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Internacional

17/05/2016


Impeachment dificilmente resolverá crise econômica, diz economista russo

A crise política no Brasil, que resultou em impeachment da Presidenta Dilma Rousseff, surpreende o incauto observador por sua acuidade e profundidade. Afinal, há algum tempo parecia que o Brasil havia superado as doenças características da infância do seu sistema político e econômico e que tinha conseguido fazer a transição para um crescimento sustentável e uma democracia madura. Tudo mudou muito rápido. Ainda em 2013, com uma situação relativamente estável na economia, na véspera da Copa das Confederações, tiveram início as grandes manifestações antigoverno. Em seguida, ganharam força os protestos anticorrupção. Por fim, a partir do ano passado, o Brasil sentiu uma expressiva queda econômica de quase 4% do PIB.

"Os processos econômicos são compreensíveis. O crescimento da primeira década de 2000 foi garantido pela conjuntura majoritariamente crescente do mercado mundial, com a ampliação dos programas sociais e uma política de crédito bastante conservadora.

"O recuo global nos preços dos principais produtos de exportação (ferro e petróleo), por si só, reduziu o ritmo de crescimento. Nesse contexto, o governo deveria ter revisto os gastos orçamentários e os programas sociais. No entanto, as autoridades não encontraram forças morais para o corte de gastos sociais, ainda mais quando, em 2010, o carismático Presidente Lula foi substituído por Dilma Rousseff, um quadro burocrático do partido. A consequência disso foi o incontrolável aumento do déficit orçamentário, a revisão da classificação de crédito do país, a redução dos investimentos estrangeiros e a redução do ritmo de crescimento.

"Quanto às dificuldades políticas do atual Governo, elas estão relacionadas justamente com os momentos de êxito econômico. Durante os prósperos anos 2000, aconteceu um crescimento sem precedentes da renda da população. Cerca de 30 milhões de pessoas ascenderam à classe média. Os padrões de consumo se alteraram radicalmente. Foi criada no país uma grande quantidade de empresas modernas, privadas e bem administradas. Tudo isso contrastava com um sistema político arcaico, no qual a corrupção desde sempre foi a norma de comportamento e um meio de existência. A nova classe média ficava especialmente irritada com o fato de que, depois da chegada do PT ao poder, o número de escândalos de corrupção só fez aumentar. Quando na oposição, esse partido denunciou de modo ativo a corrupção nas elites tradicionais e prometia aos seus partidários um governo "honesto". A insatisfação era bloqueada pelo popular Lula. Com Dilma Rousseff, entretanto, todos os problemas políticos rapidamente voltaram ao primeiro plano.

"O impeachment, no entanto, não tem como resolver os problemas econômicos fundamentais do país: a queda de crescimento, a redução dos investimentos e o déficit orçamentário. Para sanar a economia agora são necessárias medidas bastante austeras e impopulares, tais como: corte dos gastos sociais, reforma do extremamente emaranhado sistema tributário, ampla privatização das companhias estatais, redução das pressões administrativas sobre o setor privado. Dificilmente o Parlamento apoiará um programa como esse. A população brasileira já se acostumou com um alto nível de assistência social (a exemplo do programa de assistência às camadas mais pobres da população, Bolsa Família, que cobre até um terço das famílias do país). Os parlamentares, por outro lado, já estão de olho nas eleições de 2018. O corte de gastos sociais teria um alto preço político.

"A isso tudo é preciso adicionar que o sistema partidário brasileiro vive uma profunda crise. Os partidos tradicionais perdem apoio rapidamente. Praticamente todos esses partidos, de um jeito ou de outro, estão envolvidos em escândalos de corrupção e não possuem programas bem pesados para a saída da crise. Existe uma grande probabilidade de o campo político no país, até as eleições de 2018, estar completamente reformatado. Segundo a minha compreensão, a maior parte dos grandes partidos do país não conseguirá se manter do jeito em que estão. Ou eles mudam toda a sua direção e os programas políticos ou perdem a maioria dos seus partidários. Essa indefinição política dificultará em muito a saída da situação econômica atual.

"Após o afastamento de Dilma Rousseff, o seu Vice-Presidente Michel Temer, do PMDB, assume o seu posto. No presente momento, ele é a figura de maior autoridade e respeito na política brasileira. Michel Temer esteve em Moscou inúmeras vezes e é defensor do estreitamento dos laços econômicos e culturais entre os nossos países. Ao mesmo tempo, é preciso compreender que no período de 'transição', até as eleições do novo presidente do Brasil, decisões estratégicas na área das relações internacionais não serão tomadas."

Brasil 247

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