menu

Brasil

28/09/2015


PMDB pode se tornar o algoz de Dilma em impeachment

Engana-se quem pensa que o possível impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) depende apenas da oposição. A abertura do processo na Câmara dos Deputados está muito mais nas mãos do PMDB, partido aliado ao governo e detentor da vice-Presidência da República. Na prática, apontam governistas, oposicionistas e analistas, a maior ameaça à petista depende do tamanho da adesão dos peemedebistas ao processo.

O TEMPO conversou com membros da bancada mineira na Câmara, e as declarações refletem o sentimento majoritário da sigla: não apoia, agora, a saída de Dilma, mas não garante a mesma posição caso o Tribunal de Contas da União (TCU) reprove as contas de 2014 da presidente, o que pode desencadear o processo de afastamento.

Em tese, os peemedebistas dizem ser contra o impeachment e adotam um discurso – aparentemente ensaiado – de que trabalham pelos interesses do Brasil, com a preocupação de que a situação política e econômica do país possa se deteriorar ainda mais com um processo de ruptura. “Não sou a favor no momento. Não há motivo jurídico. Existem expressões da oposição e até de colegas dizendo que querem acabar com o governo, mas é precipitado. Se isso acontece, traz instabilidade ao mercado”, diz Newton Cardoso Jr.

Para o colega de partido Rodrigo Pacheco, a posição “é de conferir governabilidade neste primeiro momento”. Sobre o impeachment, ele afirma ser “difícil opinar sobre algo que não existe. A princípio não vejo razão”. Pacheco diz que a adesão à votação, na última semana, que manteve vetos presidenciais a projetos que trariam impacto no Orçamento é um sinal positivo, mas não quer dizer que estejam juntos completamente”.

O tom reflete a estratégia nacional do partido de passar a imagem de independência em relação ao governo, evitando, assim, se indispor com a população descontente com Dilma.

Laudívio Carvalho, o único dos sete peemedebistas mineiros que romperam com o governo, avalia que “não há indício ou clima para impeachment”. Para ele, as denúncias só terão fundamento depois de analisadas pela assessoria jurídica do Congresso.

O colega Mauro Lopes concorda. “Ela pode ser má gestora, mas isso não é crime. Se as contas não forem aprovadas, aí, sim, pode ser votada a abertura do processo”.

A oposição oficial conta com a instabilidade dos peemedebistas para conseguir os votos necessários para abrir o processo. O tucano Marcus Pestana explica que a oposição tem 280 votos dos 342 necessários na Câmara. Segundo ele, 140 são da base. “O PMDB é central. Tem a presidência das duas Casas no Congresso, a maior bancada no Senado e a segunda maior da Câmara”. Um governista próximo de Dilma concorda. “O PMDB é fundamental. Com o apoio deles, o impeachment é possível. Na prática, já estão governando”. Temer coloca lenha na fogueira

O comportamento volátil nas votações do Congresso e o fato de manter certo distanciamento do governo mostra a estratégia do PMDB, que não quer ficar com a pecha de traidor, mas também não deseja morrer abraçado a Dilma Rousseff. “O PMDB é a âncora do governo. Se ele se inclina para o impeachment, é difícil segurar. O partido vai arrastar as siglas menores, que terão medo de ficar isoladas depois”, avalia o cientista político da Unicamp Valeriano Costa. Para ele, no entanto, mesmo sem encampar abertamente a bandeira do impeachment, o vice-presidente Michel Temer, com suas declarações polêmicas, é a personificação da traição do partido aliado. Primeiro, Temer declarou que “é preciso alguém para reunificar o país”. Poucos dias depois, disse que “ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo”, sobre a queda de popularidade de Dilma. Na última semana, não quis indicar nomes para a reforma ministerial. “Temer não defende o governo. Não age como aliado. Coloca mais lenha na fogueira. A tendência é o PMDB ficar nesse morde e assopra”, diz. O deputado Rodrigo Pacheco (PMDB-MG) garante que os correligionários não estão “jogando para a plateia” ao flutuar nas votações na Câmara. “É um discurso de político responsável”. Um petista próximo de Dilma não acredita que o PMDB irá defender o impeachment. “Hoje eles governam com o bônus. Se assumem, ficam com o ônus de todos os problemas. Não é interessante”, diz. “Hoje, 30% dos deputados têm convicções, os outros 70% têm compromisso com a sua reputação e o seu mandato. O político que não tem convicções fortes fica suscetível à maré”, analisa com esperanças Marcus Pestana (PSDB-MG).

O Tempo

Notícias relacionadas