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Brasil

11/09/2015


Filósofo diz que grupos neonazistas reforçam ideia de nordestino vagabundo

Matéria EXCLUSIVA

Grupos neonazistas reforçam estereótipo nordestino de miserável e vagabundo. Para filósofo, a única forma de evitar guerra entre regiões é a implantação de fato do modelo federativo

Após o resultado das eleições de 2014 a internet e as redes sociais foram assaltadas por uma onda de preconceito contra o nordestino. Até a Wikipedia foi alvo desse preconceito quando o termo “Região Nordeste” teve a sua descrição alterada na enciclopédia livre: “A Região Bolsa Família foi uma das poucas regiões a eleger uma ditadora bolivariana chamada Dilma Rousseff”, dizia a Wikipedia que pode receber edição livre, e trazia estampada a raiva de quem culpava a região pela vitória petista.


Com a popularização da internet é fácil encontrar críticos do Nordeste que acusam o povo de ser preguiçoso, ignorante e de eleger políticos corruptos. As opiniões jogadas na internet tem sido um tema polêmico. Até Umberto Eco, pensador contemporâneo, já veio a público falar contra o que ele chamou de “idiota da aldeia”. “Normalmente, eles (os imbecis) eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”, completou. Para Eco, antes das redes sociais, os ‘’idiotas da aldeia’’ tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. ‘’O drama da Internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”, frisou.


O filósofo Roberto Romano (Unicamp), pensador do assunto, destaca ser enganoso dizer que somente o Sul e o Sudeste cultivam o ressentimento contra o Norte-Nordeste. O nordestino também acaba ficando ressentido. Para Romano, existe sim esse preconceito contra o Nordeste de Minas para baixo. Mas também é possível encontrar uma atitude radical em relação ao sul no próprio Nordeste. O professor lembra que no século XVI, com a invenção da Imprensa e o advento do livro impresso, teve uma onda de pedantismo no mundo e foi feita uma sátira daqueles que liam tudo e não entendiam nada. Com a internet houve novamente uma elevação do pedantismo, “agora a nível cósmico”, avalia Romano. “Essas pessoas se julgam superiores e manipulam informações que não têm”, frisa. Além disso, Romano alertar para uma expansão dos movimentos fascistas no Brasil. Seriam grupos de extrema direita que agem na internet e que, de certa forma, acabam aglutinando uma classe média urbana profundamente preconceituosa.


“Eu acho que está havendo um impulso muito grande de movimentos fascistas no país inteiro. Não apenas no sul, mas inclusive na Bahia. No nordeste se nota a emergência desses grupos e setores. A mídia não tem discutido isso e não tem levado a sério esse tipo de ameaça. No parlamento ainda há a presença de grupos autoritários, conservadores e reacionários que estão se potencializando sobre a capa da religião, principalmente através do fundamentalismo protestante. Eles querem mudar para pior. Acabar com o direito das mulheres, homossexuais, indígenas. Uma saudade dos governos autoritários”. Segundo o estudioso, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) é o exemplo claro disso, assim como o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) e correligionários afins.


“Há uma perigo muito sério dessas classes urbanas médias que já são tradicionalmente reacionárias encontrarem uma canalização pior daquela que houve durante o período do integralismo. O integralismo circulou pelo país e chegou a ter milhões de aderentes. Tem uma coalizão de extrema direita no país que se liga a essa classe média”, conta Romano. Vale ressaltar que o integralismo foi um movimento vigente na década de 30 que deu suporte a Getúlio, mas depois tentou destituí-lo do poder através de um golpe malogrado. O movimento também fez forte campanha anticomunista contra Luiz Carlos Prestes e tinha tintas fascistas. Durante o governo getulista foi um dos responsáveis pela aproximação do governo com Hitler. O Brasil viria, depois, a decretar guerra contra Alemanha, após ver um dos seus navios bombardeados.


Classe sem cultura – Sobre o porquê essas “classe urbanas médias” têm sido usadas como massas de manobra dos movimentos reacionários, Romano aponta uma certa falta de cultura. “Essa classe média a que eu me refiro, foi profissionalizada de forma unilateral. Eles foram para a universidade, adquiriram diploma de engenheiro e médico, sem interesse (ou acesso) por uma ótica mais ampla. São engenheiros analfabetos, em termos de arte, política e tudo mais. Pensam apenas por setor. São vitimas de veiculação de slogans e ideais preconcebidas. É muito fácil ser desvirtuado para quem não tem uma cultura mais ampla”, frisa.


Contudo, Romano entende que o preconceito contra a região é algo mais antigo. “Eu acho que o importante é verificar que essa onda de ódio e preconceito contra o nordeste é resultado e não premissa. Resultado de uma política que vem desde o século 19”. Pela ótica do filósofo existem paliativos para a situação, e eles estão na luta travada pelos municípios e estados por mais autonomia, e uma federalização de fato no pais. “Existem juristas que dizem que o Brasil ainda é o império do poder central. Se 70% do que é arrecadado (de impostos) vai para a União o que sobra é disputado numa guerra (entre os estados). Assim, entra a guerra fiscal e até o xingamento e a briga de lado a lado”.


O jogo de ódio para ver quem fica com a parte do leão – Ao refletir sobre a ideia de federação (onde os estados tem autonomia em relação ao poder central), Romano chega a conclusão que no Brasil não existe uma federação de fato. Para ele o poder central é como se fosse um invasor que cobra uma espécie de botim e fica com a parte do leão. No final das contas o que sobra é que os estados se digladiem entre si na chamada guerra fiscal. “Há uma manobra permanente do poder central para despossuir as regiões”.


Romano explica que o que exite é um mando imperial do governo central e uma permanente forma de controle das regiões, justamente atendendo as exigências das varias oligarquias regionais. “É muito mais tranquilo em vez de questionar essa forma de dominação de classe, disfarçar isso com esse jogo de ódio de uma região contra outra”, avalia.


Parao estudioso, é preciso distinguir as necessidades e reivindicações das regiões em contraposição às oligarquias comprometidas com a federação. Neste quesito, o nordeste e o Brasil tem vários exemplos de famílias que dominam a política, a economia e os meios de comunicação. Na política, os Sarney, os Neves, os Cunha Lima, Magalhães, Calheiros, Alves, Maia, Bornhausen, Richa, Barbalho, Collor. São sobrenomes que se repetem, apenas para citar alguns exemplos que têm conseguido se perpetuar no poder ao longo das gerações.


No entender do estudioso, interessa ao poder hegemônico do Brasil esse tipo de visão que uma região tem da outra.


“Quem se aproveita são os oligarcas que estão no poder central, controlando essas imagens. O que acontece em termos históricos, é que o Brasil foi um império onde as forças armadas cumpriu um papel fundamental de todas as dominações populares. No Nordeste, no Norte e no Sul vemos o Exército de Duque de Caxias acabando com as rebeliões. E a desculpa é que o Brasil não poderia se tornar uma serie de republiquetas como as espanholas”, ensina Romano, que ainda lembra a diplomacia do barão do Rio Branco, que atuou ativamente nas questões de fronteiras e defendeu os interesses brasileiros contra a Argentina, Guiana Francesa e a Bolívia. Neste quesito ainda é possível enxergar a violência das Forças Armadas que culminou com duas ditaduras.


Romano argumenta que o estado brasileiro foi construído numa espécie de guerra entre as regiões. “A coisa mais fácil é colocar uma região contra a outra. Divide e impera. Assim, se mantém para o sulista a ideia de um nordestino vagabundo e para o nordeste de um sulista arrogante”.


O estudioso acredita que o grande medo do poder central é que regiões adquiriram a sua própria importância. “Cada região tem uma caudal de atribuições que não é respeitada no Brasil. Se tivesse uma federação de fato teria um respeito a cada região. As leis da educação e cultura são uniformes do Oiapoque ao Chuí. E isso leva a pobreza do pais. E como resultado da riqueza regional vemos a cultura da televisão, e da novela, que é feita cotidianamente, a tal ponto que se considera virtude que ela não tenha sotaque”, critica.

Paulo Dantas
 

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