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Brasil

20/05/2016


Lenine fala sobre música, carreira, e a desesperança com a política

entrevista exclusiva

Entrevista com o cantor Lenine publicada na edição 113 da Revista NORDESTE. Confira a edição completa AQUI


Quem Leva a Vida sou Eu

Com mais de 30 anos de carreira, cantor Lenine fala da alegria que ainda é subir em um palco, do processo de criação do último disco e, em contraste, a desesperança diante da política brasileira

Por Pedro Callado

Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, mais conhecido apenas como Lenine, passou os primeiros oito anos de vida no Recife indo com a mãe Dayse Pimentel, católica, à missa de domingo. Até que o pai, José Geraldo, socialista, decidiu que com essa idade a criança já podia discernir perante à vida. Assim, Lenine podia escolher o que ia fazer no domingo e ele escolheu a música.

Passou a ir com o pai às audições de domingo, onde ouvia desde o folclore russo e Tchaikovsky a Dorival Caymmi e Jackson do Pandeiro. Na adolescência tornou-se fã do rock n roll, curtindo os sons de Led Zeppelin, Zapa e The Police. Curiosamente, Lenine escolheu fazer vestibular de Engenharia Química, mas trancou o curso aos 20 anos e, em busca da música, mudou-se para o Rio de Janeiro onde vive até hoje.

Em turnê com o disco de 2015, Carbono (referência ao curso universitário), Lenine conversou com a Revista NORDESTE e contou um pouco sobre os 33 anos de carreira, a sua música, o jogo de palavras, a indústria musical, a relação com a França, chamada por ele de “2º país”, e como os filhos servem de “munição” intelectual no que diz respeito a grande variedade de artistas que surgem e ressurgem no Brasil e no mundo. Além disso tudo, ainda sobrou tempo para refletir sobre a política brasileira, que atualmente, para o cantor, tem sido motivo de frustração e desesperança.

Revista NORDESTE: Ao que parece você cresceu com dois elementos bem distintos, um católico e outro socialista. Você pode contar um pouco dessa infância e o que ficou mais forte em você desses elementos?
Lenine
: É o que é pelo que nos cerca. Além de toda a informação no entorno da sociedade, eu tive no núcleo familiar, meu pai, que já faleceu há um tempo atrás, e minha mãe, que ainda é viva, tiveram essa coisa muito sagaz de estimular os filhos à curiosidade. Então eu acho que mais do que uma polaridade, um dualismo entre ateu ou cristão, existia e sempre existiu uma coisa humanitária, uma tecnologia do afeto. E isso teve uma importância fundamental na minha vida e nos que me seguiram, meus filhos também, meus irmãos, e isso deve-se muito aos dois, meu pai e minha mãe.

NORDESTE: Por que Carbono?
Lenine
: Eu coleciono palavras, e Carbono já estava no meu baú a muito tempo. Até porque estudei na juventude, fiz vestibular para engenharia química, cursei 3 anos e meio. E carbono, a base da vida como conhecemos, tem uma importância fundamental. Mas principalmente por eu achar a palavra extremamente sedutora e por uma das características desse elemento ser a Alotropia, a facilidade dele se misturar e gerar outras moléculas com outras propriedades. Eu percebi que isso, de alguma maneira, também me define, não só o meu trabalho, mas a mecânica do meu trabalho. Não por acaso a primeira canção do disco Carbono abre com um refrão dizendo: ‘O que eu sou, eu sou em par. Não cheguei sozinho’, acho que isso é muito o DNA desse elemento, o Carbono.

NORDESTE: Você tem uma música favorita no disco?
Lenine
: Você pergunta a um pai qual filho é mais bonito? Você como um pai dessas proles, que são cíclicas, são de um projeto novo, é natural que você como pai dê uma atenção maior a esses meninos, os mais novos, e como pai, não fujo à regra. Eu toco no show todas as canções que compreendem o disco Carbono. Mas ora, são 11, e no show, eu toco o dobro disso. Tem canções de outros períodos, de outros momentos, que eu inseri dentro dessa ambiência, que é Carbono.

NORDESTE: Ouvindo “Quem leva a vida sou eu”, me lembrei da música do Zeca Pagodinho. Existe alguma relação?
Lenine
: Evidentemente, eu só fiz a minha por causa da do Zeca. Na verdade não é dele, mas ficou famosa na voz de Zeca, e tem uma compreensão diametralmente oposta a que eu levanto na minha. Eu sou amigo do Zeca, um queridíssimo, e a canção é Deixa a Vida me Levar, e eu corroboro ao contrário: ‘Não, deixa a vida me levar não, quem leva a vida sou eu’. Lógico, surgiu como estímulo desse grande ícone que ficou célebre e famoso na voz do Zeca Pagodinho.

NORDESTE: Como tem sido a reação do público durante a turnê?
Lenine
: Ah, é sempre bacana, até porque é só no momento com o público, onde você tem esse encontro mais íntimo, só ali você consegue mensurar realmente como está chegando o que você faz. Esse é o momento melhor da história, você faz um disco para gerar um show, para ter esse encontro. É sempre muito bacana e é curioso para mim, depois de mais de 30 anos fazendo isso, continuar me divertindo da maneira como me divirto. Então isso é o melhor da história. Isso tem a ver com esse público.

NORDESTE: Você já falou que Olho de Peixe é o disco mais importante da sua carreira. Ainda é? Por quê?
Lenine
: Não, eu acho assim, cada disco tem sua importância. O grande significado que teve o Olho de Peixe para mim foi descobrir muito cedo, através do Olho de Peixe, e com Suzano e com Denilson, que a música brasileira que a gente estava fazendo naquele momento dialogava com o mundo, acho que isso foi bacana. E isso foi um caminho que se abriu e que eu venho trilhando. Realmente a música me leva a dizer que esse primeiro não era tão grande quanto a gente imagina que é. Isso tudo que me leva a ter essa sensação é a música, cada disco que eu faço é lançado em vários lugares. Cada disco teve uma importância para um salto maior. Olho de Peixe foi um importante salto porque confirmou essa possibilidade.

NORDESTE: Na música Olho de Peixe você diz: “Se na cabeça do homem tem um porão. Onde moram o instinto e a repressão, diz aí, o que tem no sótão?” Eu gostaria de saber o que te levou a construir essa letra, e o que é que tem no sótão?
Lenine
: Essa é a grande questão da humanidade (risos). A gente não quer olhar para cima, é só o porão. Então o que é o sótão, é essa coisa para cima. Ah, eu lembro com muita clareza, quando eu tive o desejo de escrever essa letra, ao terminar de ler um livro maravilhoso chamado O Oculto, que corrobora uma série de coisas, o que é realidade, o que você percebe de realidade, e como você consegue chegar perto da realidade apesar dos limites de percepção que você tem, então a canção fala muito sobre isso.

NORDESTE: Você saiu do Nordeste para o Sudeste, buscando uma carreira musical. Outros artistas também fizeram isso, como Chico César. Para um nordestino fazer sucesso nacionalmente, precisava sair? Ainda é assim?
Lenine: Não acho que seja ainda desse jeito. Até porque naquele tempo se monopolizava muito tudo, porque tudo era produzido a partir do Sudeste, as principais televisões, toda a indústria de disco era no Rio e em São Paulo, de uma maneira monopolizou os veículos e existia essa migração generalizada de todos os Brasis para cá na esperança de ter um espaço. Mas eu acho que caiu, a gente está diante de uma pulverização de outra maneira, aquela forma do que era sucesso, você frequentar duas ou três rádios, ir a dois ou três programas, e isso já significava uma exposição. Não significa mais nada. E aí isso é tudo muito mais pulverizado. E tem muitas maneiras de você pesquisar, então está tudo mudando muito rápido. A gente nem tem ainda todos os elementos para fazer a equação disso. As possibilidades são muitas.

NORDESTE: Você hoje é considerado um dos grandes compositores brasileiros da atualidade, quais são as suas maiores referências e quem te inspira ainda hoje?
Lenine: Ah, muita gente me inspira e mais do que tudo, o fato de ter três filhos, os três de idades diferentes, que até hoje me municiam muito do que está sendo produzido, até por conta dessa pulverização que falamos a pouco. Esses três canais me aproximam muito do que está sendo produzido, e tem muita coisa bacana e diversas áreas, diversas formas de expressão, então eu continuo atento. O que eu posso te dizer? Eu continuo muito atento, velho. Até porque meu trabalho, de alguma maneira, tem a ver com crônica, com estar atento, refletir aquilo que bate em mim de alguma maneira, que me emociona de alguma maneira.

NORDESTE: Entre novos músicos, quem você indica?
Lenine: Cara, primeiro que novo é aquilo que a gente esqueceu, não tem nada de novo. E nem precisa ser novo. E, pô, qualquer novidade, faz uma boa pesquisa no Google (risos). O fato é que tem muita coisa boa, por exemplo A Rua, uma banda de Recife que eu acho genial, a Duda Brack, que lançou um disco bacana, a Posada e o Clã, fez um disco belíssimo, tem a moçada do 5 a Seco, de São Paulo. Eu acho que tem tanta coisa legal que se você for ver o setor, por região, você vai encontrar muita coisa bacana. Até porque, democratizou muito o fazer, ficou mais fácil. Você não precisa daquele estúdio, ser um iniciado nas artes da física, da acústica, é só gravar bem. Isso deu uma acessibilidade. Então está se produzindo muita coisa bacana.

NORDESTE: Em listas de mais ouvidos, vídeos mais vistos no Youtube, prevalecem o funk e o sertanejo universitário. Isso é um problema? Como você vê o atual cenário musical brasileiro?
Lenine: Opa, isso não. Eu estava produzindo uma faixa com um amigo de Camarões. Estávamos gravando junto e eu ia fazer um show em Belém no dia seguinte e eu disse para ele: ‘ó, amanhã a gente não vai gravar porque eu vou fazer um show’. Aí ele perguntou para mim, em francês: ‘mas é muito longe daqui?’. ‘Não, umas quatro horas’. Aí ele disse: ‘de carro?’. Eu disse: ‘não, de avião’. Aí ele parou e ficou muito sério, olhou para mim e disse: ‘quatro horas de avião sem sair de cima do país?’. E eu disse ‘é, e esse percurso poderia ser bem maior’. E ele me disse outra coisa que só um estrangeiro pôde perceber: ‘e vocês todos falam a mesma língua e se entendem falando a mesma língua?’. ‘Lógico’, e ele disse: ‘ó, eu sou de Camarões, nós temos alguns dialetos e se eu quero me fazer entender realmente, eu tenho que falar em francês’. Então o Brasil, eu dei esse arrodeio todo, para falar que o Brasil ainda está se descobrindo, cara. Somos uma coisa de dimensões tão gigantescas que a gente nem arranhou a superfície disso. E agora, que já não precisa mais esse êxodo, como eu fiz, como uma geração anterior a minha fez, acho que já tem uma geração que está conseguindo sobreviver sem precisar sair, e isso que está acontecendo assim dessa maneira é natural, e aí começam a surgir polos, como em Belém, como em Fortaleza, então isso vai descentralizar, pelo menos eu acredito nisso.

NORDESTE: Sua carreira internacional é bastante sólida, parece que na França você tem uma grande penetração. A que você atribui essa proximidade com os franceses? Você pode falar sobre como é cantar fora do Brasil?
Lenine
: No que diz respeito aos franceses, preciso ser honesto. Eles têm uma curiosidade artística profunda por tudo que é planetário, o próprio Jazz sobreviveu na década de 40 lá na França. Eles têm um interesse generalizado por tudo. A música africana a gente começa a conhecer quando os franceses começam a produzir mais coisas, mesmo a Cesaria Évora, apesar de cantar em português, ela realmente fez sucesso foi na França. Então isso não foi só comigo, a França teve essa curiosidade, tem até hoje. Eu acho que me ajudou muito também na medida em que, somos todos latinos, de uma maneira ou de outra eles percebem também o meu trabalho nas palavras, na poesia, isso também é um outro atrativo. Mas quando eu estou tocando lá pelos nórdicos, Noruega, Dinamarca, ou os Anglo-Saxões, é a música que é o anzol de captura. As palavras só quando o cara pega o disco e vê as letras traduzidas. E o meu trabalho sendo uma mistura de palavras e sons eu me divirto infinitamente mais nos lugares onde sei que sou melhor compreendido. A França foi e é como um segundo país para mim.
 

NORDESTE: Além da poesia das letras, seria correto dizer que você tentar fazer com que as pessoas tenham algum tipo de experiência sensorial com a música?
Lenine: Ah sim, isso é bacana porque vem desde o Chão, quando eu fiz o projeto. O objetivo era brincar com as parcialidades, com quadrafônicos, com surround e até hoje nos meus shows tem esse elemento, continua em busca dessa coisa, desse momento de encontro com o público, que é a coisa mais interessante que existe. No final das contas é isso, realmente ser uma experiência especial e, evidentemente, que o som é uma grande ferramenta de tocar as pessoas. Então eu sou um cara que tem essa real dimensão do que é fazer o espetáculo e tocar a alma das pessoas naquele momento onde dividimos e ritualizamos o fazer e ouvir.

NORDESTE: Como você tem acompanhado o desenrolar da política brasileira?
Lenine: Desenrolar não, está se enrolando cada vez mais, cara. Eu ando muito desesperançoso, frustrado (em ver) o grau de caos que chegou os Poderes no Brasil. Os Poderes, eu falo de uma maneira geral porque a gente vê aí se perpetuando de uma maneira perene, nos currais eleitorais, as mesmas pessoas, o Congresso. Eu tive a oportunidade de conhecer o Senado e confesso que ando muito desesperançoso. Uma falta de escrúpulos generalizada. Um impeachment usado desta maneira, de uma ironia histórica tremenda com alguém como a Dilma, isso tudo por causa de um jogo político do presidente da Câmara que é o Cunha, gente! E o presidente do Senado é Renan Calheiros! Nós conhecemos todos esses a tanto tempo. Então eu confesso que eu estou muito desesperançoso.

NORDESTE: A Dilma deveria sair da presidência?
Lenine: Lógico que não, o que precisa é essa fratura ficar realmente exposta. O que precisa é a ficha limpa, a Lei de Ficha Limpa, que passou por cima de tudo isso. O que precisa realmente é lavar uma coisa que a gente nunca pôs em cheque, é a nossa história. Do que sofremos nesses últimos 30 ou 40 anos. E a ironia de tudo isso. Eu acho que a gente precisa realmente lavar essa roupa suja, a gente precisa colocar os pingos nos is. E… enfim. Isso dá uma desesperança.
 

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