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Brasil

28/04/2014


Políticos se descolam de escândalos e adiam medidas impopulares

A cada quatro anos a história se repete: candidatos a um cargo público tentam livrar seus nomes de escândalos de corrupção, enquanto políticos com mandato economizam tinta de caneta ao evitar medidas impopulares, mesmo que com isso o País sofra estragos irreversíveis. Em 2014, ano de escolher presidente e governadores, os postulantes já se mexem para se descolar de assuntos capazes de naufragar qualquer candidatura.

“O problema é geral, acontece em todos os níveis da administração”, lamenta-se o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília (UnB), sobre a omissão de governantes em ano de campanha. “Em 2014, a presidente Dilma Rousseff está usando a Petrobras para segurar os preços da gasolina e, consequentemente, os índices de inflação. A campanha avalia que a popularidade do governo piora quando os preços disparam.”

“O governo Dilma extrapolou todos os limites do populismo para avançar na reeleição”, ataca o deputado federal Antonio Imbassahy, colega de legenda do presidenciável Aécio Neves, do PSDB. “Não é só com a gasolina, ela também impediu o reajuste da energia elétrica.”

Mas Fleischer lembra que o tucano Fernando Henrique Cardoso também fez das suas para evitar impopularidade em tempos de eleição. “Em 1998, ele costurou um empréstimo com o FMI [Fundo Monetário Internacional] no valor de R$ 40 bilhões, mas só divulgou o acordo quatro dias depois de se reeleger.”

Professor de ciências políticas da PUC-SP, Cláudio Couto não acredita que a política de preços da Petrobras tenha vínculos eleitorais. “O preço da gasolina já vem sendo controlado há muito tempo. O que me parece eleitoreira é a decisão do governador Geraldo Alckmin [PSDB] de adiar o racionamento de água em São Paulo.”

Embora o reservatório do sistema Cantareira tenha atingido o menor nível de sua história, Alckmin preferiu extrair água do subsolo (conhecido como volume morto) antes de optar pela impopularidade do racionamento. “O uso do volume morto pode provocar um impacto quase irreversível ao Cantareira às vésperas da eleição de outubro. Aí o estrago em sua tentativa de reeleição vai ser ainda maior.”

“O Alckmin foi alertado há muito tempo sobre a falta de abastecimento”, alfineta o deputado estadual petista João Paulo Rillo. “Se não fossem as eleições, ele já teria lançado uma campanha publicitária propondo racionamento de água.”

Escândalos

Enquanto governantes evitam desagradar o eleitor, candidatos sem mandato fazem o que podem para parecerem acima de qualquer suspeita. Em Minas, o senador tucano e presidenciável Aécio Neves precisa lidar com a suspeita de que o candidato a governador indicado por ele, o correligionário Pimenta da Veiga, tenha se envolvido em lavagem de dinheiro no que ficou conhecido como mensalão tucano.

“Essas relações constumam aparecer principalmente em ano de eleição”, diz Couto. “Mesmo que o envolvimento do apadrinhado político manche a imagem do padrinho, isso não significa que o último esteja envolvido em corrupção”, ressalta.

Para os especialistas, Aécio pode ter sua alta popularidade em Minas abalada por outro escândalo, detonado no final do mês passado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que mandou o governo mineiro demitir 71 mil servidores públicos contratados sem concurso graças a uma lei editada em 2007, durante a gestão de Aécio, considerada agora inconstitucional. “São muitos exonerados, mas a decisão foi do Supremo, dificilmente a medida vai manchar a imagem de Aécio”, defende Imbassahy.

Quem também tenta se esquivar de um escândalo tido como morto, mas reavivado pelo Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, é o pré-candidato à Presidência Eduardo Campos (PSB). O órgão condenou o ex-governador de Pernambuco pela emissão de títulos públicos para pagamento de precatórios judiciais. A decisão proibiu Campos de integrar a direção administrativa de instituições financeiras fiscalizadas pelo Banco Central.

Em fevereiro, quando a decisão veio a público, o governo de Pernambuco divulgou nota afirmando que a decisão do conselho "ainda não é definitiva" e "contraria frontalmente o posicionamento de todas as outras instâncias administrativas e judiciais". O próprio STF havia absolvido o ex-governador em 2003.

Petistas acusam o pernambucano de esconder mais coisa. O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), disse em plenário que o ex-aliado “esconde” a participação do governo federal em obras inauguradas em seu Estado às vésperas de se desvincular do cargo, o que ele nega.

Mas para os especialistas, Campos vai fazer de tudo para evitar os mesmos assuntos polêmicos que sua pré-candidata a vice, Marina Silva, tenta se esquivar: aborto, casamento gay e legalização da maconha. “O Eduardo não vai transformar esses temas em debate eleitoral, embora responda suas opiniões pessoais, que são de foro íntimo”, diz o deputado federal Walter Feldman, do PSB. “Esses são assuntos para o Congresso Nacional, mas a última eleição centrou debate nessas questões, um equívoco.”

Couto resume este ano de eleição com uma frase que ficou famosa em 1994, ano em que FHC venceu a primeira disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, o embaixador Rubens Ricupero soltou a seguinte frase (captada apenas por antenas parabólicas) nos bastidores de uma entrevista para a TV Globo. "Eu não tenho escrúpulos: o que é bom a gente fatura, o que é ruim a gente esconde."

Procurada, a assessoria do Planalto pediu que a reportagem entrasse em contato com o Ministério das Minas e Energia e com a Petrobras. Os dois disseram que não comentam o assunto. Em São Paulo, o governo do Estado afirmou que quem deve falar sobre a vinculação da Cantareira são os especialistas, e não o Palácio dos Bandeirantes. 

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