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Brasil

07/06/2016


Partido manobra para salvar Cunha, e votação sobre cassação é adiada

Após quase cinco horas de discussão e bate-bocas, o Conselho de Ética adiou para esta quarta-feira (8) a votação do relatório que pede a cassação do mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que já está afastado do comando da Câmara desde o dia 5 de maio.

A decisão foi anunciada pelo presidente do Conselho, José Carlos Araújo (PR-BA), a pedido do relator, Marcos Rogério (DEM-RO), ambos adversários de Cunha, diante da constatação de que Cunha seria absolvido caso a votação ocorresse nesta terça-feira.

Considerada voto decisivo, a deputada Tia Eron (BA), do PRB de Celso Russomanno e Marcelo Crivella, não apareceu na sessão, o que abriria margem para o voto do suplente Carlos Marun (PMDB-MS), um dos principais defensores de Cunha.

O placar no Conselho ficaria 11 a 9 para salvar Cunha. O "sumiço" de Eron monopolizou o final da sessão, com clara interpretação por deputados de que ela e o PRB acertaram livrar Cunha da cassação.

A assessoria da deputada disse que ela iria aparecer na hora da votação, mas não soube dizer o motivo da ausência durante toda a sessão. Em rápida entrevista a jornalistas na saída do gabinete da Liderança do PRB, ela afirmou apenas que sofre pressão é da imprensa e que irá analisar o relatório paralelo apresentado pelo deputado João Carlos Bacelar (PR-BA), aliado de Cunha, que troca a cassação do mandato por uma suspensão de três meses.

A apresentação desse voto paralelo foi o pretexto usado pelo relator Marcos Rogério para adiar a votação e evitar a derrota. "Usei o regimento e fiz o que deveria ser feito", afirmou.

A defesa de Cunha falou que os adversários do peemedebista é que recorreram a uma manobra. "Quando é do nosso lado fazem grande divulgação, será que agora a imprensa vai divulgar? Quem está manobrando? O que aconteceu aqui hoje foi uma vergonha. Foi como aquele juiz que diz, aos 45 minutos do segundo tempo: 'Só encerro a partida quando meu time virar o jogo'", afirmou o advogado Marcelo Nobre.

A intenção dos articuladores da cassação de Cunha com o adiamento é aumentar a pressão sobre Tia Eron, com a exposição na mídia e nas redes sociais. "O presidente [Araújo] cumpriu o regimento, contra nossa vontade. Diferentemente deles não vou à Procuradoria-Geral da República falar: 'Olha, encerraram a sessão com temor de que eu votasse, tem que prender todo mundo naquele Conselho", ironizou Carlos Marun.

Para adversários de Cunha, há um indicativo forte de acordo entre o PRB, Cunha e o governo Michel Temer para salvar o peemedebista. Conforme o Painel, o Planalto recebeu nesta segunda a cúpula do PRB, reunião após a qual deputados do partido passaram a acreditar que Eron votaria a favor do presidente da Câmara afastado.

"A conversa entre o governo e o PRB é um indicativo de que o Planalto pode estar empenhado em salvar o mandato de Cunha", afirmou Chico Alencar (PSOL-RJ). "A minha opinião é a de que o Eduardo Cunha ameaça derrubar o governo e a República. Ele tem um banco de dados com os deputados que ele financiou, com deputados que têm problemas, ele é uma ameaça ambulante", reforçou Ivan Valente (PSOL-SP).

Em nota divulgada após o adiamento da sessão, Tia Eron afirmou que está "a postos para cumprir com minha obrigação" e que teria votado. Disse ainda que o adiamento não foi por causa de sua ausência. "Não me furtarei a cumprir com meu dever".

Já a assessoria de Cunha divulgou nota na qual classificou de "falta de ética" do presidente do conselho o adiamento "em mais uma das suas manobras, de forma abrupta, antirregimental e autoritária". Chamou Araújo de "falso moralista" e que ele optou por uma "manobra espúria" de encerrar a sessão por não ter convicção de que a cassação seria aprovada.

MOROSIDADE

O processo contra o peemedebista já é o mais longo da história do Conselho. Em seu parecer, Rogério afirma que Cunha quebrou o decoro parlamentar ao omitir a existência de contas no exterior que, segundo a Procuradoria-Geral da República, foram abastecidas em parte com dinheiro do petrolão.

Qualquer que seja a decisão do Conselho, Cunha só perderá o mandato caso pelo menos 257 dos seus 512 colegas se manifestem nesse sentido, em votação aberta no plenário da Câmara. Ainda não há data marcada para essa definição.

A representação contra Cunha foi apresentada na Câmara pelo PSOL e pela Rede em 13 de outubro de 2015.

Folha Online

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