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Pernambuco

22/01/2016


Parque Eólico de Caetés é destaque em Conselho Mundial de energias limpas

Exclusivo NORDESTE

Por Reginaldo Marinho

Angelina M. Galiteva é presidente do Conselho Mundial de Energias Renováveis e diretora da New Energy Options, Inc., uma empresa dedicada ao fortalecimento da integração de soluções energéticas sustentáveis. Ela é membro do Conselho Independente de Sistemas de Operação e Desenvolvimento de infraestrutura energética da Califórnia. Galiteva é fundadora do Instituto de Políticas Renováveis 100, uma entidade sem fins lucrativos direcionada aos avanços globais para soluções de energia renovável desde 2008 e ajudou a fazer uma revolução verde no estado americano da Califórnia. Antes de embarcar para Paris, para participar da Conferência do Clima – COP 21, ela veio ao Brasil a convite da Embaixada dos Estados Unidos para fazer palestras sobre energias renováveis e difundir as possibilidades de utilização de novas fontes energéticas. Ela ficou impressionada com o potencial brasileiro de produzir energia limpa. Em Pernambuco, ela visitou a Casa dos Ventos e declarou que o parque eólico de Santa Brígida, em Caetés-PE é o mais bonito que já viu.

Revista NORDESTE: Quais são as atribuições do Conselho Mundial de Energias Renováveis?
Angelina Galiteva
: O Conselho Mundial de Energias Renováveis é composto por especialistas em energia global, cuja missão é analisar e dar prognóstico sobre as melhores políticas para o desenvolvimento da energia renovável em escala global.

NORDESTE: De que modo o conselho pode incentivar os países que ainda não adotaram políticas de geração de energia renovável?
Angelina
: O Conselho Mundial influencia políticas públicas na área de energia renovável através de seus diretores em suas respectivas organizações. Muitos, por exemplo, trabalham em universidades, agências governamentais, ou são políticos. Foi o Conselho Mundial que teve a ideia de criar o Renewables 100 Policy Institute, uma instituição dedicada à ideia de 100% de uso de energia renovável. O Conselho foca, particularmente, nos setores de energia e de transporte, porque eles são os maiores agressores quando se trata de emissão de gases de efeito estufa. O setor de transporte na Califórnia é responsável pela emissão de 40% da emissão de gás de efeito estufa no estado. Se você não negocia com o setor de transportes, você não está lidando com o maior dos problemas.


NORDESTE: A matriz energética brasileira é fundamentalmente de origem hídrica. Essa fonte de energia gera impactos ambientais de grandes proporções, diante dos prejuízos causados pelas gigantescas áreas inundadas. A senhora visualiza uma substituição de nossa matriz por fontes mais comprometidas com a sustentabilidade?
Angelina
: Eu quero parabenizar os brasileiros por gerar 80% de sua eletricidade através de fontes renováveis. Com relação a uma perspectiva da emissão de gases de efeito estufa, o Brasil está fazendo um ótimo trabalho! É importante lembrar que em muitos casos o impacto de grandes hidrelétricas é reversível, mas o impacto do desenvolvimento de energia fóssil não é. Além disso, o Brasil está desenvolvendo intensamente outras formas de energia renováveis que são compatíveis com grandes hidrelétricas, como energia solar e eólica, e que podem ser usadas para atingir o nível de 100% de uso de energia limpa. Essa abundância de energia limpa vai possibilitar o desenvolvimento em inovação e em novas tecnologias que vão empoderar o consumidor como um participante ativo da matriz de energia. Nesta viagem ao Nordeste, visitei um dos maiores parques de energia eólica do Brasil e fiquei impressionada com sua eficiência e sofisticação. Também me impressionei com a dedicação dos desenvolvedores eólicos para integrar o projeto com a comunidade local. Um mural com símbolos culturais em um dos moinhos de ventos foi algo que nunca vi antes. E posso dizer que a Casa dos Ventos é o parque eólico mais bonito que já vi!

NORDESTE: O território brasileiro dispõe de oferta abundante, particularmente na região Nordeste, de recursos eólicos e de incidência solar, mas os custos de energia limpa ainda são elevados, como solucionar isso?
Angelina
: Este é um equívoco muito comum. Se olharmos o ciclo completo das fontes de energia, a solar e eólica são as mais baratas, pois os combustíveis são gratuitos e não correm o risco de serem tributados (exemplo, imposto por emissão de CO2, etc). Além disso, se contarmos com externalidades ambientais – água e poluição do ar – o custo do combustível fóssil é muito maior. A indústria do combustível fóssil é a segunda maior consumidora de água limpa, ficando atrás apenas da agricultura. Muitas pessoas acham que energia limpa é mais cara porque elas consideram apenas o custo inicial, e não consideram o ciclo completo. O que estamos percebendo na Califórnia é que o investimento em tecnologias limpas e renováveis está sendo feito de maneira intensa, o que faz todo o sentido já que são mais baratas. De acordo com a Bloomberg New Energy Finance, as energias renováveis representarão 65% dos 12,2 bilhões de dólares investidos em energia até 2040.

NORDESTE: O presidente Barack Obama lançou recentemente ‘The Clean Power Plan’ que prevê a redução de emissões de gases causadores das mudanças climáticas. De que modo o Estado da Califórnia atua para tornar mais eficiente o uso de fontes alternativas de energia?
Angelina:
A Califórnia é, de longe, líder nos Estados Unidos no uso de renováveis. Nós temos uma meta oficial no estado (definida pela lei SB 350) que exige uso de 50% de energias renováveis até 2030, e isso sem contar placas fotovoltaicas nos telhados e hidrelétricas em grande escala, o que adicionaria mais 20%. Nós também queremos atingir 50% de melhoria na eficiência energéticas dos prédios, e buscando a redução da emissão de gases dos veículos em 50% através da promoção de combustível limpo e carros elétricos.
A Califórnia também está procurando parcerias pelo mundo. O governador da California Jerry Brown criou o Subnational Global Climate Leadership Memorandum of Understanding (Memorando de Entendimento Subnacional de Liderança em Clima Global), que compromete governos estaduais a reduzirem a emissão de gás de efeito estufa em 80 a 95% ou a duas toneladas per capita até 2050, com energia limpa e sua manutenção. Vinte e um governos estaduais – incluindo os do Acre e Amazonas no Brasil – já assinaram o memorando [no dia 24 de novembro o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, também assinou o memorando]. Para mais informações: under2mou.org

NORDESTE: O Estado da Califórnia dispõe de incentivos para implantação de novas tecnologias que potencializem as fontes limpas?
Angelina: A beleza da energia renovável e tecnologia limpa é que elas empregam incentivos que vão diminuindo ao longo do tempo. Por exemplo, os incentivos para energia solar praticamente desapareceram porque ela tornou-se competitiva com os preços do mercado. O custo da energia solar diminuiu 76% desde 2006. Para que a energia renovável continue a crescer precisamos incentivar novas tecnologias, eficiência energética, e soluções em gerenciamento de energia, que serão as novas fronteiras da inovação; como exemplificado pelo enorme interesse do Vale do Silício nas estruturas das novas energias para o futuro. Empresas como Google, Apple, e Tesla estão muito interessadas em engajar o consumidor para que os mesmos tenham controle sobre o uso de energia em casa, do abastecimento de seu carro elétrico ou outro veículo de tecnologia limpa, e outras medidas que ajudam o consumidor a se inserir no mercado de energia. Esta transformação da energia é uma oportunidade incrivelmente animadora para uma mudança no modelo de negócios, para jovens se envolverem com uma nova indústria high-tech – que é diversa, descentralizada, democrática, e empodera as comunidades onde vivemos. E apenas a energia renovável nos permite fazer isso!
 

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