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Brasil

20/11/2013


Perfil da dívida pública brasileira preocupa CNC

ECONOMIA

O ex-diretor do Banco Central e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, vê como risco – e não como um motivo de comemoração – a participação de 17,2% de investidores não-residentes dentre os detentores de títulos da dívida pública brasileira em reais. "Na conjuntura externa atual, é preocupante, porque esses investidores desejarão sair da dívida brasileira assim que os juros norte-americanos começarem a subir", diz o economista.

A expressiva participação – crescente desde 2007 – representará, segundo Thadeu de Freitas, uma pressão adicional às já esperadas consequências do fim do processo de expansão monetária dos EUA: a desvalorização do real em relação ao dólar e a elevação das taxas de juros, amplificando os riscos de um reajuste excessivo no câmbio e na taxa de juros.

"São recursos que saem muito rápido", diz o economista, enfatizando que esse tipo de capital, cuja presença vem aumentando, é volátil por natureza. "Haverá um ajuste nas contas correntes, necessariamente. Países como Brasil, Índia e Indonésia não receberão mais poupança externa como antes. E não se prepararam para isso", adverte.

Thadeu de Freitas apresentou nesta segunda-feira os cenários com que a Confederação Nacional do Comércio (CNC) trabalha para o ano eleitoral de 2014. "O ambiente de incertezas gera apreensão nos mercados globais e dificulta uma transição mais suave dos países emergentes. Vemos um ano de atividade fraca", disse. A CNC prevê crescimento de 2,2% do PIB em 2014, contra a previsão de 2,4% de expansão para este ano. Mas, ainda que a política monetária dos Estados Unidos "vire" e os juros pagos pelo governo norte-americano em seus títulos suba, ele não acredita em uma retração na economia brasileira. "O nível de emprego e o crédito, ainda com prazos longos, devem dar algum fôlego ao comércio e à atividade econômica ao longo de 2014".

O cenário da CNC já incorpora parcialmente os efeitos que o ambiente de instabilidade imporão ao Brasil: ajuste no câmbio e prolongamento do aperto monetário. A Confederação prevê, para o final de 2014, a taxa básica de juros de 11% ao ano (1,5 ponto percentual acima da atual), taxa de câmbio de R$ 2,50 e um déficit em conta corrente (resultado das contas externas) equivalente a 3% do PIB, dado que incorpora uma melhoria no saldo da balança comercial.

A CNC trabalha para 2014 com uma inflação igual à deste ano: 5,8% – diferentemente do Banco Central, que prevê para 2014 um índice mais baixo que o de 2013. Para o comércio, mais sensível à evolução de preços, crédito e emprego, a previsão é de uma expansão de 5,15% nas vendas de varejo, levemente acima dos 4,5% previstos para 2013.

Para Carlos Thadeu de Freitas, o próximo governo terá pela frente um cenário fiscal difícil. Segundo ele, houve uma redução estrutural no superávit primário para o patamar de 1,5%, que representa queda de 50% em relação ao início do governo. "O novo governo começará sem nenhum espaço para redução de carga tributária com desafio de recuperar o superávit primário e ainda recuperar o investimento público", prevê o economista.

O governo eleito, acrescenta, precisará adotar uma política defensiva para lidar com o cenário de "ataque", ou seja, de taxas de juro mais altas. Ele sugere, por exemplo, uma disciplina fiscal clara representada em um contingenciamento de gastos expressivo, acompanhado de algum instrumento que dê flexibilidade para gerar os superávits primários. "Uma nova Desvinculação de Receitas da União", diz. Criada em 2000, a extinta DRU permitia ao governo desvincular parte das receitas das contribuições sociais para o orçamento fiscal (gastos com educação, transferências obrigatórias e saúde, por exemplo), e dirigi-las ao pagamento de juros da dívida.

Thadeu de Freitas também critica a atuação do BC. "Dizer que a inflação do próximo ano será menor que a deste ano não é nada. É preciso dizer que a meta será perseguida", diz ele, acrescentando que o sistema de metas de inflação formalizou bandas de tolerância para períodos excepcionais, mas os índices de preços estão constantemente distantes da metade 4,5%.

 

iG Economia

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