menu

Política

04/01/2016


Mário Sérgio Cortella fala à NORDESTE como superar a crise atual

Exclusivo NORDESTE

Por Paulo Dantas

A Revista NORDESTE conversou com o filósofo e ex-professor da USP, Mário Sérgio Cortella, para saber como passar pelo ano de 2016, sem se deixar abatar pela crise econômica e ética que aflige o país. O professor, famoso por sua abordagem mais humanística, afirma, entre outras coisas, que é preciso tranquilidade para passar pela turbulências, mas pede para que o brasileiro não se acomode. Na entrevista que segue, Cortella, também fala sobre religião e corrupção. Confira.

Revista NORDESTE: Hoje o Brasil vive um momento de profunda crise econômica e política, com aumento do desemprego e fechamento de empresas. Na sua visão, como passar por esse momento sem se deixar contaminar pela ansiedade e angústia?
Mário Sérgio Cortella: A primeira coisa é que nós precisamos ter tranquilidade na transição sem nos acomodarmos. Isto é, existe um momento de turbulência, mas ele não é invencível, não é imbatível. Nós já tivemos outros momentos na história em que houve também um sacudir das nossas estruturas e nós seguimos adiante. O que exige agora é inteligência e paciência; paciência não é lerdeza – uma pessoa lerda é aquela que não tem competência. Uma pessoa paciente é aquela que tem habilidade e conhecimento. Por isso, o momento exige paciência sem lerdeza, exige capacidade de olhar aquilo que já se fez e ter mais inteligência estratégica do que a gente vinha usando, porque nadar contra a corrente exige um esforço maior.

NORDESTE: Nas redes sociais e na mídia o tema tem sido combate a corrupção. Por que o senhor acha que esse tema hoje é tão urgente?
Mário Sérgio Cortella: Porque vem aparecendo o tempo todo, dado as novas tecnologias, dado a impresa livre, dado a uma democracia mais sólida, como sendo aquilo que está saindo às claras, isto é, é o grande tema hoje porque a gente percebeu que a nossa nação vem sendo há décadas minada, vem sendo exaurida em relação ao desvio do dinheiro de natureza pública e privada e portanto isso coloca um prejuízo para o conjunto social. Aí que a corrupção aliada nas suas múltiplas faces, não apenas ao que se refere a sua atividade pública, ela é sim tema prioritário para a gente ter uma nação mais decente e portanto com uma vida mais fértil para todas e todos.

NORDESTE: Há quem fale que a corrupção está no dia a dia do brasileiro e faz parte da nossa sociedade. O senhor concorda com essa afirmação?
Mário Sérgio Cortella: A corrupção é uma possibilidade humana, mas ela não é uma obrigatoriedade. Nós somos passíveis de sermos corruptos, qualquer um e qualquer uma. A corrupção nunca desaparecerá na totalidade porque ela é fruto da nossa liberdade de fazer o maléfico e fazer o benéfico. Se nós fossemos um ser sem liberdade, nós somos pessoas livres e podemos fazer o bem e o mal. Isto significa que a corrupção é uma possibilidade, tanto que quase a totalidade dos brasileiros é decente no seu dia a dia. A corrupção existe sim nas nossas relações no mundo comum, mas ela não é tão estrondosa, fosse assim nós teríamos degradado já de vez a nossa convivência. A corrupção existe sim no nosso dia a dia, mas ela não é algo que tem aceitação da maioria das pessoas. Ela é algo de um grupo de pessoas que não é exclusivamente de governo, mas de um grupo de pessoas que esquecem do que significa decência. Então há a justificativa de que ela existe no geral, está espalhada, mas ela não é generalizada.

NORDESTE: A ética é um bem que precisa ser cultivado? O que é ser ético? Há uma forma de aprender isso?
Mário Sérgio Cortella: A ética é a estética de dentro. A ética é a capacidade de ter uma vida que é bela, honrada, decente e compatível com uma existência coletiva. A ética tem dois movimentos: ela pode sim ser ensinada, claro, ela resulta de uma formação, nenhum de nós nasce pronto. Isso significa que a ética tem que ser ensinada pouco a pouco para que a gente vá tendo valores que constituam a nossa convivência. Aí que a ética acaba sendo o cuidado com a saudabilidade da vida, ela exige formação e atenção contínua.

NORDESTE: As perspectivas para 2016 não são das melhores. Qual o caminho para manter um sentimento mais positivo em relação ao futuro?
Mário Sérgio Cortella: É preciso ter uma esperança ativa, aquela que vem do verbo esperançar e não do verbo esperar. Uma pessoa que quer coisas melhores precisa ir buscar, não basta esperar. Nesta hora é preciso lembrar do grande paraibano Geraldo Vandré: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Isto é, ir em buscar e não ficar esperando. Por isso se terá o positivo onde se vai fazer o positivo. Como diz o texto, é melhor acender uma vela do que ficar amaldiçoando a escuridão.

NORDESTE: O sentimento religioso hoje, tanto no Brasil como no mundo, tem incitado a intolerância e a guerra entre as pessoas. Por que a religião se desvirtua a esse ponto e qual o papel da religiosidade?
Mário Sérgio Cortella: Algumas religiões são capazes de agressividade e violência. A história humana mostra o quanto algumas religiões foram capazes da brutalidade. Mas isso não é específico ou exclusivo de algumas religiões e nem é de todas. Nós observamos alguns grupos religiosos que assim são. O papel da religiosidade é oferecer para as pessoas o sentido da própria vida que ela tem, explicar as razões da existência, o porquê da presença do mal, a realidade da própria morte, isto é, acalmar a vida de algumas pessoas. Agora, algumas religiões têm sido malévolas naquilo que fazem.

Para conferir a Revista NORDESTE na integra gratuitamente clique aqui
 

Notícias relacionadas