menu

Política

23/10/2018


Haddad e Bolsonaro adotam estratégias diferentes na reta final do 2º turno

Na última semana antes do segundo turno, os presidenciáveis apostam em estratégias diferentes para convencer o eleitorado. Enquanto Jair Bolsonaro (PSL) continua sem comparecer a debates e focado nas redes sociais, Fernando Haddad (PT) intensifica a campanha nas ruas, com a vice, Manuela D’Ávila, e seus apoiadores. Especialistas não acreditam em uma reviravolta, a não ser que aconteça um fato novo de grandes proporções.

Nas declarações mais recentes, o petista tem se colocado como a opção democrática no pleito, contra uma candidatura “perigosa” de extrema direita, segundo ele. Ontem, Haddad falou sobre o assunto após encontro com catadores de materiais recicláveis, em São Paulo. Afirmou ter “várias preocupações” quanto à democracia, a começar pela “ameaça ao STF (Supremo Tribunal Federal)”, em referência à fala do filho do capitão reformado do Exército, deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), de que bastam um soldado e um cabo para fechar a Corte.
Discursos parecidos são esperados nos próximos eventos dos quais Haddad participará. Hoje, ele estará no Rio de Janeiro para um “ato da virada” com Manuela, Chico Buarque e Caetano Veloso. Ontem, quando cumpriu agenda com catadores, Haddad também classificou Bolsonaro como “uma pessoa perigosa e que não faz questão de esconder isso”. Citou como exemplo de “absurdo” o discurso proferido pelo candidato do PSL no domingo, quando afirmou: “Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão para a cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”.
Tentativas infrutíferas
Desclassificar pessoalmente o candidato do PSL, no entanto, já se mostrou infrutífero, observa o analista político Thiago Vidal, da Prospectiva Consultoria, uma vez que o eleitorado não se importa com as declarações polêmicas do capitão reformado. “Vimos o Geraldo Alckmin (PSDB) tentar bastante essa desconstrução, no primeiro turno, mas não adiantou muito”, lembra o especialista. Agora, a melhor estratégia pode ser atacar as propostas, mas sem ser muito agressivo, apontando as inconsistências do adversário. Uma desconstrução bem-feita pode repercutir durante toda a semana, até o domingo de votação. “O problema é que Bolsonaro tem um plano de governo estrategicamente vago, para evitar esse tipo de ataque”, explica Vidal.
Outra estratégia de Haddad vem das promessas populares, como baixar o preço do botijão de gás — afirmou que não passará de R$ 49 — e manter a universidade pública gratuita. Ele apela também para o programa Bolsa Família, afirmando que terá aumento de 20% a partir de janeiro, caso ele seja eleito. “Esse tipo de proposta, por um lado, é boa, porque consegue mais votos. Por outro, é ruim, porque ele se queima com o mercado financeiro e setor produtivo, que têm um discurso mais fiscalista”, pondera Vidal.
De seu lado, Bolsonaro segue a tática da campanha nas redes sociais. Após se reunir com empresários de diversos setores, comemorou, no Twitter: “Vamos juntos livrar o Brasil das garras ideológicas da esquerda!”. Mais cedo, o candidato se encontrou com representantes da Assembleia de Deus e com o ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) Ives Gandra Martins Filho. Favorito entre cristãos e executivos, Bolsonaro recebeu um documento formulado por evangélicos, enquanto o motivo do encontro com o ministro não foi revelado. O magistrado entrou e saiu da casa do candidato sem falar com a imprensa.
 
Ofício de evangélicos
Entregue pelo presidente do Conselho Geral da Convenção da Assembleia de Deus no Brasil (CADB), Samuel Câmara, o ofício pede o compromisso do capitão reformado do Exército a favor “da preservação da vida humana desde a sua concepção”, da “formação familiar tradicional”, da educação pública “sem influência ideológico-partidária esquerdista e sem erotização de crianças”, pela redução do Estado e a retomada do crescimento econômico, e a favor da liberdade de pensamento e religião.
Para o cientista político Geraldo Tadeu Monteiro, coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas sobre a Democracia, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a estratégia de Bolsonaro de se afastar da mídia tradicional tem dado certo. Segundo ele, manter distância dos confrontamentos é o caminho ideal para seguir na liderança. “Há muito pouco tempo para uma reviravolta. Só um escândalo realmente muito forte, que atingisse a figura dele, poderia gerar uma grande comoção”, disse.
Correio Braziliense

Notícias relacionadas