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Brasil

08/06/2016


Indústria do aço no Brasil vive o pior momento da história

Críticas, reclamações e lamentações. A indústria do aço no Brasil, que nos anos 2000 ajudou a dar sustentação ao crescimento da nossa economia, está nas cordas. Em termos de consumo e vendas, voltou a patamares de 2009, vem demitindo milhares de pessoas e enfrenta hoje a pior crise de sua história. E o grande algoz tem nome: China. Ontem, durante a 27ª edição do Congresso Brasileiro do Aço, o setor apresentou uma agenda que, dirigida ao governo interino de Michel Temer, pretende retomar produção, empregos, consumo e, principalmente, exportações.

A crise interna, com retração de todas atividade nos setores que consomem o aço brasileiro, também afeta frontalmente esta indústria. Entre janeiro e março passados, a indústria da transformação acumula queda de 11,7%; construção civil, queda de 17,4%; bens de capital, de 28,8%; setor automotivo, de 27,8% e eletrodomésticos, de 22%. Juntos, estas atividades compram 80% do nosso aço. Além da questão econômica, o setor interno também traz variáveis políticas que produzem incerteza.

Por causa da crise intensa que vive, cinco dos 14 alto fornos que existem no País estão parados. O setor já demitiu 29.740 pessoas entre 2014 e 2015. A previsão é encerrar o primeiro semestre com mais 11,3 mil cortes. Presidente do Instituto Aço Brasil, Marco Polo Lopes disse ontem que a indústria adiou investimentos de US$ 2,9 bilhões que faria este ano. Se estes aportes fossem concretizados 9 mil pessoas não teriam perdido o emprego.

Diante de um quadro considerado catastrófico, o segmento já procurou o ministro das Relações Exteriores, José Serra. A ideia é se voltar para mercados externos. Mas é aí que surge o grande obstáculo chinês. Sem regras claras e atuando de forma predatória, repleto de mão de obra barata, a China produz muito, exporta muita e mantém preços bem abaixo do mercado global. E se for considerada uma economia de mercado (hoje é uma economia em transição), as reações à sua política distorcida de preços ficará muito mais difícil. O grande objetivo da indústria siderúrgica brasileira hoje e evitar que o governo brasileiro considere a China uma economia de mercado. Pequeno parêntesis: no início do governo Lula, de olho numa vaga no conselho de segurança da ONU, o governo brasileiro sinalizou que consideraria a China uma economia de mercado. As críticas internacionais foram intensas, a China não apoiou o pleito do Brasil para a ONU e a ideia, para o bem da nossa indústria, não prosperou.

Atualmente, a capacidade mundial de produção de aço é 750 milhões de toneladas.  Deste volume, a China corresponde a 400 milhões de toneladas.  E vai aumentar. A preocupação com a China não é só no Brasil. Tanto que existem mais de 150 acusações de dumping (vender abaixo do custo de produção para prejudicar o concorrente) neste segmento analisadas pela Organização Mundial do Comércio (OMC). O aço é o produto com mais políticas de proteção. Exatamente porque os países temem o gigante asiático. Uma pequena demonstração do poder de fogo da China é seu ritmo de produção. Em 15 dias os chineses fabricam o que o Brasil só consegue produzir em um ano. “Trata-se de um mercado predatório que ameaça não só a indústria siderúrgica, mas toda a indústria nacional”, diz Robson Braga, presidente da Confederação Nacional da Indústria.

Embora as ações para recuperação do setor não tenham sido detalhadas, sabe-se que a agenda entregue ao governo Temer prevê, no curto prazo, mecanismos de incentivo às exportações através do Reintegra, sistema que reduz a carga tributária de empresas exportadoras. No médio e longo prazos, o pleito é “correção de assimetrias competitivas”, que nada mais é que reduzir o chamado custo Brasil, claro, cobrando menos impostos do produtor.

Diário de Pernambuco

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