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Rio Grande do Norte

09/08/2016


Produtora irá digitalizar acervo cultural potiguar

O nome Candinha Bezerra está atrelado à projetos culturais relevantes realizados no Rio Grande do Norte na última década. Fotógrafa, pianista e produtora cultural, ela é responsável pela articulação institucional de projetos como o Nação Potiguar e o Festival Literário da Pipa – que chega a sua sétima edição próximos dias 10, 11, 12 e 13 de agosto na Praia da Pipa em Tibau do Sul.

Personagem ativa nos bastidores, Candinha colabora na definição do conceito visual e no registro fotográfico das iniciativas que transitam entra as áreas de literatura, música, cultura popular e artes visuais, além de fazer o elo com parceiros e potenciais patrocinadores. Nos planos pós-Flipipa, a produtora irá se dedicar à digitalização do acervo e disponibilização do conteúdo produzido pelo Nação Potiguar a partir de 2001. O projeto registrou tradições (sonoras e orais, visuais e literárias) da cultura potiguar, promoveu a interação entre artistas locais e gente de outras partes do Brasil, e conseguiu mesclar o popular ao olhar contemporâneo – conteúdo que irá ganhar forma digital para ser disponibilizado na internet.

Ainda não há prazo final para conclusão do trabalho, mas na medida que o material for sendo digitalizado tão logo ele será disponibilizado. “Me identifiquei com a área de produção cultural, sou a que vai atrás das articulações de patrocínios, e posso garantir que o Flipipa só acontece em meio a toda essa crise devido ao envolvimento dos parceiro. O processo é todo colaborativo, muito amor e paixão envolvidos”, garante. Para Candinha, o Flipipa tem um sabor especial: “O mais importante de todo esse trabalho é poder envolver a comunidade escolar da região (Tibau do Sul e Goianinha, litoral sul do RN), e trabalhar na formação de novos leitores. Contar com apoio e participação de autores locais, que nos acompanham desde o começo, perceber as pessoas querendo somar, fazer o melhor, ir para frente. Somos vitoriosos nesse sentido”.

Candinha  possui um vasto material de registro do Festival Literário da Pipa, acumulado desde 2009, mas adiantou que “por enquanto” não há exposição prevista com as melhores imagens. “Não nesse momento, mas a exposição vai acontecer com certeza. Esse registro faz parte de um projeto maior, o Nação Potiguar que começou com uma exposição fotográfica de Dona Militana em São Paulo, no teatro de Antônio Nóbrega”.

Depois da exposição com Dona Militana, romanceira de São Gonçalo do Amarante, que também mereceu registro em áudio no CD triplo “Cantares” (2002), veio um ensaio fotográfico sobre o escritor, pesquisador e sertanista Oswaldo Lamartine. “O Nação Potiguar é bem amplo, destaque para fotografia, música, cultura popular e literatura”, enumera a produtora. O projeto de perfil multicultural é responsável pelo registro e mapeamento sonoro, visual e iconográfico de inúmeras manifestações artísticas, populares e eruditas do Rio Grande do Norte.

Coleção Galante

Além do Flipipa, estão na lista de realizações do Projeto Nação Potiguar a coleção de fascículos impressos Galante, exposições, lançamento de discos e série de shows com nomes expressivos da música instrumental como Naná Vasconcelos, Guinga, Hermeto Pascoal, Leo Gandelman e Henrique Cazes; e artistas do labo B da MPB como Arrigo Barnabé, Walter Franco, Itamar Assumpção, Arnaldo Antunes, Mestre Ambrósio e Mônica Salmaso. “Acredito que, pela primeira vez no RN, a música instrumental ganhou o devido destaque na programação de um evento local. Trouxemos para a frente do palco”, lembrou Candinha Bezerra. A coleção Galante, por exemplo, publicada ao longo de seis anos (entre 2003 e 2009), todo colorido e encartado gratuitamente nos principais jornais impressos do RN, é ilustrada por perfis de mestres Griôs, mais pesquisa, histórico e relatos sobre saberes e manifestações da cultura popular do RN a partir de textos produzidos por intelectuais convidados. Candinha circulou com equipe por todo o Estado, coletando e catalogando material para o Galante, onde cada edição era editada por um escritor, pesquisador e/ou acadêmico.

Divulgação
Encartada nos jornais Tribuna do Norte e Diário de Natal, a  Série Galante é  uma das mais completas pesquisas sobre cultura popularEncartada nos jornais Tribuna do Norte e Diário de Natal, a Série Galante é uma das mais completas pesquisas sobre cultura popular

O acervo fez circular, no Brasil e exterior, a radiografia da música potiguar de raiz, da poesia, cultura popular e literatura. “O Galante é utilizado até hoje como referência e fonte de pesquisa por estudantes e universitários. O projeto parou por falta de patrocínio. Temos a coleção impressa e uma série de CDs que precisam ser compartilhados”, planeja Candinha, que se responsabilizava pela parte visual da publicação, enquanto o poeta, curador e produtor cultural Dácio Galvão cuidava do conteúdo literário. No período, a dupla Candinha e Dácio recebia ajuda do professor Luiz Assunção, do Departamento de Antropologia da UFRN, que “fazia os contatos” acadêmicos e direcionava a edição.

Parceiros indispensáveis

Dificuldades para viabilizar o Flipipa, evento na área de literatura com envergadura nacional em uma cidade do interior do Nordeste, não faltam. “Verba mesmo, em dinheiro, é pouca”, garante. Ela informou que O Boticário entrou com uma pequena participação financeira e a Ecocil garante alguns cachês. Entre os parceiros consolidados, a InterTV Cabugi faz a promoção na mídia, o Sesi-RN e o Sesc-RN reforçam a programação, Sebrae-RN e Cooperativa Cultural da UFRN – além das parcerias locais como a Prefeitura de Tibau do Sul e o Espaço Pipa Open Air. “São grandes parceiros, indispensáveis, acreditam que podemos fazer mais e melhor”, avalia.

 
rogerio vital
Projetos como o Flipipa integram o projeto Nação Potiguar  com produção executiva da fotógrafa, produtora  Candinha Bezerra e parceriasProjetos como o Flipipa integram o projeto Nação Potiguar com produção executiva da fotógrafa, produtora Candinha Bezerra e parcerias

Para a produtora e fotógrafa, um dos entraves ao longo do processo de construção do Flipipa é a carestia na hospedagem: boa parte da equipe e das atrações convidadas ficarão hospedados em hotéis e pousadas de Tibau do Sul.  “Foi um ano bem apertado, tem sido difícil conseguir hospedagem em Pipa”. O Flipipa, assim como outros eventos, conferem fôlego extra ao fluxo turístico na região.

A pianista

Candinha Bezerra começou cedo seu envolvimento com arte e cultura. A porta de entrada foi a música: estudante de piano, aos nove anos se apresentava no palco do Teatro Alberto Maranhão ainda na década de 1950 – na época o teatro ainda se chamava Carlos Gomes. Chegou a ser agraciada com medalha de melhor intérprete da obra do compositor espanhol Isaac Albeniz. “Parei de tocar piano aos 16 anos. Era muita pressão, não me sentia confortável, ficava nervosa. Não era minha praia, estava me fazendo sofrer e me encontrei na produção cultural”.

Antes de migrar de vez para os bastidores dos eventos, Candinha se graduou em Educação Artística; foi aluna, monitora e professora da Escola de Música da UFRN. “Quando me casei (com o empresário Fernando Bezerra), fui morar nos EUA e continuei estudando música. Na volta fiz concurso para EMUFRN que acabou virando meu mundo por muito tempo, até me aposentar”.  Sua atuação como educadora e mecenas cultural lhe renderam homenagens: o Teatro Municipal de Santa Cruz, fundado em 1998, leva seu nome. Ela também batizou a escola fictícia que fez parte do enredo da novela global “Flor do Caribe” (2013). Ainda no final do século passado, em 1998, ajudou a criar a uma banda de música a partir de trabalho voluntário realizado no bairro de Igapó, na zona Norte de Natal.

O que

O Projeto Nação Potiguar realizou projetos ligados à música instrumental e com o Galante fez o mapeamento sonoro de manifestações da cultura popular. Entre os CDs lançados, destaques para “K-Ximbinho Sanfonado” e “K-Ximbinho Duetos” em 2009; o triplo “Cantares” (2002), registro definitivo da obra da romanceira D. Militana; “Canto do Seridó” de Elino Julião; e discos com repertório do  Araruna e Caboclinhos.

Tribuna do Norte

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