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Brasil

31/03/2015


Mesmo com mudanças no governo, PMDB age para “sangrar” Dilma

Apesar dos ajustes feitos pela presidente Dilma Rousseff na articulação do governo, da inclusão do vice-presidente Michel Temer no núcleo duro do Planalto e das promessas de liberar a indicação para novos cargos, o PMDB emite sinais de que permanecerá na estratégia de “sangrar” Dilma e o PT.

A estratégia tem como objetivo impedir que a crise de imagem, que hoje tem como alvo a presidente e seu partido, mude de foco e acabe envolvendo o Congresso e os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ambos investigados por suposto envolvimento no esquema desmantelado pela Operação Lava Jato.

A possível nomeação do ex-presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), para o Ministério do Turismo é mais um capítulo das dificuldades enfrentadas pelo governo na relação com o PMDB. Dada como certa no fim da semana passada, a ida de Alves para a pasta virou alvo de novas especulações por conta da demora da presidente em formalizar a nomeação.

Da parte do Planalto, interlocutores passaram a considerar a nomeação insuficiente para ter o PMDB como aliado nas votações no Congresso, principalmente em relação às medidas fiscais. Um final de semana foi o suficiente para que os membros do maior partido aliado do Planalto passassem da expectativa da nomeação, na sexta-feira, para o discurso de negação do desejo pelo cargo, que mais se ouviu na segunda-feira.

A demora em anunciar Alves no Turismo tem motivo na incerteza sobre os efeitos políticos da nomeação. Além de esperar um sinal de apoio nas votações, que não chegou a acontecer, a presidente teria avaliado que dar o Turismo a Henrique nada agregaria. Pior, poderia contribuir para desagradar, ainda mais, ao PMDB do Senado, já que desalojaria da pasta um apadrinhado do presidente da Casa, Renan Calheiros.

Além disso, nos bastidores, alguns peemedebistas avaliam que a própria sobrevivência política de Cunha e Renan depende do embate com o Planalto. Entre integrantes da sigla aliada, é comum a avaliação de que interessa mais às duas maiores lideranças do partido no Congresso que a crise de imagem devido às denúncias de corrupção tenha como alvo a presidente Dilma, apesar de Cunha e Renan serem alvo das investigações. É comum também no PMDB a defesa da estratégia de “sangrar” Dilma e o PT, obtendo, desta forma, a aprovação ou a complacência das ruas.


Outro fator que continua pesando na difícil relação do PMDB com o Planalto é a demora nas definições em relação aos cargos de segundo escalão. Na semana passada, Dilma teria oferecido como recompensa a Renan, diante da troca no Turismo, o controle da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), prontamente recusada pelo presidente do Senado.

A insatisfação de Renan ainda tem como motivo a recusa de Dilma em dar a ele a prerrogativa de voltar a indicar o presidente da Transpetro. Até o ano passado, a subsidiária da Petrobras era comandada por Sérgio Machado, apadrinhado de Renan. Machado deixou a empresa após as investigações que apontam seu envolvimento com o esquema investigado.

Pautas da oposição

Na intenção de criar constrangimentos ao governo, o PMDB tem se dedicado a defender semanalmente pautas que encontram repercussão nas manifestações de rua e que são contrárias às ideias defendidas pela presidente Dilma, inclusive na campanha do ano passado. A última investida de Renan ocorreu nesta semana.


Após uma reunião de cerca de duas horas com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, com o objetivo de discutir a votação do pacote fiscal, o presidente do Congresso saiu em defesa da autonomia do Banco Central, pauta combatida com ênfase pela campanha petista no ano passado, em contraposição à proposta sugerida pela adversária Marina Silva.

“Nós conversamos sobre algumas medidas adicionais e eu aproveitei para sugerir ao ministro a independência do Banco Central com mandatos descoincidentes com o de presidente da República”, disse Renan ao sair da reunião. O apoio às medidas, esperado pelo Planalto, não ocorreu. Ao contrário. Renan se disse preocupado com o teor das medidas. “Eu disse ao ministro Levy que nós estamos preocupados com a qualidade do ajuste, não apenas com o tamanho do ajuste, mas como ele será”, disse o presidente do Congresso.

Uma semana antes, o PMDB embarcou em outra bandeira da oposição, defendida principalmente por Aécio Neves, adversário tucano de Dilma em 2014: a redução do número de ministérios. Esta bandeira chegou a ser defendida inclusive pelo vice-presidente da República, Michel Temer, que, ao lado de Cunha, em evento no Rio Grande do Sul, disse que o partido está disposto a abrir mão de pastas para que o governo corte postos na Esplanada.

Cunha é autor de um projeto que reduz de 39 para 20 o número de ministérios do governo federal, exatamente o número de pastas defendido por Aécio durante a campanha. 

 

IG

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