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Brasil

21/07/2015


Quem foi mesmo que detonou Eduardo Cunha?

Quem foi mesmo que detonou o poderoso Eduardo Cunha, providenciando o depoimento em que o delator Júlio Camargo, consultor da construtora Toyo, afirmou ter-lhe pago propina de US$ 5 milhões? A resposta parece não despertar interesse pois tal como contada a história está boa: turbina a crise e aumenta a confusão.

Para Cunha, acusar Rodrigo Janot, Dilma e o PT de terem articulado a denúncia foi a melhor saída. Defendeu-se negando tudo e desfechando um ataque que ampliou , pelo menos momentaneamente, as dificuldades do governo. Tenta transformar a crise politica numa crise institucional, compartilhando com Renan Calheiros o discurso de que Congresso está sendo atacado e o Estado de Direito ameaçado por uma aliança entre o Ministério Público e o Executivo.

Nos meandros da Lava Jato, entretanto, chama-se atenção para o fato que deu origem ao depoimento em que Camargo fez a denúncia. O vídeo do depoimento que circula pela Internet e foi postado pela Vara Federal de Sergio Moro mostram o início da sessão, com a câmera focada em Camargo. Sem aparecer, Moro informa: “Senhor Júlio. O senhor já foi ouvido neste processo mas houve um pedido de reinquirição por parte da defesa do senhor Fernando Soares, então vamos realizar esta reinquirição”. E informa que ele tem o direito de nada responder e ficar calado se preferir.

Ora, Fernando Soares é tido pela Lava Jato como operador do PMDB e até como sócio oculto de Cunha. Por que seu advogado, Nélio Machado, pediu a reinquirição de Júlio Camargo? Teria esperado uma coisa e se deparado com o explosivo depoimento que atingiu Cunha? Pode ter sido isso mas há quem pense que partiu de Fernando Baiano – que até agora não fez acordo de delação premiada e andaria dizendo sob reserva que recebe ameaças do PMDB para se manter calado – a decisão de explodir seu suposto parceiro bem mais importante. Naquele mesmo dia, Fernando Baiano também prestou depoimento a Sergio Moro e exerceu seu direito de ficar calado, não respondendo a nenhuma pergunta. Calou-se mas criou a oportunidade para Camargo falar.

E há também outra leitura, esta bem mais maquiavélica. Em depoimento prestado em maio no âmbito dos processos que correm no STF contra políticos, Júlio Camargo já havia citado Cunha e a suposta propina mas isso não se tornara público. Não o citara lá em Curitiba, na vara federal, de onde tudo vaza, por conta do acordo feito no STF. Por tal leitura, o próprio Cunha estaria por detrás do pedido de reinquirição de Júlio, feito pelo advogado de Baiano. Teria ele mesmo decidido explodir o caso, antes de sofrer uma busca e apreensão ou mesmo de ser denunciado por Janot ao STF. Antecipando-se, denunciado por um delator, no momento por ele escolhido, Cunha teria conseguido o protagonismo desejado, saindo como vítima de um complô ao qual reagiu com destemor, rompendo com o governo. Seria muito maquiavelismo.

Brasil 247 

Por Tereza Cruvinel

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