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Bahia

29/06/2016


Médicos denunciam o Hospital Couto Maia

A simples inexistência de luvas para procedimentos médicos básicos, e de medicamentos como analgésicos, antiinflamatórios e antibióticos, além da falta de estrutura nos leitos de UTI, macas enferrujadas e insuficiência de kits laboratoriais para análises bioquímicas, já seriam motivos suficientes para uma paralisação das atividades e intervenções das autoridades médicas e sanitárias do Estado.

Em carta-denúncia encaminhada ao Conselho Regional de Medicina, Sindicato dos Médicos, Ministério da Educação, Associação Nacional de Médicos Residentes, Comissão Nacional de Residência Médica e Secretaria Estadual da Saúde, um grupo de médicos residentes do Hospital Couto Maia, especializado no atendimento de doenças infecto-contagiosas, denuncia o completo sucateamento da unidade, que pertence à Secretaria Estadual da Saúde (Sesab).

A carta é assinada pelos médicos residentes Douglas Queiroz Michelato Monteiro, Karine Grillo Rosa, Raíssa Bastos de Carvalho Couto, Rachel da Silveira Lucas Matos, Lara Andressa Dourado, Larissa Zumaeta Costa e Rafael Campos Hermida. Na carta os médicos afirmam que “o hospital encontra-se em completo estado de abandono”, referindo-se às condições mínimas de trabalho. “Chegamos à conclusão de que não há a menor possibilidade de assistência médica nesta unidade”, diz o documento.

Um dos médicos, Douglas Michelato, informou que os próprios pacientes que para lá são encaminhados, depois de passarem por um processo de triagem na Central de Regulação da Secretaria Estadual da Saúde, correm riscos de terem seus quadros agravados, ante a insalubridade do ambiente em que permanecem internados. Segundo ele, a precariedade das instalações e a falta de estrutura “são faltas inadmissíveis para o funcionamento de qualquer serviço de saúde, principalmente o de infectologia”, afirmou, referindo-se ao Couto Maia, que recebe pacientes portadores de doenças como o IIV, Hepatite, leptospirose.

Apuração

O presidente do Sindicato dos Médicos da Bahia (Sindimed), Francisco Magalhães. Disser que tomou conhecimento do documento dos médicos do Couto Maia e vai cobrar da Secretaria da Saúde (Sesab), uma resposta. Segundo ele, o Hospital Couto Maia é antigo e suas instalações são reconhecidamente precárias, por causa do longo processo de deterioração física.

Magalhães explicou que há quatro anos que existe a perspectiva de transferência do hospital, localizado no bairro do Mont Serrat, para uma área no bairro de Águas Claras, na periferia de Salvador, onde funcionava o antigo Hospital D. Rodrigues de |Menezes, destinado ao atendimento de portadores de hanseníase. O Hospital D. Rodrigues funcionou até meados dos anos 80 do século passado como “leprosário”, termo utilizado época para designar o local onde os portadores da hanseníase ficavam confinados. “O projeto, contudo, está parado”, disse.

Na carta endereçada às autoridades de saúde do Estado e ao Ministério da Educação, os médicos residentes dizem que o Couto Maia Jam não oferece condições de receber pacientes, por absoluta falta de estrutura de atendimento. Segundo os médicos, medicamentos como dipirona, azitromicina, anti-hipertensivos, anticoagulantes, antibióticos, além de material de curativos e luvas para procedimentos básicos, estão em falta, “com risos para os pacientes e para os profissionais de saúde”.

OP documento ainda chama a atenção para o fato de que no hospital não há, mais condições de serem realizados exames laboratoriais, por causa das instalações precárias e falta de materiais, como kits para análises bioquímicas e sorológicas, eletrólitos, uréia e creatinina. Exames como os de ultrassonografia e tomografias também não são feitos.

O documento também enumera os problemas nas instalações físicas, como os banheiros, qualificados como “insalubres”, rede elétrica danificada, circuito de oxigênio em estado precário e monitores cardíacos, oxímetros, desfibriladores e macas para transportar pacientes quebradas. “Tal situação revela um perigo iminente para os pacientes internados e para a equipe profissional”, diz.

Projeto prevê unidade em Águas Claras

No final de 2012 o Governo do estado anunciou a construção do novo Hospital Couto Maia no bairro de Águas Claras, no terreno onde durante várias décadas funcionou o antigo leprosário de Salvador, denominado Hospital Colônia Dom Rodrigues de Menezes, destinado ao tratamento e confinamento dos pacientes portadores da hanseníase (lepra, denominação vigente à época de funcionamento do hospital).

Há quatro anos, quando fez o anuncio, o Governo do Estado informou que a obra do novo Couto Maia seria feita mediante Parceria Público-Privada (PPP). A PPP se restringiria a construção, manutenção e operação de serviços não clínicos, permanecendo com o Estado, sob a responsabilidade de servidores públicos, a assistência direta à saúde, assim como a gestão clínica e administrativa da unidade.

A justificativa para a PPP foi em função das limitações físicas encontradas, da necessidade de requalificar a assistência a doenças infecciosas no estado, de ampliar a qualificação dos profissionais de saúde na assistência a estas doenças, de fortalecer a produção tecnocientífica do estado, além de consolidar uma estrutura adequada para o enfrentamento de epidemias e surtos, e tornar mais eficiente o gasto público

Estrutura

O novo Couto Maia, batizado agora de Instituto Couto Maia, foi projetado para ter assistência à saúde de pacientes portadores de doenças infecciosas em serviço ininterrupto (24h por dia, sete dias por semana, com atendimento à urgência e emergência de casos graves e de todos os tipos de complexidade e assistência ambulatorial. 

Servirá também como centro de ensino, com residência médica em Infectologia, estágios para residentes de outras áreas médicas (clínica médica, pediatria, neurologia) e estágio para área de saúde em geral (medicina, serviço social, enfermagem, nutrição, fisioterapia, farmácia, arquivo médico). Foi projetado para ter unidades de urgências e emergência em doenças infecto-contagiosas, com 155 leitos, dos quais 30 de isolamentos e 20 de UTIs adulto e pediátrica. Contará ainda com Centro Cirúrgico, serviço de reabilitação, centro de ensino e pesquisa.

Sesab diz que nova unidade está sendo construída

Em nota emitida no início da tarde, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesab) disse reconhecer a precariedade das estruturas físicas do Hospital Couto Maia, mas nega a interrupção de qualquer procedimento de atendimento aos pacientes que para lá são encaminhados. A Sesab diz, ainda, que o hospital, pela idade da sua construção – 163 anos, está com a estrutura física degradada, e que mantém os investimentos para a sua manutenção.

Contudo, a nota da Sesab admite que houve diminuição dos recursos destinados à manutenção do hospital, por conta da construção do Instituto Couto Maia. “Por conta de problemas com a construtora, a nova unidade ainda não foi entregue. O processo, contudo, diz a nota da Sesab, foi retomado, e ontem foi publicado no Diário Oficial do Estado, a Resolução N° 01/16 na qual o Conselho Gestor de Parceria Pública Privado aprova o segundo aditivo do contrato de Concessão Administrativa do Instituto.

Referência

O Hospital Couto Maia atende em média dois mil pacientes por mês. O hospital é o único na Bahia especializado no tratamento de doenças infecto-contagiosas, como meningite, tétano e leptospirose, e tem o vírus HIV como principal causa de internações. Tem capacidade para acomodar 101 leitos, entre os quais, seis de Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e 30 leitos pediátricos, além de ambulatórios para pessoas portadoras do vírus HIV, e para assistência a pacientes com hanseníase.
Construído em 1853, o Couto Maia foi construído para ser um hospital de isolamento para atender pacientes com febre amarela vindos de navios mercantes que aportavam na Bahia. O local era desabitado, arborizado e com uma forte ventilação, considerado pelos especialistas como um ambiente propício para acolher, tratar e controlar as epidemias da época. 

O hospital foi importante no atendimento aos pacientes nas grandes epidemias, como cólera (1855), peste bubônica (1904), gripe espanhola (1918), varíola (1919) e febre tifóide (1924). O nome Couto Maia foi dado em 1923, ano em que o governador Góes Calmon inaugurou o atual prédio, e homenageou o primeiro diretor, substituindo o antigo nome de Hospital de Isolamento do Mont Serrat, pelo nome atual.

Tribuna da Bahia

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