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Brasil

09/12/2015


Ex-presidente do PSB: “partido é hoje um apêndice do PSDB de São Paulo”

Na Revista NORDESTE

O Cearense Roberto Amaral, jornalista, escritor, político militante e cientista político, é um dos fundadores do Partido Socialista Brasileiro e atuou nos bastidores de diversas campanhas presidenciais, seja apoiando o PT (Lula e Dilma), ou em candidaturas próprias (Anthony Garotinho e Eduardo Campos/Marina Silva). Foi ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro Governo Lula de 2003 a 2004 e foi presidente nacional do PSB, mas renunciou ao cargo quando o diretório do partido decidiu apoiar Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da disputa presidencial em 2014.

Em uma conversa com a Revista NORDESTE, o socialista fala sobre a atual conjuntura do partido, do qual optou se manter afastado devido ao rumo tomado pelo atual diretório. Amaral diz que o PSB está traindo uma tradição de esquerda e cita o governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, como uma das poucas esperanças para a legenda.

Olhando para o cenário internacional, Amaral defende os investimentos do Governo brasileiro em Cuba e afirma que o Governo Lula soube resolver assuntos internacionais sem ser subordinado aos Estados Unidos. O socialista ainda apontou a imprensa nacional como o maior partido político do país e que, constantemente, contraria a Constituição.

 

Revista NORDESTE: Na condição de líder socialista e dirigente do Partido Socialista Brasileiro, como o senhor encara hoje o posicionamento do PSB e qual a leitura da oposição, que insiste na agenda de impeachment de Dilma Rousseff?

Roberto Amaral: Primeira parte: eu tenho notada divergência com a atual direção do partido. Eu diria mais, honrosa divergência. O partido vinha de uma tradição de sempre esquerda, caminhando para a esquerda. O partido era, nos últimos anos, talvez o único bastião do socialismo democrático. Era uma tradição que nós recolhíamos desde 1947 com a Frente Democrática, com a Frente de Esquerda, com João Mangueira, que foi revisada em 1985 quando nós reconstruímos o partido com Antônio Houaiss e Jamil Haddad. Uma construção que ficou revigorada a partir de 1990 com o ingresso de Miguel Arraes. Era uma tradição de luta pela esquerda. Nós já havíamos lutado na Constituinte, pelo direito dos trabalhadores, pelo petróleo, pelo capital estatal. Fomos contra a cassação dos partidos comunistas no Governo Dutra, participamos do processo de redemocratização no Congresso Nacional, tendo à frente o presidente Jamil Haddad, lutamos pela anistia e pela punição dos torturadores. Tivemos a honra de sermos os idealizadores da frente Brasil Popular em 1989, indicamos o vice de Lula naquela memorável campanha, disputamos com ele as eleições de 98. Em 2002 tivemos candidatura própria e apoiamos o presidente Lula no 2º turno, participamos do seu governo nos dois mandatos e no primeiro mandato da presidente Dilma. Em 2014 o partido entendeu mais uma vez que deveria ter uma candidatura própria e teve. Todavia, ela foi ceifada. Um desastre estúpido como todo e qualquer desastre, que levou a vida do Eduardo Campos. No segundo turno, traindo a história do partido, rasgando a biografia de seus fundadores e de seus refundadores, a atual direção partidária optou por apoiar o candidato da direita, o senhor Aécio Neves. Eu renunciei à presidência do partido e me afastei da direção, fiz a campanha da Dilma e estou defendendo o seu mandato. Lamento o que ocorreu com o meu partido, porque o prejuízo não foi apenas do PSB, foi da esquerda democrática que perdeu um grande espaço de atuação.

 

NORDESTE: Que, inclusive, com o desgaste do PT, era a oportunidade do PSB avançar nesse campo

Amaral: Era o que eu ia exatamente completar. Não só com o desgaste do PT, mas com o desgaste da estrutura partidária brasileira de hoje e com o desgaste dos demais partidos do nosso campo. Ninguém hoje está satisfeito na sua sigla. Era a oportunidade de um partido novo, sério, limpo, ser o desaguador de todas essas forças. Ao invés disto, a direção partidária, oportunisticamente, pensando que Aécio ia ganhar as eleições, optou por se transformar num valhacouto (amparo) da direita.
 

NORDESTE: Dentro dessa sua leitura, como é ver o PSB endossando partidos e lideranças que defendem o afastamento de Dilma?

Amaral: Eu vejo da forma mais lamentável possível. No entanto, essa posição, que é pusilânime, é uma posição coerente com o papel que desempenha a atual direção. Se nós precisássemos de um indicador desse quadro triste, bastava a tentativa fracassada, felizmente, da atual direção, de fazer uma fusão com o PPS, de Roberto Freire, que é um substrato. Ele não chega ser a essência, porque não tem vida própria. Ele é um repositório da degenerescência da esquerda brasileira.

 

NORDESTE: O senhor acredita que o PSB se projeta numa perspectiva de aliança com Geraldo Alckmin para, entre outros aspectos, satisfazer o interesse localizado de São Paulo, mais especificamente do atual vice-governador, de querer ascender ao Governo daquele estado, numa perspectiva de candidatura de Alckmin à presidência?

Amaral: Você foi num ponto fulcral. O PSB é hoje um apêndice do PSDB de São Paulo. Ele é utilizado na luta interna do PSDB do conflito em busca pela indicação da presidência de Alckmin e Aécio. Ele faz o jogo de Aécio e esse jogo é comandado pelo tesoureiro do PSB, que é um dos melhores quadros do partido, que é o Márcio França (atual vice-governador de São Paulo e secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, França também é presidente do PSB em SP). O jogo do partido é fazer o jogo do PSDB, fortalecendo Alckmin na expectativa de que ele saia candidato à presidência da República e o Márcio França seja ungido governador.


NORDESTE: Com endosso de Beto Albuquerque no Rio Grande do Sul? (Beto Albuquerque foi escolhido pelo PSB para ser o candidato a vice-presidente na chapa encabeçada por Marina Silva). 

Amaral: Eu prefiro falar de figuras maiores.

 

NORDESTE: Como o senhor vê as lideranças do partido dentro de uma perspectiva em que envolve, por exemplo, o Nordeste. Ricardo Coutinho é governador reeleito e tem se insurgido contra essa orientação do PSB. Como o senhor encara a perspectiva dele como alternativa para o futuro? E aí, nesse contexto de Nordeste, percebe-se que há uma fragilidade política do que restou de Eduardo Campos em Pernambuco, ou seja, o governador Paulo Câmara, o prefeito Geraldo Júlio e o senador Fernando Bezerra Coelho não ocuparam e parecem não dar sinais de que vão ocupar esse espaço que foi de Eduardo Campos.

Amaral: O Ricardo Coutinho é talvez uma das poucas esperanças de formação do PSB. Ele é um quadro, uma coisa rara no partido, é um quadro ideológico. Um quadro de formação política, um quadro sério, um quadro corajoso. E, ao contrário da maioria da atual direção do partido, que nunca leu nem orelha de livro, ele é um homem culto. Ele tem feito várias intervenções na executiva, para lutar e salvar as posições do partido. Por isso é muito importante o sucesso dele na Paraíba e, oxalá, o sucesso dele em João Pessoa nessas próximas eleições se fortalecendo como quadro nacional, com as limitações que tem todo quadro nordestino ao se projetar nacionalmente. Ele é muito importante nisto e ele pode aglutinar outros quadros do PSB que podem, sobre a sua sombra, construir uma grande resistência dentro do partido. Ele deve lutar ao lado da companheira Lídice da Mata (senadora e presidente do PSB na Bahia), de outras lideranças que estão surgindo em todo o país e, principalmente, dos movimentos sociais dentro do partido: movimento da Juventude e movimento Sindical. Os companheiros de Pernambuco, são todos companheiros valorosos, mas sem nenhuma experiência política, sem nenhuma tradição política, sem nenhuma história política, são administradores. Se projetaram politicamente, graças ao trabalho que cada um fez como administrador, mas, principalmente, carregados pelo prestígio e, depois, pela memória de Eduardo Campos. Isso é importante, mas isso não é suficiente.

 

NORDESTE: Como o senhor encara a atual conjuntura geopolítica nacional? Ricardo Coutinho, por exemplo, faz uma leitura de que o que acontece no Brasil de instabilidade econômica e, sobretudo política, tem a ver com o interesse do capital externo, das forças conservadoras da direita do mundo, – não só no Brasil, mas como nos outros países da América do Sul que ultimamente tem optado por governos socialistas – o caso mais grave é o da Venezuela. O senhor vê também essa interferência?

Amaral: Eu vejo isso, eu vejo mais do que isso e eu acho que o Ricardo vê mais do que isso. Eu não concordo com duas coisas. Um, a globalização é política e é econômica, e é real. Dois, o capitalismo nunca foi nacional. O capitalismo é, por essência e definição, internacional. O centro do capitalismo, que se desloca em função das crises econômicas, está interessado, está com seus olhares, sua economia, seu FMI, seus recursos, olhando para a Europa também, interferindo no processo europeu. Como agora é exemplo o caso da Grécia, recentemente da Espanha e, foi a pouco, as intervenções políticas na Itália, Espanha e Portugal. Está se envolvendo e se envolve na política japonesa, o Japão que está há 20 anos em estagnação. Todos estão acompanhado como os Estados Unidos e a União Europeia estão interferindo nos Bálcãs, no revigoramento de uma guerra fria que não tem mais sentido. Estou falando da Rússia, a Ucrânia é um pretexto para a ação contra a Rússia. E, evidentemente, a América Latina era, até pouco tempo, uma exceção nesse quadro. Nesse quadro turbulento, nós éramos uma região de paz, uma região sem ditadura, sem crise econômica, uma região que avançava economicamente, mas, principalmente, socialmente e, por conta disso, ela adquiriu forte independência, o que é inaceitável para o grande capital. Você citou o exemplo da Venezuela porque é o mais mexido, é o mais vocalizado pela imprensa brasileira, mas o maior incômodo na geopolítica do imperialismo é o Brasil, pela liderança que cumpre independentemente da qualidade dos nossos dirigentes. Nós somos mais da metade do território, somos mais da metade da economia do continente, então temos influência política, econômica, cultural, histórica. Na administração Lula, tivemos grandes sucessos na política externa, principalmente na política na América Latina, mas particularmente na América do Sul e isso foi todo sucesso em cima dos interesses americanos.

 

NORDESTE: Pegando desse gancho, até Fernando Henrique, a orientação americana, absolvida pelo PSDB, era de criar um mercado ALCA (Área de Livre Comércio das Américas). Lula optou pelo Mercosul (Mercado Comum do Sul).

Amaral: O governo Lula, ao invés de fazer aqui a política de interesse do norte, fez a política de interesse do sul. O chamado Sul Sul. Não só América do Sul, como hemisfério sul, quando avançamos para os setores da Ásia e da África. Aqui, nós encontrávamos como projeto definido do Governo a ALCA e, ao invés disso, o Governo Lula fortaleceu o Mercosul. E fez mais, criou a UNASUL (União de Nações Sul-Americanas), criou a CELAC (Comunidade de Estados Latino Americanos e Caribenhos), criou o Conselho de Ministros de Defesa do Continente. Nós criamos uma instituição (UNASUL) paralela ao OEA (Organização dos Estados Americanos) e muito mais forte do que o OEA, que era um braço do imperialismo aqui na regendo, e, a partir do governo Lula, as crises do nosso continente foram resolvidas sem que viesse para cá discutir um embaixador americano. Fomos nós, sul-americanos, que discutimos a crise do Paraguai e as várias crises da Venezuela. Isso é uma insubordinação, isso é inaceitável, para a política dos americanos.

 

NORDESTE: Qual é o papel do Brasil diante desse novo cenário de Cuba dialogando comercialmente, institucionalmente, com os Estados Unidos?

Amaral: Primeiro, não se faz política externa sem dinheiro. A política externa é cara. Você faz política externa com instrumentos externos. Vamos discutir primeiro Mariel. Mariel é um investimento de grande porte, um grande porto que o Brasil vai ter associado com Cuba, que vai ter nas Antilhas, na América Central… Tem interesse estratégico. O problema é que a burguesia nacional, a grande imprensa, acha que o Brasil não deve ter política estratégica, deve seguir a política estratégica dos Estados Unidos. Não estão reclamando o fato dos Estados Unidos, depois disso ter se deslocado para Cuba, eles podem, nós é que não podemos. O Brasil foi sábio, se antecipando a uma abertura inevitável de Cuba, chegando lá primeiro que os Estados Unidos. Isso a burguesia nacional, a grande imprensa, não perdoa, porque nós temos sempre que, segundo ela, ser os últimos a chegar e não ter política própria, temos que ser piolho. Cuba é um desafio, não sabemos quais são os limites dessa abertura, não sabemos quais são os limites a que se imporá a si próprio os Estados Unidos. É uma incógnita. Apenas sabe-se que a abertura é inevitável.

 

NORDESTE: Como o senhor lê essa estratégica da grande mídia e pergunto se o senhor defende ou não uma regulação da mídia?

Amaral: A regulamentação da mídia não tem nada a ver com mau comportamento da mídia. Ela deve ser em si um projeto, um valor. No Brasil o grande partido brasileiro hoje é a grande mídia. É um partido. Com projeto próprio, com programa próprio, com interesses próprios, sejam econômicos ou políticos. Isto é visível.
Os partidos de oposição seguem a agenda determinada pelos grandes meios. Que têm interesse próprio. Eles têm autonomia. Tudo que depende de concessão de serviço público deve ser regulado. Hoje a imprensa é um poder talvez tão forte, ou maior e mais forte, que o Poder Executivo.

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