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Brasil

03/03/2016


Especialista vê aumento do desemprego com advento de “Robô Sapiens”, entenda

Na Revista NORDESTE

Por Pedro Callado

Até o ano de 2020, cerca de 55% dos empregos existentes hoje no mundo serão extintos. A afirmação surgiu de um estudo do Governo dos Estados Unidos. A Revista NORDESTE conversou com o professor de cultura digital na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e especialista em “robô sapiens” e inovação radical pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT), Gil Giardelli, para entender melhor como e porque isso está acontecendo. Além de debater sobre empregos tecnológicos, Giardelli fala também sobre Inteligência Artificial e robôs, que tem um papel crucial na mudança de empregos em todo o mundo.

Revista NORDESTE: Até 2020, 55% dos empregos existentes estarão extintos. Por que está transformação está acontecendo na sociedade?

Gil Giardelli: Na verdade isto é pensado desde a década de 30 por alguns economistas, que já falavam de empregos tecnológicos. Alguns desses empregos estão sendo trocados… Por exemplo, onde antes havia um cobrador de ônibus, agora há desemprego, onde eram empregos mais manuais, estão sendo trocados por máquinas, computadores, processamento. O trabalho repetitivo vai sendo trocado. Aconteceu já com artesões, agricultores e agora começa a entrar no varejo. As máquinas ficam mais rápidas, mas ainda não conseguem ter um pensamento complexo como o do ser humano, então o desemprego tecnológico não atinge aquele que faz um trabalho muito elaborado, porque ainda é preciso desse pensamento complexo. Agora o trabalho que é muito repetitivo, como do vendedor de loja, corre riscos, ou como por exemplo o de gerente de banco. Em São Paulo, por exemplo, tem metrô que não tem mais o maquinista, ele fica em uma sala atrás de computadores e não precisa estar dentro do trem.

NORDESTE: Existe também uma mudança na forma de emprego? Como falam que existe na economia criativa ou colaborativa?
Giardelli: Muito provavelmente as próximas gerações quando vierem, quando verem como a gente trabalhava nos dias de hoje, nessa coisa do espaço concreto, da hora cronometrada, de trabalhar pelo salário, tudo isso é algo que já está começando a ser muito repensado e aos poucos substituindo pela economia circular, por essa economia colaborativa com profissionais que vão trabalhar em projetos. O advento da tecnologia dos smartphones, eles têm hoje a possibilidade de estar trabalhando em equipe, você no seu estado, eu aqui, você pode estar trabalhando com uma pessoa da Itália. Em fevereiro pesquisadores conseguiram provar a teoria de Einstein, era um grupo de 80 cientistas em diversos países. As barreiras caíram, você não fica mais preso aquele trabalho regional. O trabalho de cortar grama, que é mais braçal, vai ficar para as máquinas. O bom disso, é que vamos ter trabalhos com mais pensamentos estratégicos, o ruim disso é que a maioria da população do mundo, ainda mais no Brasil, não está preparada para isso. Saiu uma pesquisa recentemente que diz que quase 80% dos nossos alunos de ensino fundamental não sabem fazer somas complexas no ensino básico, isso é um problema para a sociedade.

NORDESTE: O futuro do jornalismo está ameaçado?
Giardelli: Eu não acredito que o jornalismo vai acabar, mas acho que vai mudar radicalmente. Por exemplo, hoje já tem alguns jornais grandes do mundo como Washington Post e o New York Times, que já tem um cargo de data jornalista. Ele é um jornalista que sabe fazer apuração, sabe ir atrás da matéria, é um repórter, mas ele é também um assessor que sabe programar máquinas, para que essas máquinas possam por exemplo, saber quem ganhou a eleição no Brasil. Quem vai dar isso em milésimos de segundos. Agora, vai sobrar mais tempo para analisar porque aquela pessoa ganhou a eleição. Então o que está acontecendo nesse momento? Lá atrás, nós separamos as carreiras, então, o jornalista era um grande profissional na área de humanas, ele entendia bastante de história, de línguas, de geografia e entendia pouco de matemática, de ciências exatas, e agora a gente vê que precisa também ter um olhar sobre as ciências exatas. E o contrário também é dessa forma: os melhores criativos na área de tecnologia são profissionais também que conseguem ter um lado humano. A Apple, por exemplo. Porque que o Steve Jobs hoje está em todos os panteões, digamos assim? Porque colocou a empresa onde ela está, porque ele conseguiu unir tecnologia com design, com beleza. Então quando você mistura isso faz com que as pessoas fiquem felizes. Não dá mais para ter uma escola onde a pessoa será boa apenas em ciências humanas ou só em ciências exatas. Voltamos àquele profissional lá do século 19, que tinha uma visão de tudo até começar a se especializar em algo, mas ele tinha uma visão humanista e uma visão exata.

NORDESTE: Seria certo dizer que estamos prestes a viver uma nova revolução, como a Revolução Industrial, que levou a humanidade a um novo patamar. Agora vamos para uma outra revolução, a tecnológica, e para um outro patamar?
Giardelli: Na verdade, no último encontro econômico em Davos, agora em janeiro, o tema era a 4ª revolução industrial, a era dos majors, que é a era dos fazedores. Então com o advento de impressoras 3D, com o advento de tecnologias barateando, que você pode fazer pesquisas para curar o câncer usando memórias de celulares que estão sendo utilizados naquele momento. Antes fazer pesquisa era muito caro e hoje isso barateou. E aí, produzir era muito caro. Então, quando você começa a ter a ascensão da impressora 3D e de outras tecnologias, isso faz com que você comece a ter uma revolução industrial. O que a gente tem de um conceito de mundo hoje? Quase todas as palavras que a gente vive nessa sociedade foram criadas entre a revolução francesa e a revolução industrial. Jornalismo, direita, esquerda, economia, partidos, sindicato, trabalho, são palavras que criaram muita força e muito significado, entre essas duas revoluções e agora os especialistas diriam que a gente vive uma nova revolução.

NORDESTE: Essa nova revolução vai trazer desemprego e junto disso uma necessidade maior de especialização?
Giardelli: Já trouxe um grande desemprego, a questão é que está sobrando emprego para quem é muito especializado. Por exemplo, os Estados Unidos declarou agora no começo da semana qual será seu investimento para 2017. Eles aumentaram em 33% o investimento em educação de alto impacto, que significa a educação de doutores e mestres, e grande parte desse valor que foi aumentado foi para formar data-cientistas e profissionais ligados a cyber segurança. Então vai ter um desemprego tecnológico no varejo tradicional, mas hoje, já no Brasil está sobrando vagas para profissionais de data-cientista, são aqueles que têm doutorados, mestrados, exigem anos de estudos, cada dia mais é a sociedade do estudar para toda a vida.

NORDESTE: Qual a importância da Inteligencia Artificial (IA)?
Giardelli: Eu sou favorável a escola que surge pós-segunda guerra mundial. As pessoas tendem a ter medo da IA, mas quando ela se une ao melhor da inteligência humana, da criatividade humana, ela irá nos fazer dar saltos que a gente nunca imaginou. A IA vai fazer com que a fronteira da medicina mude, vai fazer com que a gente possa ter mais tempo para viver melhor, para trabalhar menos. Agora, as pessoas para terem um entendimento de IA, de robótica e todos essas outras novas tecnologias, linguagens do século 21… As nações vão ter que trazer as pessoas a um outro tipo de educação mais avançada.

NORDESTE: A sua especialidade, Robô Sapiens, tem a ver com Inteligência Artificial?
Giardelli: Tem, porque na verdade Robô Sapiens são humanoides que estão substituindo uma série de empregos. Hoje, no Japão, gerentes de banco foram substituídos por robôs humanoides, que se assemelham a seres humanos e fazem atendimento nos bancos. A Nespresso está fazendo isso em algumas lojas. Em alguns empregos estão sendo colocados robôs. No banco, por exemplo, sabem fazer reconhecimento facial – ele usa a IA para cruzar os dados e te oferece determinado produto, chama pelo seu nome. Isso fará com que, ao invés de competir com eles, nós daremos mais fronteiras a humanidade.

NORDESTE: Onde a Inteligência Artificial já esta atuando?
Giardelli: Eu participei de um projeto onde trabalhava em um algoritmo de um banco, analisando bilhões de documentos em poucos segundos. Um casal, casado há mais de 10 anos, onde o homem compra um carro de luxo e a mulher faz uma cirurgia plástica, em um período de 180 dias. Não importa quem faz primeiro, a compra do carro ou a plástica. A probabilidade deles se separarem nos próximos 18 meses aumenta muito. Então já estão sendo feitos esses algoritmos de comportamento, de segurança, de anti fraude. Qual o problema? As máquinas já estão prontas, os algoritmos já estão prontos, mas o que está faltando são os profissionais.

NORDESTE: Algumas pessoas são resistentes às tecnologias. Tem algum conselho para elas?
Giardelli: Eu acho que as pessoas não têm que ter medo do emprego tecnológico. A gente tem um conceito chamado ludismo (pessoas contra a mecanização) que eram as pessoas que destruíam e botavam fogo nas máquinas de tear na revolução a vapor, então a gente pode viver um pouco disso. Mas agora os país tem que se preocupar com uma educação que não vai depender só da escola, vai depender deles, dos valores, de fazer com que os filhos voltem a construir aviões, fazer com que desperte a paixão pelas ciências humanas, mas também por novas tecnologias, e não me refiro apenas a smartphones, tablets, mas também ao mundo e o que está acontecendo.

NORDESTE: Essa previsão para 2020 também atinge Brasil e Nordeste. Por que o Brasil tem regiões muito díspares, que parecem viver tempos diferentes. Essa previsão atinge o Brasil como um todo?
Giardelli: Acredito que não. Até pela deterioração industrial que vivemos hoje. Vamos chegar atrasados nessa nova onda industrial. Eu vi uma entrevista do Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil e percebe-se que ele não tem uma visão de mundo das revoluções que estão acontecendo. As coisas que estão acontecendo vão mudar completamente a forma como a gente vê o mundo, e o Brasil não está preparado para isso. O Brasil não tem um projeto de nação inovadora, então, para reunir esse tipo de ação, você precisa de uma tríade: academia, empresas inovadoras e governo. Aqui nós temos empresas que infelizmente precisam cortar gastos, com pouca inovação, com pouca verba para inovação, temos uma academia que está, digamos assim, limitada, produzindo estudos que ficam presos naquele circuito acadêmico e por outro lado temos o governo que não tem nenhum tipo de missão e planejamento a longo prazo de como é um projeto de nação, como a Coréia teve lá atras, como Israel teve lá atras. Nós estamos ainda num tipo de planejamento meio ‘ai meu Deus! Isso é para ontem’!".

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