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Rio Grande do Norte

26/12/2015


“Eu criei intimidade, é como se fosse eu escrevendo”, diz Maria Bethania

Entrevista

Maria Bethânia fala sobre a seleção dos mais de 70 poetas cuja obra – às vezes, apenas um verso – inspirou sua vida. "Sua escrita é composta de fragmentos, as palavras transitam entre a prosa e a poesia de livro e a canção, e o Brasil é seu objeto, horizonte ou destino", observa a historiadora Heloisa Starling, que escreve o prefácio de "Caderno de Poesias". Gravado ao vivo na Universidade Federal de Minas Gerais, Maria Bethânia interpreta obras literárias e musicais de grandes escritores, poetas e músicos brasileiros e portugueses, incluindo nomes como Guimarães Rosa, Dorival Caymmi, Carlos Drummond de Andrade, Fausto Fawcett, Manuel Bandeira, Ascenso Ferreira, Mario de Andrade, Capinam, Wally Salomão, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Patativa do Assaré, Luiz Gonzaga, Fernando Pessoa, Vicente Celestino, Chico Buarque, Castro Alves, Maria Isabel Velloso, Renato Teixeira, Olavo Bilac, Sophia de Mello Breyner, Gerônimo, Jorge Benjor, Moraes Moreira, entre outros. Confira entrevista sobre este trabalho.

Em sua apresentação, você fala da importância de um professor que teve na escola, Nestor de Oliveira. Foi nas aulas dele que você descobriu sua proximidade com a poesia?
Na verdade, já em casa isso era comum. Os amigos do meu pai, que sempre gostou de poesia, eram poetas. Colégio é sempre um pouco chato para os adolescentes, mas as aulas do Nestor eram deliciosas porque ele era poeta e isso fazia diferença. Em certos dias, quando percebíamos que ele não preparara a aula, escolhia um poema do Olavo Bilac e nos ensinava a dizer. Era um homem muito comovente, muito magro, muito alto. E de grande doçura.

A forma de se falar uma poesia você aprendeu com ele ou foi quando fez espetáculos como Opinião ou Rosa dos Ventos?
Foi quando comecei a trabalhar com o (diretor) Fauzi Arap. Ele descobriu essa forma de eu me expressar completamente. Foi misturando, editando, colando, que descobri um novo caminho com poesia, prosa e principalmente música. Foi ele quem me ensinou isso.

E foi ele quem lhe apresentou o Fernando Pessoa?
Foi. Eu já conhecia a obra de Fernando Pessoa, mas foi Fauzi quem me mostrou o tamanho de Pessoa – foi ele quem viu Fernando em mim, essa divisão em milhares de pessoas, cada uma mais esquisita que a outra (risos). Então, imediatamente, falei: com essa obra, eu me caso. Pessoa tornou-se o poeta da minha vida.

E você tem uma bela devoção…
Eu criei intimidade. É como se fosse eu escrevendo. Sei que pareço metida (risos), mas adoro e me identifico muito porque traduz tudo o que sinto, como penso, como desejo.

Podem não interessar os motivos de você não acrescentar determinado poeta, mas, ao notar sua predileção por poemas com fundo religioso, pergunto: por que Adélia Prado, cuja poesia é extremamente religiosa, não está presente?
Porque Adelia é muito forte e já tem uma interpretação poderosa de sua obra feita tanto por Ferreira Gullar como por Fernanda Montenegro. Não consigo ir além do ponto atingido por eles. É como ouvir uma cantiga cantada por Nana Caymmi – não dá para cantar depois. Ela já me preenche com o que faz e o mesmo se passa com a poesia da Adélia vista por Ferreira ou Fernanda. Não tenho com o que contribuir de tão perfeito que já está. Aliás, Nana me chamou para fazer um disco. Eu disse: "Claro! Faço na hora. Você canta e eu ouço" (risos). É a única maneira. Ela está muito animada. Diz que é para a posteridade. Mas que posteridade, Nana? (risos)

No disco Brasileirinho, já existe um cruzamento da prosa do livro com a poesia da canção que mostra um ponto de vista sobre o Brasil. Já era uma preparação consciente para chegar ao Caderno de Poesias?
Não. Não há nenhuma relação. O ato de colar e editar poesia, eu faço em casa como brincadeira. Posso ouvir uma música da Marisa (Monte) e descobrir que ficaria engraçado colar um outro texto, apenas isso. Já Brasileirinho nasceu de um desejo muito pequeno, quando a Kati Braga, dona da Biscoito Fino, perguntou se eu queria fazer um selo no qual poderia fazer algo diferente. Aceitei e aí nasceu a Quitanda, um selo miúdo, que necessitava de um projeto também pequeno. Assim, entrei no estúdio certo dia de manhã e a primeira coisa que gravei foi a melodia de Sentimental. Era só violão, nada ensaiado, e com uma voz determinada. Era algo completamente novo, que me permitiu ter um olhar só meu, de Santo Amaro da Purificação, para o meu país, do jeito que eu gosto dele – o povo real, aquele que sofre, que vive confinado, mas que também festeja, tem fé, é apaixonado.

Você vai comandar um programa no Canal Arte 1 chamado Poesia com Maria Bethânia?
Não vou comandar, apenas participar. A Monica Monteiro, do Arte 1, assistiu a uma apresentação que fiz em Braga, Portugal, recentemente e me convidou. Respondi que não sou jornalista, não sei entrevistar, não sou intelectual, não sou uma leitora, não sou nada disso. Posso apenas intuir o que pode ser interessante. Combinamos então de eu estar acompanhada de estudiosos, poetas e professores. O primeiro programa, que já gravamos, é sobre Castro Alves. Convidei o professor Alberto da Costa e Silva, um especialista em cultura africana e autor de um livro deslumbrante sobre Castro Alves, e Jorge Mautner, que é um menino que tem uma poesia completamente livre e solta da época dos anos 1960, 70. Foi sensacional. Fiquei aprendendo como acontecia com o Nestor. Num determinado momento, perguntei ao Alberto por que na Bahia se estuda mais sobre a Inconfidência Mineira que a Baiana (risos). E ele respondeu perguntando se eu sabia que Tiradentes, apesar de inconfidente, tinha escravos. Foi ótimo. 

Tribuna do Norte

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