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Brasil

12/04/2017


Entenda como o Brasil e o mundo se beneficiaram de uma mentalidade escravocrata

Entrevista exclusiva

Uma Mentalidade Escravocrata

O estudioso em História (doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e com pós-doutorado pela Unifesp e Harvard), Tâmis Peixoto Parron, ao longo de sua história, resolveu estudar a escravidão dos negros. A intenção era traçar um linha de entendimento de como esses e outros processos históricos do século 19 desaguaram na formação do mundo contemporâneo como o conhecemos hoje. Com graduação também em jornalismo, para o seu estudo Tâmis fez análises de discurso, política e economia política no campo da história comparada global. Atualmente escreve uma história global da ascensão e queda das principais sociedades escravistas do século 19, Estados Unidos, Brasil e Cuba. Também analisa o imperialismo do Atlântico Norte e a integração dos mercados de commodities como forças multilineares globais que alimentaram a expansão e a crise da escravidão negra nas Américas ao redesenhar a geopolítica do sistema mundial oitocentista. O professor também desempenha atividades editoriais, coordenando a coleção Narrativas da Escravidão (editora Hedra), com início de publicação previsto para o fim de 2017. No segundo semestre de 2017 irá assumir a posição de professor de História do Brasil na Universidade Federal Fluminense. A tese de mestrado “A política da escravidão no Império do Brasil”, recebeu o Prêmio Jabuti 2012 na categoria Ciências Humanas. Já a tese de doutorado “A política da escravidão na Era da liberdade: Estados Unidos, Cuba e Brasil, 1787-1846”, ganhou o Prêmio Tese Destaque da USP e o Prêmio Capes de Tese em História, ambos de 2016. Na entrevista que segue Tâmis explica como fez a pesquisa e detalha qual a contribuição da escravidão e sua mentalidade no mundo atual.   

 

Tâmis Parron, em foto de vídeo que se tornou viral na internet.

Revista NORDESTE: O senhor pesquisou e escreveu uma tese sobre a escravidão. Qual foi o foco de sua pesquisa e como ela foi feita?

Tâmis Peixoto Parron: Por favor, pode me tratar por você. Sou teimosamente apaixonado por grandes questões históricas. Lembro que, na sexta série, queria entender por que o Império Romano do Ben-Hur acabou ou, inversamente, por que os Estados Unidos mandavam no mundo a ponto de minha mãe me obrigar a aprender inglês. Na faculdade não foi diferente: a ascensão do capitalismo, a Revolução Industrial e a praga dos Estados nacionais pareciam grandes espectros verbais que poucos tinham coragem ou vontade de encarar, mas que me encantavam. Minha pesquisa paga tributo a esse vício maníaco por grandes questões, que alguns professores meus na USP souberam alimentar com um misto de sabedoria e sadismo (risos). O que quero entender é tão simples de formular como difícil de resolver: quais foram as condições globais que fizeram do século 19 o século do auge e do colapso da escravidão negra nas Américas.
Os Estados Unidos, Brasil e Cuba foram os três grandes players que apostaram na expansão do escravismo no século 19. Para triunfar em seus projetos, empresários e políticos daqueles lugares tiveram de sufocar os adversários mais diversos, desde os escravizados até os abolicionistas. Os pesquisadores costumam contar essa história isolando-a em espaços nacionais. Mas esse recorte não faz sentido. A escravidão nas Américas era, mal comparando, como o agronegócio industrial que conhecemos hoje: ligava-se às cadeias globais de bens e capital, buscava apoio do Estado para brutalizar os movimentos de resistência social e precisava da tolerância internacional com suas barbaridades. Dá para fazer a história da Cargill ignorando a ordem global que a oxigena a cada segundo? Os grandes pulhas não existem isolados. Eles invadem nossa vida por todos os flancos, e a gente só entende sua movimentação usando uma grande angular.

NORDESTE: Qual era a realidade mundial e brasileira no século XIX em relação à escravidão?
Tâmis Parron:
O século 19 tinha um motor de arranque, a Grã-Bretanha. Ela era na época o que é a combinação dos Estados Unidos e da China no mundo contemporâneo. Ignore esses dois países, e você não consegue nem explicar a abertura de uma escolinha de inglês em Guaxupé ou os brindes de festa junina em Santa Rita do Passa Quatro. No fim do século 18 a Grã-Bretanha passou por uma revolução industrial, com epicentro no setor das fábricas de artigos de algodão. As mudanças sociais que a Revolução Industrial produziu foram profundamente sentidas na composição demográfica e nos padrões de consumo alimentares britânicos. A ingestão maciça de bebidas estimulantes (cafeína obtida com o chá preto) e fontes calóricas de rápida absorção metabólica (açúcar) entrou na dieta de todas as classes sociais. Agora veja bem. Se em 1830 a Inglaterra tentasse ser autossuficiente, ela teria de substituir as calorias do açúcar por trigo e a fibra do algodão por lã; para produzir o equivalente ao algodão e açúcar que consumia, teria de ocupar 80% de seu território só com ovelha e trigo. A Inglaterra ia virar um grande presépio! Em vez disso, fincou as colunas da Revolução Industrial sobre o pedestal da escravidão negra nas Américas.
No Brasil a escravidão era ainda mais central. Ela produzia todos os artigos de exportação do país, fornecia a base fiscal do Estado, fechava o orçamento das faculdades de direito e medicina, e o tráfico negreiro foi a máquina perversa de povoamento do país até 1850. O principal produto agrícola do Brasil no século 19 foi o café. Ele era pouco consumido na Grã-Bretanha, mas desempenhou o papel do chá inglês nos países em industrialização na Europa continental e nos Estados Unidos.

NORDESTE: Você pode descrever o que vem a ser o conceito de sistema mundial, utilizado na pesquisa?
Tâmis Parron:
Os sacerdotes da FGV, do Insper e da Harvard Business School parecem os sabichões que repetiam Aristóteles contra Galileu no século 17 insistindo, contra toda evidência, que o sol gira em torno da terra, e não a terra em torno do sol. Acham que o mercado, o livre comércio, as trocas são o sol em torno do qual a política se move. Isso é mito. Não afirmo o contrário, que a política é que é o centro, simplesmente botando o mito de ponta cabeça. Entendo que economia e política formam um todo inseparável, uno e indivisível no capitalismo histórico (esse sistema que vem destruindo o mundo desde o século 16), e o conceito de sistema mundial ajuda a entender isso. O sistema mundial capitalista é, ao mesmo tempo, um circuito de trocas que se organiza como sistema econômico internacional via Estados e um conjunto de Estados que se organiza como sistema político interestatal via circuitos de trocas. Assim, quando você fala de uma medida “econômica”, você sabe que ela é política. Quando você fala em decisão “política”, sabe que ela é econômica. O conceito é fundamental para entender a escravidão como instituição político-econômico-nacional-internacional. Assim mesmo, horrorosamente cheia de hífens.

NORDESTE: Você afirma que existia um sub-sistema entre EUA, Brasil e Antilhas no século XVIII, como era esse sub-sistema?
Tâmis Parron:
Brasil, Cuba e Estados Unidos lutaram contra a ação de atores antiescravistas domésticos (escravos, antiescravistas, abolicionistas) e contra o abolicionismo britânico. Seus sistemas políticos eram estressados. Eles precisavam cercear direitos individuais num mundo organizado por direitos individuais, cassar a palavra a oradores num mundo constitucional e manter o status colonial (em Cuba) numa América descolonizada. Se existisse em apenas um país, esse sistema se isolaria na comunidade internacional e caducaria por impopular. Noutras palavras, a política da escravidão exigia uma rede internacional de políticas da escravidão que aumentasse o poder dos escravistas de cada arena. Se os órgãos multilaterais de hoje existissem no século 19, talvez os escravistas da época se coligassem dentro deles ou fariam uma Organização Mundial dos Escravistas Unidos (UMEU) (risos). Esse não foi o caso. Nas condições da época, Brasil, Estados Unidos e Cuba se tornaram parceiros adensando suas relações comerciais, o que criou melhor consciência recíproca entre eles. Essa consciência, materialmente baseada no comércio internacional, foi o substrato ideológico que justificava a escravidão: se o monstro existe lá (digamos, Estados Unidos), então porque não pode existir aqui (Brasil)? Você sabe, o mal, quando coletivo, é pecadilho. O nazista sozinho é louco. Uma nação nazista é apenas equivocada.


NORDESTE: Quais eram os interesses em jogo para manter a escravidão no Brasil e nas Antilhas?
Tâmis Parron:
Os interesses na defesa da escravidão do século 19 eram os mesmos que hoje existem para manter a indústria do petróleo ou o sistema financeiro internacional: encher a burra de dinheiro da minoria e ainda dizer que a regra do jogo não podia ser diferente porque o Estado e a ordem social dependiam dos empresários e fazendeiros.

NORDESTE: É muito difundido o papel da Inglaterra para impedir a expansão da escravatura, a sua pesquisa aponta que o país também contribuiu para que ela continuasse, por quê?
Tâmis Parron:
Acho que minha resposta à sua pergunta sobre a realidade mundial da escravidão também responde a esta pergunta. Se você quiser, supersimplifico a realidade com um encadeamento perversamente real: a Inglaterra compra algodão dos EUA, com esse dinheiro os EUA compram açúcar de Cuba e café do Brasil, com esse dinheiro cubanos e brasileiros compram livros na Europa e africanos escravizados do Benin a Benguela e Moçambique. Se vale a metáfora, siga a morte e a vida de um pedaço de pano de Liverpool que você descobre todo o ciclo do horror.

NORDESTE: Os EUA tiveram papel relevante na manutenção da escravidão no mundo? Até quando e por quê?
Tâmis Parron:
Sim. Os Estados Unidos têm uma capacidade institucional assustadora de criar imagens despudoradamente congratulatórias de si mesmos. É uma usina de mitos. Pior. Eles têm poder simbólico e material para fazer o mundo acreditar nos seus mitos. Tudo o que o país unge o mundo abençoa. Enquanto a escravidão existiu nos Estados Unidos, a Europa se sentiu tentada a acreditar na defesa norte-americana da escravidão, segundo a qual o cativeiro era uma instituição bem ajustada a negros tidos como irremediavelmente bárbaros que, se fossem soltos, canibalizariam os brancos. O mito (norte-americano) e a vontade de acreditar no mito (europeia) dava uma estabilidade estrutural gigantesca à escravidão no Brasil e em Cuba. Ainda bem que os Estados Unidos não inventaram o nazismo! Já imaginou? Pelo contrário. O nazismo é que se alimentou da segregação racial norte-americana e de sua usinagem de mitos.

NORDESTE: Por que a escravidão auxiliou na construção do estado moderno como o conhecemos hoje?
Tâmis Parron:
Comecemos pelo elementar: Thomas Jefferson é quem primeiro declarou que os direitos inalienáveis dos homens era uma verdade autoevidente – o que é, aliás, absurdo, pois se a verdade é autoevidente você não precisa declará-la. Ele era um escravista da Virgínia – como pode um escravista dizer que os homens possuem direitos inalienáveis como a liberdade e a felicidade? Passemos para o ponto de vista estrutural: as 13 colônias da América Continental Britânica só se desenvolveram a ponto de se separar da Inglaterra e fundar um regime constitucional porque as do Sul (da Virgínia e Maryland para baixo) exploravam o trabalho escravo e as do Norte (da Pensilvânia para cima) ganhavam dinheiro no Caribe, onde as riquezas eram produzidas por trabalho escravo. Sem escravidão, portanto, nada de independência americana. Sem independência americana, nada de Estado moderno como o conhecemos hoje. A liberdade do mundo contemporâneo está calcada, em sua origem, sobre a escravização dos negros. 

NORDESTE: É possível dizer quantos escravos foram traficados para fora da África, quantos ficaram no Brasil, de onde vinham e em que estados ou regiões eles ficaram?
Tâmis Parron:
De 1492 a 1865, da descoberta europeia das Américas ao fim do tráfico negreiro para o continente, cerca de doze milhões e quinhentos mil africanos escravizados foram exportados da África. Desse dilúvio humano, quase seis milhões foram destinados ao Brasil. O resto do tráfico negreiro se concentrou nas ilhas caribenhas. Para os Estados Unidos foram 470 mil africanos; ali a escravidão se expandiu baseada sobretudo em altas taxas de crescimento vegetativo. Isso significa que o Brasil foi o único país da América continental em que o motor de povoamento não foi a imigração europeia (Estados Unidos ou Canadá) nem comunidades indígenas (América Hispânica), mas sim o tráfico negreiro. Não é à toa que o conceito de mestiço inexiste em inglês, significa filho de índio e branco na América Hispânica e evoca a imagem do mulato em português. Os principais sugadouros de africanos foram os portos de Salvador, que os redistribuía no Norte do país, e o do Rio de Janeiro, que irrigava de escravos Minas Gerais, São Paulo e além. Gostamos de dizer que o Brasil foi colonizado por Portugal. A frase induz ao erro. Até 1850 o Brasil não era um país português. Era um país africano. Para cada português vindo para cá desembarcavam 6 africanos escravizados. 

NORDESTE: Qual era a realidade dos escravos, isto é, como eles viviam na época?
Tâmis Parron:
As experiências humanas na escravidão eram tão diversas quantos os indivíduos que as viveram. Mas dá para generalizar. A escravidão é um sistema social que supõe a desonra do escravizado e sua sujeição à violência física. Nas Américas, o humano desonrado e violentável ainda era colateral, podia ser usado como hipoteca. Se mulher, você está perenemente em situação de risco de estupro ou tortura. Se homem, de tortura. Se criança, de ver a mãe ou o pai vendidos da noite para o dia. Toda essa violência explícita tinha uma contrapartida implícita: nenhum escravo consentia por completo com sua própria escravização – fiz uma parceria com a editora Hedra e vamos lançar em breve uma coleção de narrativas escritas por ex-escravos para mostrar aos brasileiros o que significa ser escravo no capitalismo. O sistema todo era montado contra a vontade dos subalternos. Daí sua crueza. Daí, também, a necessidade de existir em rede, conectando Brasil, Cuba e Estados Unidos. De novo, quanto mais coletiva a barbárie, tanto mais pia, desculpável e controlável ela é. 


NORDESTE: O senhor fala que de 1834 a 1850 o Brasil cometeu o seu primeiro crime em massa da história, por quê?
Tâmis Parron:
O Brasil tinha aprovado uma lei nacional proibindo o tráfico negreiro transatlântico e declarando livres os africanos introduzidos dali por diante. Essa lei é de 7 de novembro de 1831. Por alguns anos, os capitalistas brasileiros tiveram medo dela, e o tráfico negreiro ficou em baixa. Porém, a expansão do mercado mundial de café, ligada à expansão do capitalismo industrial no Atlântico Norte, estimulou empresários e fazendeiros a reabrirem o tráfico apesar da lei. Eles contrabandearam mais de 700 mil africanos escravizados. Ora, escravo ouve, fala, vê e se revolta. Como essas 700 mil pessoas foram mantidas na escravidão ao arrepio da lei? Simples: porque todas as instâncias de poder do Estado brasileiro, do tribunal dos cafundós ao Senado imperial, concordaram em suspender a lei de 1831. Foi um crime hediondo cometido pela sociedade e pelo Estado. Quem diz que o Brasil não deve adotar política de reparação histórica pelos negros porque os negros se escravizavam a si mesmos na África ou é ignorante ou é mistificador. Se engana porque está enganado, precisa voltar à escola. Se engana porque quer enganar, precisa ir para a cadeia. 

NORDESTE: O que levou de fato ao fim da escravidão nas Américas?
Tâmis Parron:
Essa questão é complexa. Não existe um fator isolado que explique o fim da escravidão nas Américas. O que posso dizer, por enquanto, é que o mesmo livre mercado mediado por conflitos interestatais que tinha levado à ascensão do escravismo na primeira metade do século 19 acabou por induzir à sua queda na segunda metade do século. Fatores como nova divisão internacional do trabalho e novas fronteiras da mercadoria ajudam a explicar a crise da escravidão nas Américas, que começou como crise geopolítica (na década de 1850), evoluiu para uma crise social (fim do cativeiro primeiro nos EUA, depois em Cuba e no Brasil) e terminou com crise política (segregação nos Estados Unidos, golpe republicano no Brasil, independência na ilha de Cuba). A sequência cronológica, apesar de haver sobreposição, é essa: rearranjo da economia mundial, crise geopolítica, conflito social e autoritarismo político.

NORDESTE: Como ficaram os escravos após a abolição no Brasil, em relação a direitos, deveres e forma de vida?
Tâmis Parron:
Escravidão, além de desonra, violência e comodificação do ser humano, significa controle virtualmente absoluto sobre o tempo e a mobilidade dos escravizados. Todo ex-escravo entende muito bem a brutal exploração que significa trabalhar para outros e, por isso, busca a autossubsistência quando se liberta. A autossubsistência é uma pequena revolução russa no coração do capitalismo, pois inibe a formação do mercado de trabalho e limita a demanda por bens e serviços numa dada economia. Em miúdos: a escravidão é capitalista, a experiência do escravizado é anticapitalista. O ex-escravo rejeita a exploração do trabalho, o branco acha que ele rejeita o trabalho. O racismo então, endêmico na escravidão porém contido por causa da exploração dos escravos, se torna virulento depois dela por causa da resistência dos ex-escravos à exploração de seu trabalho. Esse conflito social mais o racismo explicam por que todas as sociedades escravistas das Américas marginalizaram os negros incorporando massivamente outros tipos de trabalhadores a seus processos produtivos por salários aviltantes. A abolição costuma ser associada à metáfora da aurora. Na experiência histórica, porém, o sol da liberdade jamais amanhece por completo para os libertados. 

NORDESTE: Vivemos hoje no Brasil a flexibilização de leis de trabalho e muitas críticas em relação a isso. A historiadora Laura de Mello e Souza afirmou recentemente em entrevista a NORDESTE que hoje ainda existe um pensamento que vigorava na época de Tiradentes, de espoliar o país e gastar o dinheiro no exterior. O senhor pode pontuar, tomando por base sua tese, qual era o pensamento daquela época que auxiliou na manutenção da escravidão. É possível dizer se esse pensamento ainda existe hoje no país? 
Tâmis Parron:
Sim! Vejo muitos legados da escravidão reatualizados pelos que acham que vivem do lado de cá do chicote (o do cabo). Um é a crença de que os empregadores brasileiros (escravistas ou não) são generosos e, portanto, prescindem da mediação do Estado nas relações entre eles e seus empregados. A soberania absoluta do empregador é um traço de longa duração no pensamento conservador brasileiro que une as duas pontas do nosso passado escravista e do nosso presente liberal. O segundo legado também é pavoroso. Veja bem: a escravidão é um sistema em que você explora o trabalho à revelia do trabalhador e torna seres humanos fatores produtivos móveis, realocáveis de um lugar para outro conforme o exercício da violência. Isso significa que você não precisa do Estado como espaço para a criação de estímulos positivos à organização da vida social – por estímulos positivo entendo a abertura de boas escolas gratuitas primárias, o parcelamento de terras para o mercado minifundiário, habitações populares dignas etc. Na escravidão, a violência dá conta da organização da vida social, e os escravistas se habituam a ver o Estado como espaço de violência contra os miseráveis e de pilhagem para o autoenriquecimento. Não à toa o brasileiro ideal paga feliz o imposto que vira truculência policial e chora o imposto que vira bolsa-família. A falta de criatividade democrática para usar o Estado numa organização da vida social baseada em estímulos positivos é o principal legado escravista alojado na cabeça de nossos melhores políticos e empresários. Esse vírus também ataca professores universitários e nossa elite intelectual.
 

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