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Brasil

13/04/2015


Michel Temer ascende na articulação para ter PMDB com Governo

O vice-presidente da República, Michel Temer, abandonou a comodidade do Palácio Jaburu para entrar num corpo a corpo intenso com uma missão quase impossível: salvar o que ainda resta da articulação política do governo da presidente Dilma Rousseff com o Congresso, unificar o PMDB, desengavetar o projeto de reforma política _ que dormia há três décadas na agenda do poder _ e abrir caminho para o partido viabilizar uma candidatura própria à presidência em 2018.

 

Com desenvoltura de primeiro-ministro num governo presidencialista de coalizão, Temer já conseguiu a proeza de dividir, de fato, o poder com a presidente Dilma Rousseff e abriu negociações do Palácio do Planalto com os partidos da base no Congresso _ afastando do caminho o principal adversário do PMDB na base aliada, o PT _, mas tem pela frente o que será seu grande teste no novo papel.


“O grande desafio do Michel será a aprovação do pacote de ajuste fiscal”, diz o cientista político Gaudêncio Torquato, um dos mais próximos conselheiros do vice-presidente. Se conseguir, o PMDB pode sonhar em manter a aliança com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, em 2018, entrar como cabeça de chapa na disputa presidencial cujo nome poderia ser o dele mesmo.

Temer e Lula estiveram juntos na quinta-feira, no Instituto Lula, em São Paulo e, a pretexto de discutir uma agenda para a reforma política, falaram sobre o futuro da aliança. O tema mais importante, no entanto, foram as ações de emergência para debelar as chamadas que chamuscam o governo e, consequentemente, o legado do PT. Se ajudar a estancar a queda do prestígio político do Palácio do Planalto, Temer poderá receber sinal verde do principal fiador da aliança para sonhar com uma eventual inversão da chapa em 2018 em nome da alternância no poder.

“Michel é um articulador experiente e de peso. A indicação dele é melhor para o governo do que para o PMDB”, diz o senador Eunício Oliveira (PMDB-CE), líder do partido. Segundo o senador, a nova atribuição de seu amigo Temer, vitaminada e proativa _ uma raridade num regime presidencialista em que ao vice é historicamente reservado um papel decorativo _ abre, sim, a perspectiva de renovação da aliança com o PT, tendo o PMDB na cabeça de chapa como contrapartida de um acordo em que o partido até aqui foi coadjuvante.

“Defendo há muito tempo que o partido tenha uma candidatura própria em 2018, mas não estamos discutindo e nem construindo nomes. O partido tem vários candidatos”, diz Eunício Oliveira.

“Ele (Temer) vai reforçar o partido para ter candidatura própria em 2018. Tem perfil de presidenciável, mas não sei se tem disposição para concorrer. Litúrgico e respeitoso com autoridade e a hierarquia do poder, jamais colocaria o carro na frente dos bois falando em candidatura agora. Michel é começo, meio e fim.”, diz Torquato.

Bombeiro talhado

À vontade na função de articulador, Temer já transformou o Palácio do Jaburu em palco de romaria de políticos, o que levou o próprio líder do PMDB a observar, em tom de brincadeira, que um enorme baú que enfeita a entrada da residência se transformará, a partir de agora, “numa pasta de currículos” _ uma alusão ao assédio que certamente o vice sofrerá por empregos no governo.

Os desafios, como se vê, são imensos, mas há pouca gente no Planalto tão talhada quanto ele para o duplo papel de articulador e bombeiro. Advogado formado pela PUC, aos 74 anos, Temer começou na vida pública em 1966 como assessor de gabinete do então governador paulista Adhemar de Barros _ precursor do método “rouba, mas faz” _, do antigo Partido Social Progressista (PSP). Dele não se pode dizer, no entanto, que haja grandes pendências morais. Chegou a ser acusado de receber propina de empreiteiras na Operação Castelo de Areia e para afastar o ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda do partido. Mas nada se provou e segue com a ficha limpa na temporada da Lava Jato.

Em 1981, com o fim do bipartidarismo, Temer ingressou no PMDB e, no ano seguinte, já no governo Franco Montoro, se tornaria procurador-geral do Estado, de onde pavimentaria uma trajetória política e partidária tão longa quanto cheia de percalços.

Temer foi seis vezes deputado federal, o último deles conquistado em 2006 numa eleição que, por muito pouco não encerrou sua vida parlamentar. Elegeu-se com 99 mil votos e foi o menos votado do PMDB e um dos últimos no ranking da bancada paulista. A curta votação não o impediu de se tornar, pela terceira vez, presidente da Câmara em cujo cargo fortaleceu os laços com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tornar-se, em 2010, o parceiro de chapa da então candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff _ coligação repetida com sucesso em 2014.

Três vezes presidente do partido, Temer é um daquelas figuras que confirmam a máxima segunda a qual o PMDB, fisiológico, mas indispensável para a governabilidade, “não é para amadores”. As duas gestões anteriores como presidente da Câmara (1997 a 2001) se deram ao longo do segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de cujo governo foi fiador e avalista. Em contrapartida, o PMDB, apesar da conturbada relação com o governo, controlou o Ministério dos Transportes, entregue a Eliseu Padilha, o ministro que não quis trocar a insossa Aviação Civil por um gabinete do lado da presidente Dilma e virou pivô da crise que, ironicamente, tirou Temer do ostracismo.

Quando todos apostavam _ inclusive os grupos que pedem nas ruas o impeachment de Dilma _ que assistiria “de camarote” o governo se estatelar, Temer surpreendeu correligionários e adversários políticos, aceitando aquele que talvez seja seu maior desafio em quatro décadas de vida pública.

O senador Eunício Oliveira diz que a experiência de Temer será fundamental para pacificar as relações conflituosas do Palácio do Planalto com o Congresso e superar a crise de popularidade enfrentada pela presidente em decorrência da onda de manifestações.

O vice-presidente começou a tarefa pedindo calma às alas internas do PMDB, ampliou o diálogo com as demais bancadas da base aliada e, na próxima terça-feira, alçará um voo mais alto, para alcançar o ninho que abriga um dos tucanos mais lúcidos e de maior envergadura.

A conversa com Fernando Henrique Cardoso, marcada para a manhã da próxima terça-feira, mais uma vez tem a reforma política como tema oficial da agenda, mas é evidente, segundo especialistas, que Temer pedirá mais: já que FHC tem pregado mudança que conecte a política a aspiração das ruas, ele quer a redução da pressão contra o governo e, de quebra, uma relação de civilidade política que, se não é possível chegar a um pacto, pelo menos resulte numa trégua que afaste as conspirações. No médio prazo, o que interessa tanto ao PSDB quanto ao PMDB, é a alternância no poder.

Integrante da base aliada, a bancada do PDT _ partido pelo qual a presidente Dilma emergiu na política depois da ditadura _ acha que Temer, pela proximidade com os presidentes do Congresso e experiência parlamentar, vai azeitar a articulação, o que não significa aderir a tudo o que o governo quer. “A presença de Temer na articulação facilita o diálogo, mas não muda a posição da bancada. Votaremos contra o que atentar contra direitos trabalhistas”, diz o líder do PDT, André Figueiredo (CE).

No caso do ajuste fiscal, o PDT quer ampliar o tempo da pensão a viúvas e flexibilizar as novas regras do abano salarial, sem o que, segundo Figueiredo, não haverá acordo na hora de votação.

Carandiru

“O vice-presidente é preparado e capacitado e pode facilitar o diálogo da presidente com os partidos, mas enfrentará as maiores dificuldades em seu próprio partido”, profetiza o líder pedetista. Segundo ele, Temer tem experiência e boas relações com os congressistas e assume a nova função num momento em que o barulho das ruas “já reverberou o que tinha de reverberar” no Congresso. Mais que disposição para o diálogo, Temer tem um conjunto de cargos públicos de segundo escalão para se entender com a base.

Não é a primeira vez que Temer enfrenta um desafio de tamanha envergadura. Em 1992, em meio a uma crise política gerada pelo massacre do Carandiru _ o assassinato de 111 detentos pelas tropas de choque da PM paulista _ e que ameaçava o mandato do ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho, o então deputado federal Michel Temer foi chamado, assumiu pela segunda vez a Secretaria de Segurança Pública (a primeira foi no governo Montoro, em 1983) e reestabeleceu as relações do governo com as entidades de direitos humanos. Temer tem qualidades de bombeiro.

"A presidente Dilma acertou em cheio ao tirar os amadores e colocar os profissionais. Michel Temer é a figura mais autorizada da República para fazer a articulação política com o Congresso. Ele tem as credenciais para levar em frente uma ação mais profunda, sinérgica e proativa em nome do governo”, diz Gaudêncio Torquato.

Escorpião

O cientista político acha que o próprio perfil de Temer _ um político conciliador, paciente e que preza como poucos a liturgia do poder _ já dá sinais positivos ao mercado e poderá arrefecer no Congresso os efeitos da onda de manifestações pelo “Fora-Dilma” _ um movimento claro para forçar o impeachment da presidente. "Um bom articulador acalma o mercado e dá sinais para as ruas. Não há ninguém melhor que o Michel para isso”, afirma Torquato. O senador EunícioOliveira acha que Temer tem condições de tirar o governo a sair do caos. “É hora de uma agenda positiva”, diz o senador.

Calmo, polido e tão cerimonioso que chega a medir pausadamente algumas palavras, Temer não é dado a murros na mesa. Uma das raras vezes que se alterou, o fez para mandar um recado. Foi justamente no meio da crise enfrentada pela área de segurança do governo Fleury, quando um dos chamados “cardeais” da Polícia Civil, detentor de cargo de confiança na hierarquia, ameaçou pedir exoneração caso Temer abrisse espaço para as entidades de direitos humanos. “Pois, então, o senhor peça a exoneração. Eu aceitarei!”, respondeu, em tom ríspido, não usual em seu temperamento, mas suficiente para por ordem nas relações. O cardeal continuou no cargo.

O longo período de hibernação de Temer, que passou o primeiro mandato de Dilma inteiro à margem das decisões, deve-se, segundo Torquato, a postura do PT, que não deixava ele participar. “Coalizão não é só espaços no governo. É participar das políticas públicas. Foi preciso uma tempestade para que viesse a bonança”, disse Torquato. Ele se refere a confusão gerada no início da semana pelo desastrado convite ao ministro Eliseu Padilha cuja recusa constrangeu a presidente e fritou o ex-ministro da Articulação Política, Pepe Vargas.

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