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Brasil

29/11/2013


Empresas não se arriscam em leilão de gás

PRECAUÇÃO

A indústria não correspondeu ao chamado da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para buscar reservas em áreas ainda pouco exploradas no Brasil. Das cinco bacias de novas fronteiras exploratórias oferecidas na 12ª Rodada de Licitações, realizada quinta-feira, apenas na Bacia do Paraná teve concorrência. Três áreas menos conhecidas – no Acre, no sul da Bahia e no Mato Grosso – não tiveram disputa. Foram arrematados apenas 72 dos 240 blocos oferecidos no leilão mais rápido da história das rodadas de concessão de petróleo e gás no país. Ao todo, a ANP arrecadou R$ 165,2 milhões.

Para especialistas, a falta de infraestrutura e a distância dos principais mercados consumidores são as razões da pouca procura. "O mercado de gás difere do mercado de petróleo porque demanda infraestrutura de escoamento. Quanto mais perto do mercado consumidor, melhor", explica o geólogo John Forman, ex-diretor da ANP. Por isso, diz ele, a Bacia do Paraná, mesmo sendo nova fronteira, teve 16 dos 19 blocos arrematados. "Está praticamente dentro do mercado", comenta o especialista. A região já teve pequenas descobertas de gás, mas nunca se viabilizou como polo produtor.

Dificuldades de escoamento estão na raiz dos problemas da novata HRT, por exemplo. A empresa tem descobertas na Bacia do Solimões, no Amazonas, mas não consegue levar o gás ao mercado consumidor. Sem gerar receita, a companhia passa por um processo de reestruturação, com venda de ativos e redução da estrutura operacional. Além disso, o pouco conhecimento das áreas pesou na estratégia das empresas, avalia o advogado Pedro Dittrich, sócio responsável pela área de Petróleo do escritório Tozzini Freire. "Acredito que as empresas tenham avaliado que é muito cedo para apostar nessas áreas, onde ainda há poucas informações geológicas", diz ele.

Agendado para dois dias, o leilão durou apenas uma manhã. A diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, disse, ao fim do evento, que o objetivo era "semear a cultura do gás no Brasil", e reconheceu que a falta de informações pesou no resultado. Uma das principais motivações da rodada era ampliar o conhecimento do subsolo em bacias ainda sem atividade. No Acre, apenas um dos nove blocos oferecidos foi arrematado – o comprador foi a Petrobras, em lance único com o preço mínimo. Parecis, no Mato Grosso, e São Francisco, apontados como áreas com potencial para reservas não convencionais, como o gás de xisto, não tiveram lances. A porção norte da Bacia de São Francisco, onde a ANP perfurou um poço seco pouco antes da rodada, deve ficar de fora de novos leilões.

"Entendo que precisamos fazer mais exploração, no Plano Plurianual de Geologia e Geofísica", afirmou Magda, referindo-se ao programa de investigação das bacias petrolíferas tocado pela própria ANP. No ano que vem, um novo poço será perfurado na Bacia do Parecis com esse objetivo. Com mais informação, diz ela, a área pode ganhar atratividade. "A Bacia do Paraná foi oferecida em 2008 e não teve oferta vencedora. Cinco anos depois, veja o interesse que ela atraiu", argumentou. A região esteve no foco da frustrada experiência da Paulipetro, petroleira criada por Paulo Maluf no início dos anos 1980, hoje alvo de ações por mau uso do dinheiro público.

A Bacia do Parnaíba, outra nova fronteira, teve apenas um bloco arrematado entre 32 oferecidos. Na área, que se estende entre o Maranhão e o Piauí, a Eneva (ex-MPX) e a OGX, de Eike Batista, iniciaram um projeto de geração de energia a partir do campo de gás de Gavião Real, modelo conhecido como gas by wire (gás pelo fio), apontado como solução de escoamento para regiões que não têm gasodutos. A bacia teve grande disputa na 11ª Rodada de Licitações, realizada em maio.

Na outra ponta, as bacias maduras oferecidas no leilão de quinta-feira tiveram competição acirrada. No Recôncavo Baiano, quarto maior produtor brasileiro de petróleo e gás, 30 das 50 áreas foram arrematadas. Na Bacia de Sergipe-Alagoas, sexto maior produtor, foram 24 áreas em 56 ofertadas. As duas regiões convivem com a atividade petrolífera há décadas e contam com fornecedores de serviços e infraestrutura de escoamento da produção.

Para driblar as dificuldades logísticas, a maior parte das empresas de pequeno porte entrou no leilão em parceria com a Petrobras, a principal vencedora do dia com participação em 49 dos 72 blocos arrematados. "Pouca gente decidiu apostar sozinha. É uma forma de diluir o risco", avalia Dittrich. Além da reconhecida capacidade exploratória, a estatal controla a malha brasileira de gasodutos e tem participação em 19 distribuidoras estaduais de gás canalizado.

Segundo a ANP, o leilão vai garantir um investimento mínimo de R$ 500 milhões na exploração dos blocos concedidos. A disputa, que teve apenas 12 empresas, marcou a estreia da companhia francesa de energia GDF Suez, que arrematou seis blocos no Recôncavo, e o surgimento de uma petroleira brasileira, a Nova Petróleo. Para o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia (MME), Márcio Zimmermann, o amadurecimento da lei do gás – que propõe a desverticalização dos investimentos em transporte – e a expansão do sistema de transmissão de energia são suficientes para justificar investimentos na produção de gás natural.

A indústria, porém, ainda vê necessidade de avanços regulatórios e desverticalização. "A falta de definição de uma política pública para o insumo dificulta a atração de produtores", diz o coordenador do Projeto +Gás Brasil, Paulo Pedrosa.

RESULTADO

R$ 165 mi: Bônus de assinatura pago pelo conjunto das empresas vencedoras na concorrência, em 72 blocos arrematados.

322,89%: Ágio alcançado, comparando o total pago pelas empresas e os valores mínimos determinados pela ANP para cada área.

72,61%: Percentual médio de aquisições interna na fase de exploração. Na de desenvolvimento, a média é de 84,47%.

Novatas marcam presença na concorrência

Em crise, as petroleiras OGX, de Eike Batista, e HRT são a ponta mais visível de um fenômeno que vem se intensificando nos últimos anos: a abertura de pequenas empresas de exploração e produção de petróleo no Brasil. Na 12ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), realizada quinta-feira, metade das empresas participantes se enquadram neste perfil. A caçula delas, a Nova Petróleo, foi uma das protagonistas da disputa, ao participar de quatro ofertas vencedoras em parceria com a Petrobras na Bacia de Sergipe-Alagoas.

O leilão marcou a estreia da Nova Petróleo, que já inicia suas atividades como operadora. A empresa é comandada por três executivos com experiência em companhias internacionais e na Petrobras: Ricardo Mucci, Murilo Marroquim e Paulus H. Van Der Ven. Como a maior parte das pequenas petroleiras surgidas após o fim do monopólio, ela dá seus primeiros passos com blocos em terra, que exigem menores investimentos e têm risco mais baixo do que as operações marítimas.

Outra empresa novata com grande participação foi a Ouro Preto, criada pelo engenheiro Rodolfo Landim, que foi braço-direito de Eike na montagem da OGX e hoje é desafeto do empresário. A companhia arrematou sete blocos exploratórios na Bacia do Recôncavo, ampliando seu portfólio, que tinha apenas três concessões da 11ª Rodada de Licitações, realizada em maio deste ano. "Escolhemos ficar onde já existe infraestrutura, perto de estradas e com facilidade para entregar óleo e gás", afirmou Landim, reforçando as preocupações com relação ao risco de exploração em áreas mais distantes.

Dentre as pequenas empresas não tão novatas, a pernambucana Petra, mais uma vez, teve destaque pela quantidade de blocos arrematados. A empresa foi a única a se apresentar como operadora na nova fronteira do Paraná. O leilão contou ainda com a participação da empresa de energia paranaense Copel, que quer incentivar a busca de gás natural no estado.

iG Economia

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