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Brasil

24/11/2015


Filha de Luiz Carlos Prestes vive de turismo no RN e fala de exílio na URSS

Exclusivo

Por Walter Santos


O que faz uma comunista deixar a cidade de Santos, no litoral paulista, e montar uma estrutura de hospedagem com pouco retorno financeiro, se dispondo a fazer com que gente do sudeste e de outros lugares possam desembarcar no Nordeste para conhecer a região? Esse é o caso de Mariana Prestes, filha de Luiz Carlos Prestes com Maria do Carmo Ribeiro, segunda esposa do comunista. Luiz Carlos foi casado com Olga Benário até 1929, quando a esposa foi morta num campo de concentração nazista.

Há 2 anos morando em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, Mariana explica que resolveu se mudar para o Nordeste em busca de mais qualidade de vida e tranquilidade. Também pesou o avanço da idade. “Eu penso assim, a gente já passou dos 50, o que vier depois dos 50 é lucro”. Depois que o filho resolveu voltar para São Paulo, ela e o marido, Ivan Neri dos Reis, se viram com uma casa para além de suas necessidades e resolveram investir em turismo. “Amigos nossos queriam conhecer o Nordeste, mas reclamavam que era muito caro. Percebemos nisso a possiblidade de agradar a gregos e a troianos”, assegura Mariana.

A proprietária afirma que já aportaram na “Casa da Russa”, como é chamado o lugar, gente do Rio de Janeiro, São Paulo, Argentina, Colômbia, República Dominicana, Rússia. Pessoas que está procurando conhecer o nordeste e curtir um turismo diferente do que normalmente se vê na região. Mariana explica: “Não é pousada. É a minha casa. A pessoa vai estar no convívio familiar. Aqui nós alugamos duas suítes. Tem capacidade para atender até cinco pessoas”. Cada quarto custa R$ 80,00 e o hóspede tem direito a café-da-manha. “A casa é simples, não tem muito luxo”, revela. Mariana conta que, apesar de não ser cadastrada como equipamento de turismo, entrou no site do Ministério do Turismo e procurou pesquisar quais seriam as exigências de estabelecimentos tipo “cama e café”, onde o dela se enquadraria. Entre as exigências, estão serviço de quarto, com troca de roupa de cama e toalhas, além de café da manha com 11 itens. “Tentamos seguir a risca o que é solicitado lá”, frisa.

O tipo de turismo tem atraído pessoas que pensam em gastar pouco e querem usufruir das belezas do nordeste e de passeios agradáveis. “O nosso propósito é poder oferecer às pessoas um turismo de custo benefício barato”, avisa. A ideia é mesmo oferecer a possibilidade das pessoas ficarem num espaço familiar, manter o convívio aceso, trocar experiência e, ao mesmo tempo, dar a possibilidade de visitar diversos lugares da região. A “Casa da Russa” faz o transfer do aeroporto, tanto de João Pessoa, quanto de Natal, e oferece diversos passeios, entre eles para Barra de Camaratuba, Barra de Cunhaú, Pipa, Lagoa do Carcará, Rota do Sol, Natal, João Pessoa, Praia do Jacaré, Recife. “Se a pessoa quiser até visitar o Sertão, o Seridó, levamos. Temos um leque de atividades que vai de acordo com o que cada cliente deseja”, avisa.

Questionada, em tom de brincadeira, se a intenção era estabelecer uma modalidade de turismo comunista ao oferecer passeios e estadia com um misto de calor humano e preços módicos, Mariana riu. “O nosso intuito não foi nunca enriquecer com isso, muito pelo contrário, queremos proporcionar a possibilidade das pessoas virem para cá de uma forma barata. E com esse custo podermos nos manter aqui também”. Em relação ao nome do lugar que consta na página do facebook, Mariana lembra que surgiu porque ela morou 18 anos na Rússia, exilada com a família, e considera o país sua segunda casa. “Sou tradutora de russo. Achei que seria um atrativo, por isso eu coloquei o nome e pegou”, diz. O acesso é fácil: chegando em Baía Formosa, virar a primeira rua à direita e no final da via já é possível ver a casa. Para os interessados é só acessar o site www.airbnb.com.br e procurar acomodações em Baía Formosa, ou ligar para os telefones: (84) 3244-2278 e (84) 99999-1126.
 


História de exílio

Revista NORDESTE: Quando vocês foram exilados?
Mariana Prestes: Depois do golpe de 64, papai foi para a clandestinidade. Ele foi a pessoa mais perseguida durante toda a sua vida pelo Estado brasileiro! Dos 92 anos de vida, 60 foram de perseguição e clandestinidade, teve pouco tempo para viver uma vida tranquila e de paz. Em 64, com o golpe, ele foi para a mais profunda clandestinidade. A polícia o estava caçando e toda a família corria um grande risco. Podíamos ser sequestrados para forçarem ele a se entregar. Então, prevendo isso, a União Soviética nos deu abrigo em 1970.


NORDESTE: Vocês foram para Moscou em que ano?
Mariana: Enquanto estava todo mundo torcendo para o Brasil (na Copa de 1970), mamãe conseguiu a documentação e a gente saiu… O papai foi um ano depois. Precisou fazer um passaporte falso, sair de carro até a fronteira e chegar em Buenos Aires. De lá, conseguiu partir para a Europa com documentação toda falsa.


NORDESTE: Em que você distingue a nossa educação da que você recebeu na ex-União Soviética?
Mariana: A educação era muito mais profunda. Era voltada para a literatura, cultura, as tradições. A criança passava o dia inteiro na escola. A gente entrava na escola às sete horas da manhã e só voltada às cinco horas da tarde. Era período integral. Cada matéria tinha uma classe específica, aula de geografia era na sala de geografia, química em sala de química. Você tinha uma estrutura para estudar muito melhor do que aqui no Brasil. Aqui a criança fica numa mesma sala confinada. Na Rússia, você estudava das 7 horas até às 13h e a tarde tinha aula de reforço. Os próprios professores que davam aula tiravam as dúvidas. Quando chegamos a Moscou, o partido comunista quis nos colocar numa escola específica para estrangeiros. A gente ia ficar num internato. A mamãe não deixou e a gente foi para uma escola típica. Só estudávamos com filhos de trabalhadores e de operários. Foi a melhor coisa que aconteceu. Visitávamos a casa das pessoas e convivíamos com elas. Esse convívio nos ajudou muito a conhecer a Rússia e a viver suas tradições e cultura.


NORDESTE: O que você acha do comunismo hoje?
Mariana: Para início de conversa, em nenhum lugar do mundo existiu o comunismo. Na Rússia não foi comunismo, na China não foi comunismo, em Cuba. O que existe é o socialismo. Não existe comunismo em nenhum lugar. Houve a revolução socialista onde o povo tomou o poder. Agora daí dizer que construíram o comunismo! Não. Foi construído o socialismo que é uma etapa para chegar lá. O que é o comunismo? Comunismo é quando todo mundo tem consciência que todo mundo é dono de tudo e que as pessoas compartilham isso. Eu não vou pegar além daquilo que preciso, nem o outro vai pegar a mais. Para chegar no comunismo é preciso primeiro que as pessoas tomem consciência, que as pessoas tenham a capacidade de discernir o que é bom e o que não é. Nem hoje, nem antigamente, ninguém chegou a esse nível ainda. São pouquíssimas pessoas que têm esse pensamento de igualdade.


NORDESTE: Você se sente socialista?
Mariana: Eu me sinto comunista.


NORDESTE: Qual a leitura que você faz da crise política que o Brasil enfrenta?
Mariana: O Brasil já passou por diversas crises e problemas e a gente sempre conseguiu sair dela. Eu acho que, em primeiro lugar, esse governo que está aí hoje, pode se falar o que quiser sobre ele, mas é um governo que tirou 32 milhões de pessoas da pobreza e da miséria. Hoje temos a primeira década de crianças que nasceram sem passar fome. O Bolsa Família consegue dar essa capacidade para as crianças sobreviverem. Aqui no Nordeste, em Baía Formosa, convivo e converso com pessoas que lembram que há dez anos as crianças comiam calango. As pessoas moravam em casas de pau a pique, porque não tinham moradia. Hoje você pode andar por Baía Formosa e não vai ver uma criança fora da escola, passando fome ou numa casa de pau a pique. A maioria já tem casa e está estudando. Além disso, vinculando o Bolsa Família à saúde conseguimos diminuir e atingir a meta de redução da mortalidade infantil. Então, pode-se falar o que quiser do governo, mas só o fato de ter feito isso, para mim, já é um bom começo.

 

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