menu

Brasil

30/12/2016


Líder do MTST projeta convulsão social para 2017

exclusivo!

Por Paulo Dantas

Revista NORDESTE: Como você tem visto o crescimento da direita no mundo.
Guilherme Boulos:
Existe em nível internacional uma crise de representatividade. O sistema politico, a democracias liberais passam por um processo de esgotamento na sua forma, no seu modelo, não conseguem responder a demanda de participação política, e isso gera um sentimento anti-político no mundo todo, quem tem sido mais capaz de surfar nesse sentimento de anti-político, por incrível que seja, tem sido a direita. Eu digo por incrível porque historicamente foi a direita que inventou os sistemas políticos que estão em vias de falência, mas tem conseguido oferecer discursos geralmente de intolerância, de ódio na Europa e nos EUA, atribuindo ao desemprego e a crise econômica ideias muitas vezes racistas, machista, xenófobas. E a solução se apresenta como algo de fora da política. O Donald Trump é o maior exemplo disso, mas antes dele o Berlusconi já tinha feito o mesmo na Itália dentro de um cenário de crise parecido. Foi apresentado como grande empresário, que não é político, e patrocinando uma onda de direita conservadora. Então no mundo hoje se tem um cenário de fortalecimento dessa perspectiva conservadora sendo apresentada como suporte de saída da crise. São sempre momentos de polarização e na crise atual quem tem conseguido surfar na onda, de forma geral, tem sido muito mais a direita do que a esquerda.

 

NORDESTE: A esquerda não consegue atender esse desejo de mudança?
Boulos:
No caso do Brasil… a onda conservadora é internacional, mas no caso da esquerda brasileira isso se deu num processo de um ciclo. O Partido dos Trabalhadores foi hegemônico da esquerda no Brasil nos últimos 35 anos e conseguiu de algum modo unificar a maior parte dos movimentos progressistas, os movimentos sociais, a intelectualidade progressista, num campo esquerdo. Hoje não tem mais condições de ter hegemonia na esquerda brasileira, no entanto, as alternativas que surgiram, a exemplo do PSOL, no campo partidário, uma serie de movimentos sociais, no campo, de mobilização de rua, não temos ainda condições de ocupar esse espaço deixado pelo PT. No Lugar do PT tem um vácuo que ajuda a dimensionar a crise brasileira. O PT não tem mais força e autoridade para hegemonizar, e ainda combalido, não só pelos seus erros, mas por uma ofensiva brutal anti-petista, midiática, politica, jurídica… não conseguiram construir ainda um novo polo de referencia que aponte para um novo projeto de esquerda, da renovação da esquerda.

 

NORDESTE: A esquerda precisa fazer mea culpa?
Boulos:
Não acho que a questão seja mea culpa. Acho que a esquerda precisa aprender… e ai não da para ter uma lição única da esquerda em nível mundial, a esquerda brasileira precisa aprender com os erros e caminhos que fez quando esteve no governo. Está cada vez mais claro no Brasil, como na América Latina. Isso se deve em grande parte ao agravamento da crise econômica, que não há mais espaço para avanços sociais, mesmo que pontuais, sem conflitos, sem rupturas. Sem rupturas com o sistema politico fechado à participação popular, sem enfrentamento de privilégios econômicos históricos das elites. Então o projeto de acreditar que é possível governar com um pacto que atenda interesses opostos, como foi feito aqui no Brasil nesses 13 anos e que teve, é verdade, seus avanços, são inegáveis, mas também mostra hoje seus limites. Esse projeto não tem mais condições de ser reproduzido na sociedade brasileira, é preciso que o PT aprenda com isso e possa apresentar um projeto contra hegemônico, um projeto de enfrentamento que envolva reformas populares estruturais. E para além disso tem uma renovação que precisa ser feita do ponto de vista do método, da forma… a esquerda perdeu as ruas, perdeu a disputa por enraizamento, perdeu muito da sua capacidade de mobilização. Então… uma renovação da esquerda passa também pela construção de um novo ciclo de movimento, passa por entender que a politica não é feita só nas casas parlamentares, a rua é um espaço decisivo para fazer politica. Esse é um tema fundamental que precisa ser incorporado pela futura esquerda.

 

NORDESTE: Como você tem visto a repressão exercida pela Polícia, especialmente em Brasília?
Boulos:
Essa repressão revela o aumento da criminalização das lutas populares feitas por um governo que não tem a menor condição de atender as demandas básicas. Essa PEC (contra corrupção e estabelecendo o Teto de gastos) em especial é um escarnio, ela é um ataque feito a maioria do povo brasileiro. Desde o fim da ditadura militar, é uma desconstituinte, é evidente que teriam resistências na rua e posições contrarias. Agora um modelo com um programa tão agressivo e anti popular como esse, só pode recorrer a repressão. Esse tipo de praça de guerra que tomou Brasília vai voltar a acontecer.


NORDESTE: E movimentos mais agressivos por parte da esquerda, como Black Blocks, como você vê?
Boulos:
Eu acho que as formas de mobilização são contra os ataques que tem sido feitos a formas legitimas de mobilização, cada movimento estabelece, tem sua tática, é importante que essa táticas, que as opções de cada movimento, sejam respeitadas, consideradas e respeitadas. Para nós, nesse momento a questão fundamental ao se tratar de violência e manifestação, não é dos Black Blocks, é da Polícia, que tem protagonizado ações extremamente repressivas, como foi essa de Brasília e como tem sido em varias outras partes do país.

 

NORDESTE: Quais são as ações previstas do MTST, para 2017 e quais as perspectivas para o próximo ano?
Boulos:
Olha, nós temos um programa de ataque… de desmonte de direitos sociais no Brasil, a reforma da previdência… essas vão ser as pautas fundamentais que vão unir o movimento social brasileiro na luta de resistência. Vão ocorrer mobilizações, movimentos de rua, os métodos que os movimentos sempre usaram, bloqueios de avenidas, paralisações e greve, manifestações e mobilizações de rua.. é isso que vai ocorrer. 2017 deve ser um ano de aprofundamento do conflito social, de agravamento da crise econômica e politica, ao ponto talvez de convulsão social no Brasil por conta das politicas de austeridade e das falências dos estados e agravamento do desemprego. Nesse momento a esquerda tem que pensar em como construir a resistência em 2017.

 

NORDESTE: Como você vê a direita que surge hoje, pensando em Bolsonaro, MBL. É mais conservadora? Que direita é essa?
Boulos:
Você tem uma nova direita, que é produto dessa polarização, e que ganha a audiência com discurso de vingança de ódio para uma parte da sociedade. Essa direita saiu do armário, passou a defender abertamente aquilo que antes se envergonhava em fazer. Isso é preocupante, porque estimula a intolerância, estimula preconceitos abertos na sociedade, então essa direita precisa ser combatida, precisa ser enfrentada, desde o ponto de vista das suas ideias, que são insustentáveis, mas também do ponto de vista politico e de rua. Não é possível ver a marcha do fascismo avançar no Brasil e ficar pacificamente assistindo.
 

Notícias relacionadas