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Bahia

23/03/2015


‘Não há diálogo com o povo’, diz Walter Pinheiro

Após avaliar que o governo não consegue dialogar com a sociedade, o senador Walter Pinheiro (PT) critica a linha de defesa adotada pelos governistas a respeito das recentes manifestações, defende Jaques Wagner na Casa Civil e revela o que disse a Dilma após os protestos de 2013. "A vida melhorou dentro de casa, mas degradou na rua", afirma.

Logo após a última manifestação contra o governo, a Folha de S. Paulo publicou uma declaração sua, de que o governo não consegue falar com a sociedade. Qual é a falha do governo?

Não acredito que as pessoas cheguem às ruas só motivadas por uma raiva de um processo eleitoral. Eu diria até que isso é um pouco do desdobramento do que aconteceu [nas manifestações] em 2013 e, mais ainda, a expectativa das pessoas no momento pós-eleitoral. Em 2013, eu cheguei a dizer para a presidenta Dilma que a vida melhorou para as pessoas dentro de casa, mas degradou na rua. O cara ganhou Minha Casa, Minha Vida, mas tinha que manter a casa cheia de grade. O cara passou a ter um emprego, mas levava quatro, seis horas dentro do transporte coletivo. Quem chega em um patamar mais acima quer dar um salto um pouquinho maior. E é natural que esse cidadão cobre isso de quem lhe possibilitou dar o primeiro passo. Afinal de contas, nós estamos no governo. No seu momento de agradecer ao povo brasileiro o resultado da eleição, a presidenta disse que esse nosso governo seria com mais diálogo. Nesses quase 90 dias [de mandato], esse diálogo não se expressou. Eu acho que o governo se jogou muito para dentro do Congresso. É natural que o governo busque base de apoio na Câmara e no Senado, mas a sociedade é mais importante do que o Congresso. Se eu consigo estabelecer um bom diálogo com a sociedade, isso chega dentro do Congresso.


Em 2013, havia uma pauta mais difusa. Agora, há uma insatisfação contra o governo demonstrada de forma clara, inclusive com as pessoas pedindo o impeachment da presidente. O governo diz que pedir impeachment é o mesmo que um golpe. É possível equiparar as duas coisas?

Eu não diria que a pauta de 2013 é tão difusa. A pauta reclama dessa coisa da política, e o governo terminou respondendo com isso da reforma política, o que, na minha opinião, está errado. Quem faz reforma política é Congresso e partido. Quando o governo anunciou que ia mandar proposta de reforma política, mandou? Não mandou. Então, a sociedade se revolta com o governo, quando esta não é tarefa dele. O Congresso não quer fazer reforma política. Nós estamos brigando lá para fazer isso. E depois daquelas manifestações, o governo anunciou pontos que eram as reclamações da sociedade. Saúde, mobilidade, educação e segurança. Essa pauta se repete agora. É natural que esse tema do impeachment, da pressão sobre o governo, seja o desdobramento do processo eleitoral. E fomentado. Eu não considero que a palavra impeachment é golpe. Impeachment faz parte, inclusive, do contexto constitucional. Agora, no fundo o impeachment está muito mais associado a essa questão da apuração da corrupção e até o efeito da Operação Lava Jato do que essa insatisfação da sociedade em relação ao atendimento dos seus desejos. Se é isso, vamos botar os pingos nos is. Queiramos ou não, discordâncias aqui ou acolá, a Lava Jato conseguiu andar, tanto é que já existe um desdobramento até a esfera judicial, para o STF. Portanto, acho que essa é uma coisa que a gente precisaria mediar. É natural que as pessoas nesse compasso de espera, aguardando a apuração, e com a ausência do diálogo, associem a corrupção à ausência de projetos e terminem canalizando isso contra o governo. E aí, se é contra o governo, pedem o impeachment. Ao invés de fazer a leitura se tinha um ou 1 milhão [de manifestantes], a gente tinha que saber por que esse povo está indo para a rua.


Outro argumento muito utilizado na defesa do governo foi o de associar os manifestantes com o eleitorado do senador Aécio Neves ou com uma "elite branca".

Eu vou usar uma expressão até forte: bobagem. Para não adjetivar quem falou isso com um adjetivo mais pesado. A própria presidenta reconheceu isso. Saindo da eleição, Dilma Rousseff é presidente do povo brasileiro, não de quem votou nela, dos membros do PT ou dos partidos aliados. Na sexta-feira, por exemplo, tivemos várias manifestações no Brasil de gente que poderíamos considerar que votou na Dilma. Essas pessoas fizeram as manifestações sem colocar reivindicações? Eu não vi. A CUT, os sindicatos ou quem foi para rua cobrou propostas. É uma bobagem um ministro, ou seja lá quem for, fazer uma cobrança de que quem estava na rua era rico ou eleitor de Aécio. O governo não tem mais que olhar para a eleição.


Há correntes no PT que defendem que o ministro da Defesa, Jaques Wagner, deveria ter um protagonismo maior na articulação política. Chegou a ser noticiado de que Aloizio Mercadante poderia sair da Casa Civil, e Wagner assumiria. Seria uma boa mudança?

Wagner é um articulador-mor. O problema é quando você tem um craque em um time e ele não tem uma função – no futebol, por exemplo, o melhor cara do time joga geralmente na armação ou na linha de frente. Wagner está na defesa; poderia estar no ataque. Ele faz um bom trabalho onde está, mas aí vai um pouco de desejo da baianidade ou da proximidade. Eu, particularmente, acho que se o ex-governador estivesse em outro posto, a interlocução do governo [seria melhor], não só com o Congresso mas para fora, até pela habilidade, experiência. Wagner tem uma qualidade impressionante, que eu poderia chamar de inteligência emocional. E o governo está precisando ter em postos-chave, ou em um posto-chave, alguém que tenha essa capacidade. Agora, como o ministério é dela, é ela quem decide o que faz. Eu estou com a verdade? Não. Mas era bom se ela pudesse inclusive aproveitar essa saída estabanada de Cid Gomes e mexer no tabuleiro como um todo. Eu, por exemplo, acabaria o Ministério de Relações Institucionais. Essa tarefa poderia ser feita pela Casa Civil.


O potencial de Wagner é para a Casa Civil?

Hoje, ele é o melhor nome para a Casa Civil. E o governo faria uma rearrumação. Wagner tem muito bom trânsito tanto no Senado quanto na Câmara. Todo mundo gosta dele. Carrega diversos atributos, inclusive o fato de que a Bahia foi o estado que deu a maior vitória à presidenta Dilma.


Sobre a saída de Cid Gomes, a gente viu muita gente apoiando o que ele fez no Congresso – o que ele falou para os parlamentares, para Eduardo Cunha – mas isso teve um efeito muito negativo para o governo na relação com o PMDB. Qual a sua avaliação?

Ele poderia ter feito isso como cidadão. Na medida em que ele vai para a tribuna como ministro, algumas pessoas terminaram lendo que o governo estava mandando recado. E não era. O governo não age desse jeito, ao menos interpreto eu do lado de cá. E ficou evidente que Cid Gomes fez aquilo com a certeza de que, meia hora depois, não estaria mais no Ministério. Eu seria até mais ousado: ele entrou na Câmara sabendo que não era mais ministro.


Ele pulou fora do barco?

Não. Mas ele avaliou que não dava mais para ele continuar. Se as pessoas fizerem um retrospecto, vão ver que Cid Gomes não queria ser ministro da Educação. Ele pleiteava inclusive – isso dito pelas redes, na mídia – um lugar no BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento], me parece. Minha sensação é de que ele se chateou com o negócio da articulação política, particularmente com o PMDB, com o qual ele já tinha brigas desde o estado dele.


A última pesquisa Datafolha revelou que a aprovação da presidente é a mais baixa desde a época de Collor. O quão preocupante é esse dado para o PT?

E, mesmo assim, Collor foi em um período na boca do impeachment. É preocupante. Alguém pode dizer que isso é pontual ou momentâneo. Outra avaliação errada de muita gente nossa. "Isso é o pós-manifestação". Se eu estou dizendo que é pós-manifestação, então não tinha só eleitor de Aécio na rua. Porque Aécio não teve 62% dos votos. Os caras erram de novo, ao desdizer o que tinham dito anteriormente.


O senhor permanece no Senado ou tem alguma pretensão de disputar a eleição do ano que vem?

Você nunca pode dizer que nunca vai fazer isso ou aquilo, mas em 2016 eu quero ajudar mais do que Salvador. Acho que, em Salvador, talvez pela primeira vez a gente se apresente com a possibilidade de não ter um nome do PT. Não é ilícito o PT pleitear a vaga, mas uma sinalização dessa é importante até para a gente dialogar com os parceiros.


Isso também não ocorre talvez porque não haja dentro do PT quadros de maior relevância para disputar a prefeitura de Salvador?

O PT tem bons quadros que poderiam disputar em Salvador, como o próprio secretário de Turismo, Nelson Pelegrino, que já fez essa disputa e é um bom nome. Não estou dizendo ao PT que não estou com o nome à disposição. É que eu acho, particularmente, que a minha vez em Salvador passou e quero ajudar em outro canto. Quero ajudar o meu partido a encontrar um nome para Salvador e, se puder não ser o meu, eu agradeceria muito essa contribuição. Na Câmara, por exemplo, o vereador Gilmar [Santiago] há muito tempo se dedica à cidade, liderou a oposição, é um sujeito que veio da periferia e do movimento sindical. Há companheiros na Câmara Federal, na Assembleia Legislativa também. O PT tem um leque de opções, mas nada melhor do que discutir primeiro qual é o nosso projeto para Salvador.


Para disputar a Presidência da República, em 2018, o ex-presidente Lula é o melhor candidato do PT?

Lula é o melhor candidato sempre, até pela experiência. Agora, eu, se fosse fazer uma escolha pessoal, eu preferiria Wagner, até pela proximidade e desejo baiano. Mas é muito cedo para discutir 2018. Eu estou muito mais preocupado em tratar da governabilidade.

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