dúvida. Hoje em dia, a simples abertura de inquérito quase que equivale a uma sentença tramitada e julgada de culpa. Quando se apresenta denúncia, ainda que a própria denúncia efetivamente não seja base de condenação, mas assim que se possa comprovar ou não os indícios que levaram à propositura, a aceitação de uma denúncia acaba também tendo o mesmo efeito. Então na prática, quem está investigado, no inquérito, na apresentação da denúncia, na aceitação da denúncia, já são três sentenças condenatórias transitadas e julgadas no mesmo fato, quando efetivamente ele não tem nenhum ainda. E isso de certa forma fica uma marca na vida da pessoa, mesmo que ela seja inocentada e não condenada. Eu mesmo tive evento em que fui denunciado, virei réu no Supremo Tribunal Federal (STF), fui absolvido por unanimidade por 5 a 0 na turma que julgou em 2014 e fica como se eu tivesse sido condenado naquela propositura naquele momento. Então é uma circunstância que as pessoas têm todo direito à pretensão de inocência. Para isso existe o processo legal. Quando se quer fazer espetacularização com a investigação acaba gerando esse tipo de condenação prévia que de uma certa forma afasta as pessoas da sociedade.

NORDESTE: Recentemente a Polícia Federal tornou público o entendimento de que em um dos inquéritos que envolvia o ministro José Dirceu, a lista que foi captada pela PF com as iniciais JD não eram “José Dirceu”, mas foi exposto por muito tempo como sendo dele. Há semelhanças com esse caso específico de exagero…
Cunha: Veja bem, você está em uma circunstância em que o sujeito coloca um codinome ou apelido ou qualquer coisa do gênero, e vira fato e quase que eu ou qualquer um que é citado com suposto apelido tem que provar que não é ele. A situação é absolutamente inversa. Não é prova que fulano, beltrano e sicrano ou quem quer que seja. Eu quero ver o método. O método que você cita ou coloca um apelido depois que identifica que o apelido é de fulano e fulano vai preso, porque ele é o apelido e consequentemente ele se beneficiou, isso são circunstâncias absurdas, uma completa inversão sobre o ônus da defesa. Hoje quem tem que provar inocência é quem está sendo acusado. Não é mais quem acusa. É o contrário de tudo do direito. Isso assusta todo mundo, entendeu? Basta amanhã qualquer delator falar, a palavra dele tem muito mais credibilidade. Sendo ele réu confesso, um criminoso, tem muito mais credibilidade que uma pessoa de bem, que não é criminosa ou que não é nem ré. Consequentemente, você fica em uma inversão de valores. Com isso tem que se ter cautela.

NORDESTE: Antes de qualquer avaliação, o senhor comunga ou não com a tese de que o capital nacional e internacional bancou o impeachment de Dilma por vários fatores, entre os quais a inserção do socialismo comandado pelo PT na América do Sul?
Cunha
: Eu não acho… até porque eu sou um protagonista, inclusive vou escrever um livro sobre isso, não quero colocar muito minha opinião, porque vai fazer parte de um contexto que eu estou escrevendo sobre isso. Mas eu acho que o afastamento se deu pela previsão constitucional, pela denúncia, pela aceitação e pelo julgamento.

NORDESTE: Passado já 16 dias da cassação do seu mandato, como é que vive o senhor fora do poder e abandonado pela estrutura e pelos seus aliados?
Cunha
: Um julgamento como o meu, sendo feito dentro do processo eleitoral… Eu paguei um preço caro por isso. Certamente se ele fosse feito na semana que vem, seria outro resultado. Eu fui vítima um pouco desse processo, é claro que a gente sente a mágoa de alguns companheiros ou aliados ou aqueles que nos defenderam durante todo esse processo e na hora H, com hipocrisia, acabaram manifestando seu voto (pela cassação)… De uma certa forma é o tempo que vai resolver isso. Agora estou me dedicando ao processo do meu livro e efetivamente buscar uma nova forma… ainda vou recorrer, vou entrar com mandados no Supremo contra isso… ainda tem muita briga pela frente. Obviamente que eu não me afastarei da vida política e ainda vou lutar muito por esse processo. O processo eleitoral toma conta de tudo. Baixado a bola do processo eleitoral, esse assunto voltará à tona. 

NORDESTE: Olhando para trás e suas consequências, o senhor se arrepende de ter sido responsável pela condução do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma?
Cunha
: Não, não me arrependo…

NORDESTE: O senhor faria tudo de novo?
Cunha
: Talvez eu tivesse feito antes. Talvez eu tenha demorado um pouco para ter aceito o processo. O problema todo é que a gente tem que assumir os nosso papéis constitucionais dentro daquilo que a nossa consciência manda e a minha consciência está muito tranquila. Tanto eu fiz o correto, que foi confirmado depois por dois terços da Câmara e foi confirmado depois também por dois terços do Senado em quatro votações. Ou seja, o julgamento correspondeu àquilo que eu aceitei. Então, se eu estava errado, isso teria sido correspondido depois. Quando eu estava certo, eu fui correspondido depois. Consequentemente, eu não posso me arrepender daquilo que é certo e confirmado por todos. E até porque o país estava à deriva, de fato. Então não há do que a gente possa se arrepender disso. Claro que eu estou pagando o preço da consequência disso. Eu não tenho dúvida nenhuma. Agora, não me arrependo.


NORDESTE: Para dar um sentido de um processo histórico, eu vou precisar abordar que o senhor foi cassado sob alegação de ter arrumado esquema através de trust para dissimular evasão de divisa. O senhor acredita que vai conseguir provar no STF o contrário, diferente do que foi aprovado no relatório da Câmara? 
Cunha: Veja bem, eu fui representado no Conselho de Ética por supostamente ter mentido em uma CPI quando eu disse que não tinha conta no exterior e quando na realidade eu tenho a estrutura de um trust. A estrutura de um trust, que não tinha previsão legal no Brasil, passou a ter regulamentação só depois do meu caso, quando a Receita Federal e o Banco Central emitiram resoluções, é algo de um processo judicial. Não podemos ter condenação no processo judicial… Eu ser condenado antecipadamente em um processo disciplinar, porque se você for condenado, como eu fui, no processo disciplinar e for absolvido no processo judicial, você não pode efetivamente fazer mais nada. Não volta-se atrás. Não há a possibilidade de você ser processado duas vezes pela mesma situação. Até porque se todo mundo que tem acusação feita pelo Ministério Público colocada no STF, no poder judiciário como um todo, a palavra da acusação servir para quebra de decoro no processo parlamentar, significaria que um terço do Congresso deveria estar sendo cassado. Porque essa é a quantidade que responde a inquérito ou a ação penal no STF. Consequentemente a palavra da acusação, prevalecendo, é que deveria nortear o processo disciplinar. No entanto, só aconteceu isso comigo.

NORDESTE: O senhor acha que no STF vai reverter o entendimento de que…
Cunha
: Agora, com a perda do meu foro, esse processo vai para Primeira Instância e até chegar no STF para decisão, vai demorar muito mais do que demoraria. Talvez leve anos para poder ter o resultado julgado de uma decisão como essa. Vai levar muito tempo. Talvez o STF, eu no exercício do mandato, fizesse com muito mais celeridade, porque seria uma única instância. Ainda vai ter muita luta pela frente.

NORDESTE: A mídia, durante todo o processo de impeachment, foi responsável por sua ascensão e domínio de espaço no país como nunca existiu. Mas depois de concluída a meta do afastamento da Dilma, entregou a esfera e passou a defender a sua cassação. Como o senhor se sente diante desse cenário, servindo apenas ao interesse alheio?
Cunha
: Não há a menor dúvida de que na prática o que aconteceu foi isso. Foi uma espécie de compensação pela queda dela (Dilma), quererem minha queda. Além dos partidos de esquerda que queriam a minha queda, teve também o governo, que contribui de uma forma decisiva quando elegeu em primeiro lugar um parlamentar que não só é do meu estado, mas também tinha compromissos, foi apoiado por esses grupos de esquerda, com compromisso de colocar meu processo em votação. Então, quando se juntaram essas duas coisas, de uma certa forma, contribuiu também para minha cassação. Juntou todas essas coisas e para a mídia, de uma certa forma, era importante entregar minha cabeça para que esse processo fosse gerado.

NORDESTE: O senhor esteve no final de toda votação, um placar incrível. Ninguém imaginava que fosse 450 votos, com apenas 10 defendendo a sua causa.
Cunha
: Foram 62 parlamentares que não compareceram e disseram não. Por que sumiram? Porque nós vivemos em um mundo político em que alguns parlamentares são muito covardes e hipócritas. Dentro do processo eleitoral, como todo trabalho que estava sendo feito naquele dia para não dar quórum, e na medida que deu quórum, todo mundo já sabia qual era o resultado, alguns queriam tirar ‘casquinha’, pela sua covardia, de ir lá, marcando sua oposição contra mim. Esses parlamentares covardes, eles vão responder um dia perante a sociedade. Alguns notoriamente muito ligados a mim, defensores meus…

NORDESTE: Por exemplo?
Cunha
: No seu estado (Paraíba) você tem dois, que eu já falei publicamente: Manoel Júnior (PMDB) e Aguinaldo (Ribeiro – PP). O Aguinaldo, na madrugada anterior inteira falou comigo contando voto e o Manoel Júnior foi um dos maiores defensores que eu tive, inclusive foi para Conselho de Ética para me defender. Era uma das pessoas mais ligadas a minha gestão, não só como presidente, como também desde a minha eleição de líder, onde ele era o principal parlamentar da bancada depois de mim, era praticamente o primeiro vice-líder, cuidava de tudo da bancada. Ele inclusive foi o causador das questões de ordem que afastaram o relator da gestão anterior, o que gerou muitas brigas, e depois na hora de votar não teve a coragem, foi covarde e não assumiu a sua posição.

NORDESTE: Isso, eticamente, é o quê?
Cunha
: É Covardia! É Covarde! Hipócrita e covarde. Não há outra palavra para definir. Aí na Paraíba tem o deputado Wellington (Roberto), que não tinha nenhuma ligação comigo, é de outro partido, do PR, não vivia toda noite na minha casa jantando, participando de qualquer atividade política ligada à mim, mas na hora H manteve a sua coerência e foi honrado ao manter a sua posição com a qual ele vinha desde o início. O Hugo Mota, que é outro parlamentar da Paraíba e que também foi muito correto, foi contra minha eleição de líder, apoiava outro candidato na época, que era o Sandro Mabel (PMDB – GO), e que perdeu de mim, mas mesmo assim depois com a situação partidária se aproximou e consequentemente de sua união com a bancada, manteve sua coerência.

NORDESTE: Deputado, tem uma questão que não se restringe ao estado da Paraíba. Por exemplo: Pessoas como o Antônio Imbassahy, da Bahia, o Mendonça Filho, de Pernambuco, Bruno Araújo, o senhor, durante algum tempo atrás, a mídia dizia que o senhor tinha uma lista de 120 parlamentares que iria denunciá-los…
Cunha
: Não, eu não trabalho com esse tipo de metodologia. No dia que eu tiver o que denunciar ou que responder eu farei de forma clara. Eu não funciono na base da ameaça, não funciono nessa natureza. Estou criticando é politicamente.

NORDESTE: Nesse contexto, o senhor considera aético a realidade que você viveu?
Cunha
: Eu considero covarde. Se é aético ou não são as pessoas que vão julgar. Eu não quero dizer que aqueles que votaram em mim são éticos e os que não votaram aéticos; não quero chegar a esse tipo de circunstância. Eu questiono é a covardia, a hipocrisia. Porque não dá para você ficar defendendo a noite inteira e de manhã você mudar de posição, porque já está perdido, já tem um resultado fixo e quero ficar fora desse resultado para não ser criticado. Quem faz esse tipo de postura é covarde, é hipócrita, e esse não merece o voto de ninguém. Porque não quero isso para me representar.

NORDESTE: Deputado, o senhor esteve antes do processo de votação lá no Planalto com o então vice-presidente em exercício, Michel Temer. O que é que o senhor agora, passado o tempo, o que o senhor foi dizer lá e o que o senhor ouviu?
Cunha
: Eu já tive várias conversas com o Michel, eu não tenho o hábito de relatar conversas com o presidente, porque isso seria antiético. Cabe a ele, se for o caso, relatar qualquer conversa que eu tive com ele. Eu não farei, eu mantenho minha postura de sempre, de ético. Mas eu não estive com ele uma vez; eu estive várias. 


NORDESTE: O senhor se sente traído por ele, pelo PMDB?
Cunha
: Não é questão de se sentir traído ou não traído, eu culpo o governo pela parte do processo de cassação, em função ao apoio a esse candidato, o Rodrigo Maia (DEM/RJ), que se elegeu presidente da Câmara, por essa razão eu culpo o Governo.

NORDESTE: Não há no futuro nenhuma possibilidade de delação de Eduardo Cunha sobre o sistema político e tudo o que aconteceu do ponto de vista de procedimento nos bastidores?
Cunha
: Olha, só delata quem tem crime, então eu não tenho o que delatar. Estou escrevendo um livro sobre o impeachment, posso escrever outros ou não, dependendo das circunstâncias, e eu sempre enfrento minhas coisas de cabeça erguida e de frente, eu não enfrento de lado. Então quanto a esse ponto, não precisa se preocupar.


NORDESTE: Instituições diversas apontam o exercício parlamentar no país hoje como um espaço de plataforma para negócios e até desvios de recursos através de emendas, medidas legislativas. O senhor concorda, ou discorda dessa opinião de instituição?
Cunha
: Eu acho que o conceito é equivocado. É claro que em toda atividade você tem pessoas boas e ruins; bons e maus jornalistas, bons e maus médicos, bons e maus políticos. Nós temos uma deformação no sistema político, principalmente no financiamento de campanha, que precisará ser debatido e resolvido, e que gera muitas das mazelas que vivemos hoje. Então é preciso separar o joio do trigo, mas ao mesmo tempo não dá para generalizar e sair fazendo afirmações dessa natureza.

NORDESTE: O senhor diria então que o Congresso Nacional não é formado também por pessoas que estão próximas da corrupção?
Cunha
: Eu acho que tem pessoas próximas à corrupção dentro do Congresso, com tem dentro do Executivo, tem dentro do Judiciário, dentro de qualquer instituição. Isso não quer dizer que todos esses sejam corruptos; é preciso ter cautela. Separar as pessoas que são coniventes com atos de corrupção das instituições, ou achar que todo sistema político é corrupto. Não dá para generalizar.

NORDESTE: A grande mídia criou uma aura de que o senhor é um líder corrupto. O senhor diz o quê da mídia que lhe conceitua dessa forma?
Cunha
: A rotulação está se dando porque no início tentaram me colocar como chefe do petrolão. Quando todas essas atividades foram realizadas eu era oposição ao governo do PT. É impossível você ser oposição e ao mesmo tempo ter força dentro da máquina do poder público. Quem é corrupto é o PT. Quem é o chefe do petrolão e da corrupção é o governo do PT. Isso está sendo provado a cada dia quando são divulgados novos fatos. Quem usou o dinheiro da corrupção para se eleger foi a Dilma. Quem pagou marqueteiro com dinheiro de caixa 2 do petrolão, foi a Dilma. O tempo vai esclarecer, vai mostrar quem são os verdadeiros corruptos chefes dos esquemas de corrupção que existiam no país com relação ao governo do PT.

NORDESTE: Como o senhor vê por exemplo que as empresas que geraram delações e têm líderes nominalmente da oposição, como Aécio, Serra, inclusive Temer, essas delações não têm a mesma dimensão quando é com o PT. Como o senhor vê esse tratamento midiático e jurídico?
Cunha
: Isso aí é tratamento midiático. Se você tem beneficiário de corrupção, tem que estar na máquina do poder para beneficiar. Não pode querer dizer que a oposição estava na máquina do poder mandando nos negócios do governo para gerar o produto da corrupção. Essa é a diferença fundamental. E é a mesma a qual eu uso para poder me defender. Se eu era oposição ao governo do PT no momento que fui acusado de ter qualquer tipo de gerência em negócios da Petrobrás, como é que eu poderia me beneficiar do produto? Uma coisa são as doações de campanha, que o mesmo dinheiro que doou para o PT doou para a oposição. É verdade, é o mesmo dinheiro. Só que o ganho veio das atividades ilegais feitas pelo governo do PT. E não das atividades ilegais de quem não mandava na corrupção. São circunstâncias diferentes.

NORDESTE: Como o senhor encara o fato de que várias delações indicam que este é um problema do desvio de dinheiro que começou mais para trás, vem antes de Sarney, antes de Fernando Henrique Cardoso. Como é que o senhor encara esse processo de desvios que é uma coisa antiga e não só coisa do PT?
Cunha
: Uma coisa é o processo de desvio, outra coisa são as delações. Eu assisti quatro delatores deporem no processo referente a mim. Eu assisti os quatro mentirem entre si, e assisti os quatro mentirem com suas próprias delações anteriores. Então nós não temos uma indústria de delatores. Nós temos uma indústria de mentirosos, que estão sendo perdoados, desde que as suas declarações atendam aos interesses do processo específico. O que nós estamos vendo é uma indústria de delação de pessoas criminosas que estão se livrando do cumprimento de suas penas por supostamente acusarem outros sem provas. Então é preciso separar o problema das delações, do processo de corrupção, de desvios antigos, existem e vão continuar existindo, que só o tempo, que só as medidas para coibir esses desvios vão poder acabar com isso. Mas isso não necessariamente quer dizer que as delações… tornar público os desvios não significa que por si só conseguirá extinguir os desvios.

NORDESTE: Para concluir, além de fazer os livros que o senhor está anunciando, o que Eduardo Cunha fará a partir de agora, na pós cassação de seu mandato?
Cunha
: Primeiro estou me dedicando ao livro e só depois eu vou buscar outro caminho, se eu não conseguir restabelecer meu mandato pelas vias dos recursos que eu vou ingressar na Justiça. Por isso não tenho ainda condição de dizer qual futuro vou adotar, mas certamente ele não será fora da política.

NORDESTE: E não haverá delação?
Cunha
: Claro que não.

 

 

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