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Rio Grande do Norte

27/05/2016


Jornalista mantém viva a memória de escritores potiguares

 

Gustavo Sobral usa seu faro investigativo para remexer cartas, postais, rascunhos de textos, anotações em livros, manuscritos, papéis e mais papéis em busca de informações novas sobre importantes escritores e intelectuais potiguares, um deles é  Oswaldo Lamartine, a mais extensa de todas, que já toma um ano de pesquisa;, Zila Mamede, cujo ensaio está pronto; Berilo Wanderley, obra que sairá em breve pelo selo Caravela Cultural; e Newton Navarro (contos inéditos reunidos). Não importa onde esses documentos estejam, ele corre atrás, com determinação e curiosidade. Uma curiosidade que o retroalimenta. Que o faz partir de uma missão para outra, ou mesmo trabalhar em paralelo, em várias biografias ao mesmo tempo.

A determinação fez esse natalense, com formação em Jornalismo e Direito, ir a São Paulo se debruçar em documentos ainda não explorados na biblioteca do maior bibliófilo do país, José Mindlin. Lá, teve contato com a correspondência trocada entre Mindlin e a poeta potiguar Zila Mamede. Do que encontrou, foi atrás do acervo de Carlos Drumond de Andrade, outro que trocou cartas com Zila.

Da pesquisa sobre toda essa correspondência, ele escreveu um ensaio sobre a autora potiguar. Parte já foi publicado na revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras deste ano. Mas o texto inteiro, ainda espera para um momento certo de ser lançado em livro.

Em meio à pesquisa sobre Zila, aproveitando a estadia no Rio de Janeiro, Gustavo visitou o Instituto Moreira Sales, responsável por guardar vários acervos de importantes escritores brasileiros, dentre os quais Millor Fernandes, Paulo Mendes Campos e Rachel de Queiroz.

Foi nos documentos de Queiroz que Gustavo fez outra descoberta. A escritora cearense, autora do clássico “O Quinze”, trocou cartas com o escritor Oswaldo Lamartine (1919-2007). Na correspondência fica claro a importância de Oswaldo na construção de outro importante romance de Queiroz, “Memorial de Maria Moura”, publicado em 1992.

Ambientado no sertão nordestino e com uma espécie de cangaceira como protagonista, Rachel fez uso dos conhecimentos de Lamartine para escrever. “Ela tinha uns amigos que serviam como consultores, mas com o aprofundamento dos termos, eles disseram que não podiam mais ajudar e sugeriram o nome de Oswaldo Lamartine”, explica Gustavo, que, além de um texto em que Rachel faz elogios a Oswaldo, busca mais detalhes sobre o encontro entre os dois.

“Oswaldo desenhava muito, explicava a vestimenta do vaqueiro, com ilustrações, faz isso como recurso informativo. Essas ilustrações, essa troca de informações existe no acervo de Raquel de Queiroz. Pude consultar isso. Mas pode ser que ainda existam mais, porque o acervo de Rachel ainda não está todo catalogado”, detalha o autor.


João Maria AlvesEscritor Oswaldo Lamartine (1919-2007) será reeditadoEscritor Oswaldo Lamartine (1919-2007) será reeditado


Ainda investigando a vida de Oswaldo Lamartine, Gustavo também detalhou a relação do potiguar com outra mulher membro da Academia Brasileira de Letras, a também cearense Natercia Campos. Diferente de Rachel, Natércia não era sertaneja, mas era uma grande pesquisadora. Depois de ler a obra de Lamartine, escreveu para ele em busca de mais conhecimentos sobre o sertão para compor seu romance “A Casa”.

TRECHO 

Rachel de Queiroz sobre Oswaldo Lamartine

“Conheci Oswaldo Lamartine quando começava a escrever o Memorial de Maria Moura, no início de 1990. E eis que surge aquele anjo magro, só querendo falar de coisas que ambos gostávamos – quer dizer de sertão. Hoje meu amigo, meu irmão, Oswaldo Lamartine. Acho que, no Brasil, ninguém entende mais do sertão e do nordeste do que Oswaldo”, escreveu Raquel de Queiroz em um dos documentos encontrados por Gustavo no acervo sob a guarda do Instituto Moreira Sales.

O mesmo que fez com Rachel, servir como grande colaborador sobre a linguagem e vivência sertaneja, Oswaldo fez com Natércia. E, de acordo com Gustavo, Oswaldo, já viúvo, ainda chegou a manter um namoro com a cearense.

Dentro da pesquisa sobre Lamartine, Gustavo vê alguns problemas que estão atrapalhando a finalização do trabalho, a ser lançado em livro, mas sem prazo e sem editora confirmada. “É impossível localizar a obra completa de Oswaldo Lamartine no Rio Grande do Norte. No futuro as pessoas vão saber que ele escreveu um livro, mas não terão como lê-lo. Nenhuma biblioteca pública do Estado possui a obra completa de dele. Não tem como terminar um livro sobre o autor sem conhecer toda sua obra”, comenta.

Tribuna do Norte

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