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Ceará

28/12/2015


Poder de adaptação do Aedes aegypti dificulta combate

Ao longo de pelo menos 30 anos, o Ceará vem “apanhando” de um mosquito. Altamente adaptável e com capacidade para transmitir, aqui, três doenças (dengue, chikungunya e zika), o Aedes aegypti não encontrou dificuldade para se multiplicar, reconhece Roberta de Paula Oliveira, supervisora de Núcleo de Controle de Vetores da Secretaria da Saúde do Estado (Sesa). Desde a primeira notificação, em 1986, a pasta já registrou cerca de 553 mil casos de dengue, mas o número real pode ser muito maior devido à subnotificação.

A capacidade de adaptação do Aedes aegypti o torna um ser vivo muito eficiente, pontua Luís Carlos Rey, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). “Essa capacidade de sobrevivência é fenomenal”. Originário de áreas silvestres, o inseto se adaptou “muito bem” à zona urbana. “A longevidade dos ovos também é impressionante”, ressalta o médico: se posto num ambiente seco, ele resiste até um ano esperando água para se desenvolver. Nas cidades, a quantidade de lixo a céu aberto configura o ambiente ideal para o mosquito se multiplicar exponencialmente.

Como agravante, se a fêmea estiver contaminada ao pôr os ovos, os filhotes já nascem com o vírus. É a chamada “transmissão por via vertical”, Luís Carlos explica, e dispensa que o inseto precise se contaminar com uma pessoa doente para espalhar a condição. “Não foi evolução, é uma adaptação. Ele já tinha essas habilidades, mas não tinha o ambiente”. Em cidades pequenas, seria mais fácil eliminar o mosquito, mas a presença em grandes metrópoles torna esse combate infindável. Numa cidade populosa, um único mosquito consegue infectar muitas pessoas.

No Ceará, então, o inseto encontra uma situação ainda mais favorável: com a seca e as incertezas do abastecimento, a população se vê obrigada a acumular água. Segundo Roberta de Paula, até 80% dos focos de Aedes são encontrados dentro de casa. Em Fortaleza, como O POVO mostrou na última quarta-feira, 23, o percentual chega a 83%. E a maioria desses criadouros está em depósitos terrestres, como tanques, tambores, cisternas e caixas d’água. “Até pelo desconhecimento da competência desse mosquito, a população acaba relaxando”.

Até o fumacê pode estar perdendo eficácia, ressalta o professor Luís Carlos. O inseticida só funciona para matar o mosquito adulto e em áreas expostas ao veneno. Para larvas e ovos, não é eficiente. “Jogar fumacê na rua é selecionar, na população de mosquitos, os que são resistentes e vão fazer uma geração de mosquitos mais resistentes ainda”. Com isso, é necessário, ano após ano, jogar inseticida mais forte e em maior quantidade. É uma solução que não é barata e é pouco eficaz, ele ressalta.

Por ser tão adaptável, há diversas dúvidas em torno do vetor de dengue, zika e chikungunya. “Por que determinado mosquito transmite uma doença e outro transmite outra? Será que, no futuro, ele pode se adaptar para transmitir outro vírus? Por que são tantos vírus em um só vetor?”, questiona Anastácio Queiroz, professor da Faculdade de Medicina da UFC. Esse é um alerta para a necessidade de a população lutar contra o mosquito. “Se você olhar quais eram os criadouros na épocas de 1986, são os mesmos de hoje, e nós não fomos capazes de eliminar. Tem sido feito um trabalho muito paliativo”.


Mariana Freire
O Povo 

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