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Brasil

03/02/2017


NORDESTE entrevista Toquinho: Dificilmente Brasil vai repetir geração de 60

Entrevista – Toquinho

Uma Aquarela de Músicas

Cantor afirma que dificilmente Brasil irá repetir geração talentosa de 60, fala sobre amizade com Vinícius e Chico

Por Pedro Callado

Antônio Pecci Filho é um dos maiores músicos brasileiros, de uma habilidade incrível com um violão nos braços e também autor de belas composições. Trabalhou ao lado de outros grandes nomes da Música brasileira como Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Chico Buarque. Se ainda não deu para ligar o nome à pessoa é porque o nome não é esse, para a música Antônio é Toquinho, mesmo nome carinhoso pelo qual ele era chamado pela mãe.

Com mais de 50 anos de carreira, Toquinho lançou mais de 60 discos, sendo que 25 deles foram em parceria com Vinicius de Moraes, com quem trabalhou durante 10 anos. Juntos eles escreveram 120 canções e se apresentaram em mais de mil shows. Toquinho era presença constante na casa de Vinicius e estava inclusive presente no momento da morte do grande poeta. “Morreu praticamente em meus braços”, conta o músico.

Na conversa com a Revista NORDESTE Toquinho compartilhou histórias de como um primeiro contato com um violão aos 8 anos de idade e a grande influência da paixão que o pai tinha pela música serviram de combustível para iniciar sua carreira.

Revista NORDESTE: Qual foi seu primeiro contato com um violão e como desenvolveu-se a relação com esse instrumento?
Toquinho
: Meu primeiro contato com violão deu-se quando eu tinha 8 anos, na casa de uma prima. Ela havia ganhado de um namorado aquele instrumento, esquecido num canto da sala. Aí aproximei-me dele, toquei em suas cordas, percebi uns sons estranhos, e fiquei admirando aquela madeira sonora e como alguém poderia tirar músicas dali… Sem imaginar que depois de 5 anos um instrumento igual aquele começaria a ser tão importante em minha vida.

NORDESTE: Há uma relação afetiva da música a partir do seu pai? Afinal ele ouvia músicas e te ‘apresentou’ a grandes nomes da música brasileira. Qual a influência dele na formação do seu gosto musical?
Toquinho
: Meu pai colecionava discos de todos os gêneros, desde Luiz Gonzaga até Choppin. Essa mistura musical influiu decisivamente na minha vontade de ouvir e procurar entender o que predominava nas Rádios e depois nas Televisões. Aí conheci as maravilhas da Bossa Nova, época em que decidi aprender a tocar violão. João Gilberto tem tudo a ver com isso.

NORDESTE: Quais estilos e músicas mais te influenciaram?
Toquinho
: Meu pai era louco por Orlando Silva e eu ouvia tudo, me interessava por tudo: Nelson Gonçalves, Angela Maria, Cauby Peixoto, Miltinho, até Orlando Dias e aquele jeito escrachado dele de interpretar as canções. E aí vieram Elvis e os Beatles… Depois fui conhecendo Maysa, Dolores, Dick Farney, Lúcio Alves. Quando já tocava um pouco de violão vivia às voltas com as batidas de Carlos Lyra, Menescal e Baden e com a genialidade de Tom Jobim. De toda essa mistura de sons construí meu estilo.

NORDESTE: Em 1969 você foi para Itália com Chico Buarque. Na época vivíamos a edição do AI5 e a ditadura estava no auge. Qual o objetivo da viagem e por que Itália, especificamente?
Toquinho
: Minha amizade com Chico Buarque vem desde nossas adolescências. Começamos nossas carreiras no mesmo palco do Teatro Paramount, em 1964. Depois do AI5, tendo de se refugiar na Itália, Chico me chamou para acompanhá-lo em alguns shows por lá. Quando cheguei lá não havia show nenhum. Então se iniciou um período de situações bizarras; fizemos shows em castelos abandonados, levamos calotes de pseudos empresários, viajamos em condições perigosas, enfim, comemos o pão que o diabo nem amassou, jogou fora. Até que nosso sucesso numa boate em Viareggio nos possibilitou participar de uma temporada de shows cuja atração principal era Josefine Backer, a grande dama da música, na época.

NORDESTE: Sobre Vinicius de Morais: há informações que você era assíduo frequentador da casa dele e até presenciou a sua morte. Como você o conheceu e como era a relação que vocês tinham?
Toquinho
: Meu contato maior com Vinicius começou em 1970, quando ele me convidou para acompanhá-lo numa temporada de shows na Boate La Fusa, em Buenos Aires. Esse trabalho deu origem a uma parceria que durou 10 anos, fortalecida por uma grande amizade. Quando estava no Rio de Janeiro, ficava na casa de Vinicius. Era um período desses quando aconteceu a morte dele, quase me meus braços, tentando tudo, mas nada podendo fazer…Vou participar de um Cruzeiro no final deste mês no Costa Fascinosa que relembra o nosso primeiro encontro.

NORDESTE: Você fala muito que o Vinicius viveu como um poeta. O que isso quer dizer? Qual era o diferencial de fazer música com Vinicius de Moraes?
Toquinho
: Vinicius vivia a poesia nos mínimos detalhes do cotidiano. Conviver com a poesia desgasta a pessoa, porque nem tudo é poesia. E ele conseguia ser poeta até quando fazia a barba, começando um dia por um lado do rosto e mudando a posição no dia seguinte, só para vencer a ferrugem repetitiva do tempo.

NORDESTE: Você fez muito trabalhos, inclusive com o Vinicius, voltados para o público infantil. Como surgiu essa vontade de compor para crianças?
Toquinho
: Foi em 1980, quando Vinicius me convenceu a musicar alguns poemas de seu livro “Arca de Noé”. Mordeu-me então aquele bichinho infantil, tomei gosto pela coisa e prossegui com outros trabalhos do gênero, me divertindo com cada um deles.

NORDESTE: O clipe animado da música “Aquarela” conquistou o prêmio “Liv Ullman Peace Prize” no Festival Internacional de Filmes Infantis em 2003, considerado o filme que traduzia de forma sensível o desejo de paz e harmonia entre as crianças. Para você, como foi escrever a “Aquarela”, o que motivou e o que representou uma conquista como essa?
Toquinho
: “Aquarela” é uma canção mágica, surgiu em menos de 15 minutos e me abriu caminhos inigualáveis, principalmente no âmbito internacional e no universo infantil.

NORDESTE: Você esteve no meio de um grande momento da Música Popular Brasileira, quando grandes nomes estavam no auge ou começando sua carreira. Essa ‘explosão’ de talentos repercutiu na sua própria criação?
Toquinho
: Minha geração carrega uma herança fantástica: a estrutura da Bossa Nova. Isso contribuiu para nossa evolução como músicos e perpétuos representantes do que de melhor se fez no cenário musical brasileiro.

NORDESTE: Na minha opinião, a música que faz sucesso hoje no Brasil é de uma qualidade relativamente inferior à que você, Vinicius, e os demais faziam no auge de suas carreiras. Pesando a MPB como um gênero de música, porque ela não alcança mais as grandes massas como já fez no passado?
Toquinho
: Dificilmente se repetirá uma geração tão talentosa quanto aquela dos anos 60, com sua beleza harmônica e poética. Embora a MPB não esteja tão presente nas emissoras de rádio e TV, seu público é fiel e sempre lota as casas de espetáculo. Os tempos são outros e sempre houve espaço para todos os gêneros musicais.

NORDESTE: Quem no cenário atual da música brasileira merece mais atenção?
Toquinho
: O Brasil é muito musical e a efervescência de novos talentos e tendências é enorme e disforme. Tenho convidado para meus shows, a exemplo do que fazia com Vinicius, figuras femininas que nos encantam com sua performance, afinação e versatilidade como Badi Assad, Verônica Ferriani, Dora Vergueiro, Anna Setton e mais recentemente, Camilla Faustino.

NORDESTE: Você passou por muitas transformações do Brasil, tanto da música quanto da própria estrutura do país, que entrou e saiu da ditadura, tantos governos… Recentemente Chico Buarque voltou a cantar “Apesar de Você”, como uma sinalização que o Brasil voltou no tempo. Dá para fazer um paralelo com o que acontece hoje no Brasil com o passado, com a censura e tudo mais?
Toquinho
: A diferença é que hoje não há censura, tudo é falado e mostrado às claras. Pelo menos nesse sentido podemos afirmar que evoluímos. O “Apesar de você” é atemporal: sempre vamos querer um dia melhor, ainda mais no Brasil, com tantas carências, injustiças e privilégios: temos o dever de lutar como cidadãos para mudar este quadro buscando um país. Já estamos procurando um novo caminho, reconhecendo que a ética é fundamental e que o combate à corrupção deve ser permanente. O desemprego, a desigualdade e tantos episódios de violência não podem nos enfraquecer mais justo.

NORDESTE: Como você vê o país hoje, a partir da sua própria experiência, após tantas experiências vividas. Dá para dizer que melhorou ou piorou?
Toquinho
: O povo descobriu sua força para pressionar os políticos e promover as mudanças. Já estamos procurando um novo caminho, reconhecendo que a ética é fundamental e o combate à corrupção deve ser permanente. O desemprego, a desigualdade e os episódios de violência são resultantes da falta de políticas públicas corretas, de planejamento, de vigilância. Não podemos perder a importância da cidadania e nem a esperança de mudar para melhor.

NORDESTE: Quais os próximos projetos e perspectivas futuras?
Toquinho
: Shows pelo Brasil em vários formatos, com grandes parceiros e novas revelações e no Exterior, em excursões pela Europa e América Latina, lançamento do DVD comemorativo dos 50 anos de carreira, e a permanente dedicação ao violão, além de novas canções com Jorge Ben Jor, Paulo César Pinheiro, entre outros.

 

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