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Ceará

22/02/2016


Família mora há quatro meses nas margens da Lagoa da Parangaba

“Cadê os direitos humanos?”, questiona Antônio Humberto da Silva, 49. Ele não tem, por exemplo, lugar adequado para morar, escola para matricular os sete filhos, o que beber ou o que comer. Mesmo assim, no encalço do provérbio “onde come um, comem dois”, o catador e sua família chegam a abrir as portas do casebre construído às margens da Lagoa da Parangaba para abrigar mais de dez cães abandonados.

Estão lá, além dos animais, sete pessoas espremidas em quatro compartimentos “protegidos” por portas quebradas, pedaços de madeira desregulares e papelões. O barraco foi montado há quatro meses, aos fundos de uma casa de forró, em frente à avenida Américo Barreira. À primeira vista, os cachorros dão tom de hostilidade ao lugar, por estremecerem instintivamente a cada passo de desconhecidos em direção à morada. Mas baixam a guarda, tanto o homem quanto o animal, quando o assunto são as dificuldades que enfrentam.

Mesmo antes de se mudarem para ali, Humberto e a esposa Maria Eliene Pinheiro da Silva, 36, peregrinaram em busca de moradia em Aracati, a 148 quilômetros de Fortaleza, e no Rio Grande do Norte, na divisa com o Ceará. “Mas lá (no RN) mandaram a gente de volta, disseram que a Prefeitura daqui é que tem de dar casa pra gente”. Na volta a Fortaleza, “na época da Luizianne (ex-prefeita)”, contou Humberto, foi dada à família uma casa no conhecido Balão do Mondubim, mas, devido à insegurança do local, eles voltaram a morar nas ruas.

Aluguel social

Em novembro de 2015, uma equipe da Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social e Combate à Fome (Setra) visitou a família e notificou-a de que estava ocupando o espaço público da Lagoa da Parangaba. De acordo com o documento, ficou prometido encaminhar o pai, Humberto, para inscrição no aluguel social. Hoje, ele já recebeu o aval, mas ainda não conseguiu encontrar moradia que recebesse a família — tanto por eles não terem como garantir a assiduidade do pagamento ao proprietário do imóvel, quanto pelo valor do auxílio (R$ 420), que é inferior à oferta.

“A vida é cruel aqui”, resumiu Humberto. Alojado em meio à vegetação que cobre a margem da Lagoa da Parangaba, o casebre é rodeado de frutas podres, latas amassadas, moscas e dejetos humanos e animais. Nem mesmo os espessos galhos horizontais de uma árvore conseguem proteger a família de intempéries como as chuvas que têm caído recentemente sobre Fortaleza. “Nós ‘se molha’ todo”, relatou a esposa, Eliene.

Saiba mais

Humberto conta que os cachorros que montam guarda em seu barraco são resgatados por ele de feiras que ocorrem no entorno da Parangaba. A alimentação, tanto da família como dos animais, depende de doações.

Em 2013, O POVO divulgou matéria sobre família que também morava às margens da Lagoa da Parangaba. As condições de moradia eram praticamente as mesmas . A reportagem não encontrou, porém, os antigos moradores.

Luana Severo
O Povo

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