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Brasil

15/12/2014


Empresa lançada no Senado promete lucros de R$ 67 mil

A Câmara Municipal de São Paulo e o Senado Federal foram usados para promover uma empresa que, após atrair milhares de associados com a promessa de lucros e prêmios de até US$ 25 mil (R$ 67 mil) por dia, deixou de pagá-los.

Em 1º de outubro de 2013, o logotipo da Unos Life era projetado no palco do Auditório Petrônio Portela, salão nobre do Senado Federal, e o nome da empresa era gritado da tribuna por Regino Barros, seu sócio e presidente. "Unos!", respondeu efusivamente a plateia, fazendo a letra "u" com as mãos.

O episódio seria relembrado por Barros tempos depois para tentar convencer os associados a continuarem a acreditar no negócio, apesar do bloqueio dos pagamentos a todos os 82.459 cadastrados até então (ele questiona a regularidade de 79 mil desses).

"Hoje, anote na sua agenda, 20 de outubro de 2014, 19 dias depois do nosso lançamento há um ano atrás no Senado Federal, nasce uma Unos", diz. "Uma Unos com couro duro, que aprendeu como funciona esse mercado que o Ministério Público considera clandestino (…). A curtíssimo prazo teremos o crescimento com grande lucro."

Na quinta-feira passada (11), em entrevista ao iG, Barros negou que tenha lançado a Unos dentro do Senado. "A Unos não foi lançada no Senado. O que foi lançado foi o Portal Brasil", diz, referindo-se a um das alegadas fontes de recursos da empresa. "E eu apresentei a Unos como a entidade exclusiva para espalhar o Portal Brasil."

 

Marketing multinível de perfumes, árvores, publicidade e benefícios

A Unos é apresentada como uma empresa de marketing multinível, sistema de varejo em que revendedores autônomos ganham bônus pelas vendas de outros revendedores que levam para a rede, mas que tem sido usado por empresas acusadas de serem pirâmides financeiras – por isso a referência de Barros ao Ministério Público.

No caso da Unos, o marketing multinível, segundo a versão oficial, é usado para comercializar perfumes, árvores, um bloqueador de campo magnético de celular, um cartão de benefícios e publicidade nos sites www.portalbrasil.org.br e www.gobuss.com.

Para aderir, é necesśario pagar uma taxa de US$ 59,90 (R$ 159). Depois, o associado pode comprar produtos ou serviços – hoje, os pacotes mais baratos custam US$ 130 (R$ 346). Esses produtos e serviços, em seguida, seriam revendidos a consumidores finais.

Os associados são atraídos com a promessa de bônus diários de até US$ 25 mil (R$ 67 mil). 

 

Na sexta-feira (12), porém, os únicos anúncios disponíveis no Portal Brasil e no Go Buss eram de negócios ligados à Unos e ao seu proprietário. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), cujo logotipo aparece no Portal Brasil, informou que não tem qualquer parceria com o negócio e que "está estudando as medidas cabíveis em relação ao uso indevido" da marca.

Os contratos das árvores de reflorestemanto também nunca foram entregues, afirma um associado de Minas Gerais que pretende cobrar mais de R$ 500 mil da Unos na Justiça – para ele e para outras 300 pessoas que afirma ter levado para o negócio.

Ele conta sua experiência com a Unos, sob condição de anonimato. "O cara pagava US$ 50 dólares [de taxa de adesão] e tinha de comprar produto ou serviço. Os serviços eram vitrines [para anunciantes] no Portal Brasil ou árvores", diz. "Mas a questão é que as vitrines não entregaram. As árvores, ninguém recebeu."

O associado ressalta que os cartões de benefícios e os produtos de perfumaria, por outro lado, foram efetivamente entregues aos consumidores finais.

"Piramideiros"

Barros atribui as dificuldades da Unos a uma gestão anterior da empresa – da qual ele detinha 50% do capital à época da fundação – e afirma que há uma auditoria em andamento, com conclusão prevista para este mês. Depois disso, será possível retomar os pagamentos.

"Todos os Unos [nome dado aos associados] que estiverem com suas contas legais, seus contratos serão cumpridos na íntegra", afirma.

Segundo Barros, os problemas ocorreram depois que a Unos aceitou receber 79 mil associados da Wings, empresa descrita como "fraude mal disfarçada", segundo uma autoridade norte-americana, e criada por Sérgio Tanaka – denunciado pelo Ministério Público Federal como por envolvimento com a BBom, também acusada de ser pirâmide financeira.

"Estamos pagando o preço de acreditar nas pessoas que neste mercado já eram reconhecidas como negligentes, incompetentes, piramideiras, quadrilheiras", disse Barros no vídeo em que anuncia o bloqueio de pagamentos.

Procurado no início da tarde da quinta-feira (11), Barros não informou, até o fim do dia, quanto do faturamento da Unos decorre de vendas de produtos ou serviços a consumidores finais.

Em nota, a empresa ressaltou que o Plano de Negócios da Unos Life é "perfeitamente sustentável, portanto não se trata de pirâmide, podendo ser atestado por perito matemático econômico-financeiro."

A reportagem não conseguiu contato com Tanaka e com a Wings. A BBom sempre negou irregularidades e não foi condenada definitivamente.

Mercado desconfiado

Numa época em que diversas empresas têm sido acusadas de usar o marketing multinível como fachada para construir pirâmies financeiras – o caso mais emblemático é da Telexfree, que arrecadou US$ 1,2 bilhão no mundo (R$ 3,2 bilhões), segundo autoridades norte-americanas – , a cerimônia no Congresso tornou a Unos mais convincente, contam os associados.

 

"[Investi] pela credibilidade do co-fundador Regino Barros. E [pelo] lançamento da empresa no Senado Federal", diz um associado do Estado de São Paulo que colocou cerca de R$ 17 mil e esperava receber R$ 36 mil em um ano.

Outro morador do Estado, que aplicou por volta de R$ 5 mil, afirma que a imagem do Senado era usada para atrair mais gente para a Unos.

"[Dizer]: '[A empresa] foi lançada diante de 7 mil empresários, no auditório Petrônio Portela em Brasília' dá um peso grande."

Honrarias e negócios

Empresarial de São Paulo (Cicesp), mantenedor da Associação Brasileira de Honrarias ao Mérito, que tem a finalidade de fazer homenagens a empresários, políticos e artistas. É no nome dessa entidade que o dono da Unos obteve a autorização para usar os auditórios no Senado e na Câmara Municipal de São Paulo e, assim, promover a Unos.

O evento em que a Unos foi lançada no Congresso foi registrado formalmente como uma homenagem ao ex-presidente Juscelino Kubitschek, segundo o Senado.

Barros obteve a autorização por meio do senador Cícero Lucena (PSDB-PB), responsável por fazer a solicitação à primeira secretaria do Senado, que libera o uso do Petrônio Portella. O órgão é comandado por Flexa Ribeiro (PSDB-PA).

Procurado no fim da tarde de sexta-feira (12), Lucena afirmou não se lembrar da empresa ou de Barros, e que levantaria informações até a próxima segunda-feira (15).

"Estou tranquilo em relação a isso", disse Lucena. "Com certeza foi algum argumento sobre homenagem a JK que eu não me preocupei. A gente assina tanto pedido de homenagem."

Ribeiro diz não ter informações sobre a Unos. "Eu desconheço o lançamento dessa empresa."

 

Regino Barros regularmente obtém essas autorizações – foram quatro, obtidas por meio de quatro senadores diferentes, desde 2011. Em maio deste ano, conseguiu novo aval – posteriormente cancelado – via Lucena. O dono da Unos pretendia fazer uma homenagem a Sanderley Rodrigues, considerado líder mundial da Telexfree.

O gabinete de Lucena alegou, à época, que não sabia da presença de Rodrigues no evento e a concessão da honaria dentro do Senado foi cancelada após contato da reportagem. Rodrigues, então, posou para fotos com a medalha do lado de fora do Senado.

Nos últimos meses, o dono da Unos também tem circulado no Congresso por outro motivo: conseguir a aprovação de um projeto de lei sobre marketing multinível que, para alguns analistas, pode abrir brechas para livrar golpistas de punição.

A reportagem enviou e-mail para Rodrigues na quinta-feira (11), mas não recebeu resposta. A Telexfree sempre negou irregularidades e não foi condenada definitivamente.

Empresa não informou que faria evento, diz vereador

Em 25 de setembro, já sem pagar associados, a Unos deu posse ao que Barros chamou de "Conselho Superior", formado por alguns de seus grandes líderes – pessoas que se destacam na atração de mais gente para o negócio. O local escolhido foi a Câmara Muncipal de São Paulo.

 

Na capital paulista, a estratégia foi a mesma usada em Brasília: a Associação Brasileira de Honrarias ao Mérito solicitou o salão nobre do Palácio Anchieta, sede do legislativo municipal, para conceder uma honraria ao vereador Coronel Telhada (PSDB) no dia 25 de setembro.

 

O salão nobre foi usado para a concessão de diplomas aos líderes da Unos aparentemente após a homenagem ao vereador. A cerimônia passou, então, a fazer parte do discurso de Barros para convencer as pessoas a acreditarem na empresa.

"O seu Conselho Superior, conselho que recebeu posse no salão nobre do Palácio do Ancheita, passa a estar à frente do corporativo. Passa a compartilhar o comando dessa nova organização. É o seu líder que está junto conosco", diz Barros em um vídeo.

Procurados pelo iG, dois desses supostos conselheiros se isentaram de responsabilidades. Eles também pediram anonimato.

"Não assinei nenhum tipo de documento para me tornar conselheiro da Unos. Apenas participamos de um evento festivo na Câmara Municipal. Ou seja, nunca tive participação alguma nas decisões administrativas da empresa", afirmou um desses conselheiros. "Sou mais um lesado em tudo isso."

O gabinete de Telhada informou que o vereador deixou o local logo após receber a condecoração, que não sabia do uso do salão nobre para um evento da Unos e que pode adotar providências contra a associação.

(Do iG)

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